Este artigo detalha as ações legais da Sanofi, as tecnologias e produtos envolvidos, e como esses processos se encaixam na guerra mais ampla pela propriedade intelectual do mRNA.
Em 14 de julho de 2026, a Sanofi entrou formalmente na briga das patentes de mRNA. Sua subsidiária focada em mRNA, a Translate Bio, protocolou duas ações separadas no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito de Nova Jersey . Os casos são:
Um ponto crucial: a Sanofi deixou claro que sua estratégia é focada em compensação financeira, e não em atrapalhar o mercado. Um porta-voz da empresa afirmou que a Sanofi está "buscando uma compensação justa pelo uso de sua tecnologia patenteada" e que não pretende bloquear as vendas de nenhuma vacina . Essa abordagem — buscar indenizações sem pedir liminares — é consistente com a estratégia usada por outros autores nessas disputas de alto risco .
A Sanofi alega que as vacinas da Moderna e da Pfizer/BioNTech infringem até 10 patentes detidas pela Translate Bio . Essas patentes não cobrem a sequência de mRNA em si, mas sim as tecnologias críticas que permitem que o mRNA entre nas células do corpo de forma segura e eficaz. As disputas se concentram em duas áreas principais:
Composições e Métodos de Nanopartículas Lipídicas (LNPs): As patentes cobrem as composições e os métodos de fabricação das LNPs, os veículos de entrega gordurosos que encapsulam as frágeis moléculas de mRNA e as transportam para dentro das células humanas. A Translate Bio detém várias patentes sobre processos específicos de fabricação de LNP, incluindo encapsulamento com baixa concentração de citrato, formulação em temperatura ambiente e técnicas de mistura de LNPs pré-formadas . Esta é a área mais contestada de todo o cenário de PI do mRNA .
Tecnologias de Purificação de mRNA: Patentes adicionais no processo cobrem métodos para purificar o mRNA, uma etapa crucial na fabricação que remove contaminantes e garante a segurança e eficácia da vacina .
Nenhuma porcentagem de royalty ou valor financeiro específico foi divulgado publicamente nas queixas iniciais . A posição declarada da Sanofi é buscar uma "compensação justa" . No entanto, os potenciais valores financeiros em jogo são enormes. As vacinas mencionadas nos processos geraram dezenas de bilhões de dólares em receita de vendas acumulada. A publicação do setor Life Sciences IP Review observa que a Sanofi busca indenizações por vacinas "no valor de bilhões" .
Os processos buscam indenizações em dinheiro na forma de royalties razoáveis, e não uma liminar para impedir as vendas, um padrão comum nessas disputas .
Os processos da Sanofi não são um evento isolado, mas a mais recente escalada em uma guerra densa e multijurisdicional pela propriedade intelectual fundamental do mRNA e das LNPs. Cada grande player — Moderna, Pfizer/BioNTech, Sanofi/Translate Bio, CureVac, Arbutus e Genevant — está processando ou sendo processado, muitas vezes ambos .
Aqui está uma linha do tempo das principais disputas que moldam o cenário:
Esta é a disputa fundamental das guerras de patentes de mRNA. Em agosto de 2022, a Moderna processou a Pfizer e a BioNTech, alegando que eles copiaram a tecnologia patenteada da Moderna, especificamente a modificação de mRNA 1-metilpseudouridina (m1Ψ) e a tecnologia mais ampla de mRNA/LNP . O caso está em andamento, com reviravoltas complexas, incluindo a pausa parcial do caso nos EUA em 2024 para permitir que o USPTO (escritório de patentes dos EUA) revise a validade da patente e um recurso na Suprema Corte do Reino Unido protocolado em 2025 . A Moderna também entrou com ações judiciais adicionais contra a Pfizer e a BioNTech .
A Genevant e a Arbutus, duas empresas de biotecnologia que detêm patentes fundamentais sobre a tecnologia LNP, entraram com uma ação contra a Pfizer e a BioNTech em 2023, alegando que sua vacina infringe suas patentes de LNP . Este caso ainda está em andamento .
Em um desenvolvimento marcante que removeu uma grande nuvem legal para a Moderna, a empresa concordou em pagar até US$ 2,25 bilhões à Arbutus e à Genevant para resolver suas disputas de patentes de LNP. O pagamento inclui um pagamento inicial de US$ 950 milhões (com vencimento em julho de 2026) e US$ 1,3 bilhão adicionais dependentes do resultado de um recurso separado . Notavelmente, como parte deste acordo, a Moderna não deve nenhum royalty futuro sobre seu portfólio de futuras vacinas . Esse pagamento massivo ressalta o quão valiosa e contestada é a tecnologia LNP.
O cenário legal tornou-se cada vez mais lotado e agressivo. Em fevereiro de 2026, a BioNTech contra-atacou a Moderna, alegando que a vacina de próxima geração da Moderna contra a COVID-19 infringe uma de suas patentes . Em abril de 2026, a CureVac iniciou um processo contra a Moderna por violação de patente . Houve também vitórias e derrotas significativas para ambos os lados na Europa, com o Escritório Europeu de Patentes (EPO) mantendo uma patente importante da Moderna em julho de 2025 , e um tribunal alemão decidindo a favor da BioNTech no início daquele ano .
A entrada da Sanofi na briga marca uma expansão significativa do conflito de patentes de mRNA. As disputas agora estão centradas em três pilares tecnológicos principais:
A ação da Sanofi visa especificamente a camada de entrega e purificação de LNP, que continua sendo uma das áreas de maior risco e mais concorridas de todo o cenário de patentes. O resultado desses casos não apenas determinará quem pagará a quem pelas vacinas contra a COVID-19, mas também moldará a dinâmica financeira e competitiva para a próxima geração de terapêuticas baseadas em mRNA nos próximos anos.