O argumento de Paulson é simples, mas de peso: as compras de bancos centrais, a crescente demanda do setor privado e a confiança cada vez menor em moedas fiduciárias (como o dólar) estão criando um impulso estrutural para o ouro — algo que ele considera secular, e não apenas cíclico . Ele já havia previsto que tensões comerciais poderiam empurrar o metal para perto de US$ 5.000/oz até 2028 e que os bancos centrais continuarão comprando independentemente do nível de preço .
Mas os dados realmente sustentam essa tese? Este artigo checa, com fontes e números, os principais pontos do argumento de Paulson.
No dia da entrevista de Paulson, o ouro era negociado a aproximadamente US$ 4.147/oz . Isso o coloca na faixa dos US$ 4.100, mas bem abaixo da máxima histórica de janeiro de 2026, de US$ 5.595 — uma queda de cerca de 28% no primeiro semestre, impulsionada pela inflação elevada nos EUA e pelas expectativas de alta de juros do Federal Reserve (o banco central americano) .
Para efeito de comparação, o Gold Valuation Framework do World Gold Council (WGC) estima o valor justo do ouro em aproximadamente US$ 4.100, com uma margem de tolerância de ±5% . O metal chegou a cair brevemente abaixo de US$ 4.000/oz em 25 de junho de 2026 — o menor nível em sete meses — antes de se recuperar acima de US$ 4.100 no início de julho .
Portanto, quando Paulson diz que o ouro está 'apenas começando' seu rali de alta, ele está fazendo essa afirmação após uma correção dramática, e não durante um rali parabólico. Esse contexto é fundamental.
A evidência mais forte de Paulson está nos dados de bancos centrais, que mostram uma mudança estrutural genuína.
Tendência plurianual: Os bancos centrais são compradores líquidos de ouro há 16 anos consecutivos . De 2022 a 2024, as compras líquidas anuais ultrapassaram 1.000 toneladas por três anos seguidos — um salto histórico em relação à média de ~473 toneladas/ano registrada entre 2010 e 2021 . Em 2025, os bancos centrais adicionaram 863 toneladas, um número inferior ao dos anos anteriores, mas ainda 82% acima da média pré-2022 .
Aceleração no 1º trimestre de 2026: As compras líquidas de bancos centrais atingiram 244 toneladas no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 17% em relação ao trimestre anterior e uma alta de 3% na comparação anual, de acordo com o World Gold Council . Esse foi o ritmo trimestral mais rápido em mais de um ano. Os principais compradores foram Polônia (31t) e Uzbequistão (25t) . No total, os bancos centrais compraram mais de 200 toneladas em 10 dos últimos 11 trimestres .
Uma fonte específica menciona 41 toneladas líquidas em maio de 2026, com Polônia (18t), China (10t) e Uzbequistão como principais compradores . No entanto, essa quebra mensal não pôde ser verificada de forma independente a partir das fontes primárias do World Gold Council retornadas nesta pesquisa.
O argumento de Paulson depende de saber se a compra dos bancos centrais é uma resposta temporária a choques geopolíticos ou uma mudança permanente na gestão de reservas. Os dados apoiam a visão estrutural por várias razões:
A tese de Paulson é bem apoiada pelos dados, mas merece atenção em alguns pontos:
A declaração de John Paulson de que o mercado de alta do ouro está apenas começando é baseada em mudanças estruturais reais e bem documentadas na demanda global por ouro. Os bancos centrais, de fato, se transformaram: de vendedores líquidos para compradores agressivos, com compras operando em cerca do dobro da média histórica por quatro anos consecutivos. Polônia, China e um número crescente de bancos centrais da Ásia e do Leste Europeu tratam o ouro como um ativo de reserva estratégico, e não como uma aposta tática.
No entanto, a ação do preço no início de 2026 — uma queda de cerca de 28% em relação ao pico de janeiro — mostra que mesmo um impulso estrutural poderoso pode ser temporariamente ofuscado por uma política monetária agressiva e um dólar forte no curto prazo. A tese de Paulson é apoiada pelos dados, mas continua sendo uma aposta de convicção de longo prazo, não uma certeza.