A mesma estratégia aparece entre as refinarias independentes chinesas, conhecidas no mercado como “teapots”. Em julho, a Reuters informou que essas empresas compraram entre 16 milhões e 20,5 milhões de barris de petróleo do Catar, do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos — a maior aquisição de petróleo não sancionado do Oriente Médio desde o início do conflito, segundo operadores consultados.
Isso não significa que o abastecimento tenha voltado ao normal. Algumas refinarias chinesas teriam reduzido ou deixado de indicar volumes sauditas contratados para agosto, em meio à demanda doméstica fraca, à concorrência de outros produtores e à continuidade dos problemas no Estreito de Hormuz.
O petróleo iraquiano continua saindo do Golfo pelo Estreito de Hormuz, o que faz do país uma espécie de válvula de escape parcial para compradores asiáticos. Mas essa rota segue exposta a ameaças de segurança, restrições de seguro e escassez de navios-tanque. As exportações do sul do Iraque também têm poucas alternativas práticas caso o estreito se torne intransitável. A produção do país caiu para cerca de 1,9 milhão de barris por dia em junho, ante 4,2 milhões em fevereiro, segundo informações citadas pela CNBC.
Por isso, o Basrah é atraente como carga para entrega imediata, mas difícil de tratar como substituto plenamente confiável do petróleo regional que deixou de chegar. Um barril pode estar disponível na origem e ainda assim não ser comercialmente utilizável se não puder ser carregado, segurado ou transportado dentro do prazo previsto.
As chegadas de petróleo bruto à China se recuperaram em julho, depois de atingirem em junho o menor nível em quase uma década. Segundo a Reuters, as importações de julho alcançaram 8,41 milhões de barris por dia, ante 7,12 milhões em junho. Ainda assim, ficaram 24,3% abaixo do mesmo mês do ano anterior.
As importações asiáticas de petróleo bruto e combustíveis também melhoraram, para 22,82 milhões de barris por dia em julho — o maior nível desde o início do conflito. Mesmo assim, o total permaneceu cerca de 15% abaixo da média de 26,89 milhões de barris por dia registrada nos três meses anteriores ao conflito.
A recuperação indica, portanto, que alguns fluxos foram retomados e que as refinarias encontraram fornecedores alternativos. Ela não mostra que o sistema original de comércio do Golfo tenha sido restaurado. As exportações de petróleo bruto e condensado do Golfo permaneceram cerca de 40% abaixo dos níveis anteriores à guerra em julho.
Os dados de navegação ajudam a dimensionar o problema logístico. Apenas 33 embarcações atravessaram Hormuz entre segunda e quinta-feira na semana citada pela Reuters, contra 50 no período equivalente da semana anterior. Só seis navios-tanque de petróleo bruto haviam deixado o estreito naquela semana.
O Mar Vermelho acrescentou uma segunda camada de risco. Depois de um ataque contra instalações petrolíferas sauditas, o tráfego pelo Bab el-Mandeb caiu para 11 embarcações de carga em um domingo — o menor nível em meses, segundo dados da Kpler divulgados pela Reuters.
Para as refinarias, isso altera a economia de uma carga. A pergunta já não é apenas se o petróleo é barato ou compatível com a unidade industrial. Os compradores também precisam avaliar se a carga conseguirá sair do terminal, qual rota será usada, se seguradoras e armadores aceitarão essa rota e quanto risco de atraso já está embutido no preço.
A Arábia Saudita tem mais opções do que o Iraque porque seu oleoduto Leste-Oeste pode transportar petróleo do Golfo até Yanbu, no Mar Vermelho. Os volumes exportados por Yanbu se aproximaram de 2 milhões de barris por dia durante a fase inicial da interrupção, embora ainda fossem insuficientes para substituir todo o petróleo saudita normalmente embarcado por Hormuz.
A partir do Mar Vermelho, as cargas sauditas podem seguir para a Ásia pelo próprio Mar Vermelho e pelo Canal de Suez. A operação é complexa: superpetroleiros totalmente carregados não conseguem atravessar o canal. Por isso, algumas cargas usam o oleoduto Sumed, entre Ain Sokhna e Sidi Kerir, antes de serem recarregadas no Mediterrâneo.
Essa alternativa também não é livre de riscos. Navios que transportavam petróleo saudita chegaram a mudar de rumo após ataques e ameaças na região do Mar Vermelho, mostrando que a existência de uma rota alternativa não garante, por si só, entregas seguras.
A Saudi Aramco também avaliou transferências entre navios ao largo de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, para oferecer cargas de Arab Medium e Arab Heavy fora da área mais exposta de Hormuz. A iniciativa reforça como produtores e compradores estão montando soluções flexíveis, carga a carga, em vez de depender de uma única rota normal de exportação.
A Abu Dhabi National Oil Company, conhecida pela sigla ADNOC, ofereceu repetidamente os tipos Upper Zakum, Umm Lulu e Das por meio de leilões no mercado à vista. Esses petróleos são produzidos no Golfo, de modo que os leilões dão às refinarias asiáticas acesso a barris físicos enquanto testam quanto os compradores estão dispostos a pagar pelos riscos de carregamento e transporte.
A ADNOC vendeu pelo menos 30 milhões de barris de petróleo à vista para refinarias asiáticas e empresas de comercialização em junho, segundo informações da Reuters, e vendeu pelo menos outros 12 milhões de barris em um leilão realizado no fim de julho.
O mecanismo permite que os compradores tenham mais flexibilidade sobre o momento e as condições de entrega, ao mesmo tempo que ajuda a ADNOC a movimentar barris em meio à incerteza sobre a hidrovia. Leilões posteriores também ofereceram opções como carregamento free on board — quando o comprador assume a carga a partir do ponto de embarque — em locais dos Emirados ou transferências entre navios, segundo relatos do mercado.
Algumas cargas da ADNOC foram negociadas com prêmio, enquanto outros leilões apresentaram descontos expressivos, à medida que os produtores competiam para escoar o petróleo. Os sinais de preço aparentemente contraditórios são importantes: não existe um único “prêmio de Hormuz”. O valor depende do tipo de petróleo, do ponto de carregamento, da condição de entrega, da rota, do prazo e da percepção de segurança da carga.
Três conclusões se destacam:
As refinarias chinesas estão mantendo suas operações abastecidas por meio de uma combinação de compras imediatas de petróleo saudita e iraquiano, alternativas não sancionadas do Oriente Médio e leilões oportunistas no mercado à vista. A recuperação das importações chinesas em julho confirma que parte da oferta voltou, mas a China e o mercado asiático como um todo continuaram bem abaixo dos níveis anteriores ao conflito.
O petróleo do Golfo ainda chega à Ásia, mas por um sistema menos eficiente e mais fragmentado: passagens seletivas por Hormuz, desvios sauditas por oleoduto e pelo Mar Vermelho, transferências entre navios e leilões frequentes nos Emirados Árabes Unidos. Enquanto o tráfego marítimo, o acesso a seguros e as rotas de exportação não se normalizarem, a logística confiável — e não apenas a qualidade do petróleo — será o principal critério para definir quais barris as refinarias chinesas estarão dispostas a comprar.