O gargalo está principalmente na tomada de decisão. Os sistemas precisam de modelos de mundo capazes de perceber o ambiente, entender relações de causa e efeito, elaborar planos, corrigir erros e agir com segurança em situações novas. Fazer um humanoide caminhar é uma coisa; fazê-lo escolher a ferramenta certa, ajustar a força aplicada e concluir uma tarefa delicada sem supervisão é outra bem diferente.
Dois problemas se destacam:
Há também uma limitação estrutural de dados. Modelos como o ChatGPT puderam ser treinados com volumes gigantescos de textos disponíveis na internet, na ordem de trilhões de tokens. Para robôs, não existe um equivalente tão barato, padronizado e escalável de experiências físicas.
Um sistema de inteligência incorporada precisa aprender com trajetórias de manipulação, imagens, informações táteis e de força, além de dados sobre erros e tentativas malsucedidas. Simulações e teleoperação ajudam a preencher essa lacuna, mas ainda não demonstram que um robô conseguirá generalizar com segurança entre diferentes casas, objetos, obstáculos, condições de luz e comportamentos humanos.
É por isso que qualquer data no calendário deve ser vista como uma estimativa altamente incerta. O desafio é conectar modelos de inteligência artificial aos corpos físicos dos robôs de maneira eficiente, segura e confiável.
A cautela técnica de Wang contrasta com a recepção dos investidores. As ações da Unitree subiram 460% no fechamento de seu primeiro dia de negociação em Xangai, uma alta de mais de cinco vezes em relação ao preço da oferta pública inicial.
Esse movimento sinaliza que o mercado está precificando a possibilidade de uma nova plataforma tecnológica em escala global. Não significa, porém, que os robôs da empresa já estejam prontos para executar tarefas domésticas de forma autônoma.
A demanda atual ainda é associada principalmente a universidades, laboratórios e instituições de pesquisa, e não a grandes frotas de robôs para consumidores ou empresas. Isso indica adoção inicial e interesse tecnológico, mas não comprova, por si só, que o setor tenha encontrado um modelo de negócio maduro.
Um relatório divulgado durante o evento afirmou que a China entregou mais de 40 mil robôs humanoides no primeiro semestre de 2026, o equivalente a 97% das remessas globais. Também foi citada uma projeção do Morgan Stanley de 50 mil unidades chinesas em 2026, contra 12 mil em 2025.
Esses números precisam ser interpretados com cuidado. Outro levantamento citado no material disponível calcula 19.100 remessas humanoides no mundo inteiro no primeiro semestre, também com fabricantes chineses respondendo por 97% do total. A diferença sugere que os estudos podem estar considerando categorias, escopos ou conceitos distintos — como “remessas” e “entregas”.
A conclusão mais segura é direcional: empresas chinesas dominam o volume inicial do mercado. A quantidade exata de robôs já entregues, no entanto, não está resolvida pelas evidências disponíveis.
Wang Xingxing não foi o único executivo a projetar uma virada próxima. Wang He, fundador e diretor de tecnologia da Galbot, previu que a indústria poderia atingir um “momento ChatGPT” até o fim de 2028, impulsionada pela convergência dos modelos e pelo acúmulo de dados.
A convergência de previsões mostra que existe uma base concreta para o otimismo: os custos de hardware estão caindo, a capacidade industrial chinesa é grande e várias empresas estão investindo em modelos de mundo. Mas previsões semelhantes entre fundadores não equivalem a um consenso de engenharia. Ainda faltam demonstrações independentes de desempenho geral, confiabilidade, segurança e viabilidade econômica em residências desconhecidas.
A geopolítica também pode afetar a velocidade desse processo. A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) incluiu dispositivos robóticos avançados produzidos no exterior em sua lista de equipamentos considerados de risco à segurança nacional. A medida restringe a autorização e a entrada de novos modelos estrangeiros, incluindo robôs humanoides e quadrúpedes, embora as reportagens indiquem que ela não necessariamente atinja todos os modelos já existentes no mercado americano.
Para a Unitree, isso pode limitar o acesso a um mercado importante e dificultar o ciclo de escala e coleta de dados que os otimistas esperam. Menos robôs em circulação significam potencialmente menos oportunidades de reunir experiências reais de uso — justamente o tipo de dado que a inteligência incorporada ainda precisa.
Há motivos legítimos para acreditar que os robôs humanoides vão melhorar rapidamente. Hardware mais barato, produção em grande escala e investimentos crescentes podem acelerar a evolução. Também é plausível que surjam aplicações úteis antes de um robô doméstico de uso geral.
Mas o padrão definido por Wang — realizar cerca de 80% das tarefas em uma casa desconhecida, a partir de comandos comuns — é muito mais exigente do que uma demonstração controlada. Não há, até agora, evidência de um consenso técnico de que esse nível será alcançado em dois ou três anos, ou mesmo até 2028.
A leitura mais equilibrada é: o progresso é crível, mas o calendário continua especulativo. Dois a três anos representam um cenário de alta, enquanto cinco a dez anos refletem melhor os obstáculos ainda abertos em software, dados, confiabilidade, segurança, custos e regulação. A disparada das ações da Unitree expressa a expectativa de um mercado de robótica em escala de plataforma — não uma prova de que os robôs já estejam prontos para cuidar da casa sozinhos.