O espectro também apresenta uma quebra de Balmer excepcionalmente profunda, emissão de hidrogênio larga e complexa e fortes sinais de absorção nas linhas de Balmer. Há ainda pouca evidência de elementos mais pesados que hidrogênio e hélio. Em conjunto, essas características sugerem um ambiente gasoso muito denso, turbulento e relativamente primitivo, diferente do espectro desimpedido de uma estrela comum ou de um núcleo galáctico ativo típico.
No modelo proposto, um buraco negro com cerca de 100 mil massas solares estaria consumindo matéria em ritmo acelerado. O gás que cai libera energia gravitacional, aquecendo o envelope ao redor. Essa camada se comportaria como uma espécie de “pseudofotosfera”: uma superfície aparente semelhante à de uma estrela, que faria o sistema inteiro parecer compacto, luminoso e avermelhado, embora sua fonte central de energia seja a acreção — e não a fusão nuclear.
Modelos que combinam um buraco negro em acreção com um envelope denso de hidrogênio reproduzem melhor o brilho e a cor observados pelo James Webb do que uma explicação baseada em uma estrela comum. Dependendo do modelo, o gás se estenderia em escalas comparáveis às do Sistema Solar.
A cor vermelha do objeto também pode ser causada pelo gás, e não necessariamente por poeira. A radiação produzida perto do buraco negro pode ser absorvida, espalhada e reemitida pelo material ao redor, fazendo com que a luz que escapa seja deslocada para comprimentos de onda mais longos e avermelhados.
O James Webb encontrou muitas fontes pequenas, vermelhas e luminosas no universo primordial. Elas ficaram conhecidas como “little red dots”, ou “pontinhos vermelhos”. Seu tamanho aparente e seus espectros incomuns dificultam a identificação de sua natureza física.
MoM-BH*-1 é especialmente útil porque a emissão atribuída ao buraco negro pode dominar completamente a luz da galáxia hospedeira, tornando o mecanismo de produção de energia mais fácil de estudar. Se processos semelhantes ocorrerem em sistemas menos isolados, muitos pontinhos vermelhos mais fracos podem ser objetos relacionados, incorporados a galáxias jovens.
Nesse cenário, os pontinhos vermelhos não formariam uma única população convencional de estrelas. Eles poderiam ser buracos negros em rápido crescimento, envolvidos por “cocares” densos de gás que os fazem parecer estrelas nas observações infravermelhas. A hipótese também é relevante para entender como buracos negros muito massivos surgiram tão cedo na história cósmica. Um envelope denso poderia permitir que uma semente de buraco negro acumulasse matéria rapidamente, embora MoM-BH*-1, isoladamente, não revele toda a trajetória de crescimento dos buracos negros supermassivos posteriores.
Um buraco negro em acreção sem muita obstrução deveria produzir uma emissão intensa de alta energia, incluindo raios X. Mas um casulo espesso de gás muda o que consegue escapar. Os raios X gerados nas proximidades do buraco negro podem ser absorvidos ou espalhados repetidamente dentro do envelope, enquanto parte de sua energia é redistribuída em radiação ultravioleta e infravermelha de menor energia.
Isso oferece uma explicação plausível para o fato de MoM-BH*-1 e de outros pontinhos vermelhos serem brilhantes nas observações infravermelhas do James Webb, mas fracos ou não detectados em raios X. Ainda assim, trata-se de uma interpretação compatível com os modelos de buracos negros envoltos por gás — não de uma medição direta que demonstre que cada fóton de raios X ausente foi reprocessado dessa maneira.
A proposta se baseia em evidências indiretas. O James Webb mediu a luz do objeto, mas não fotografou diretamente um buraco negro dentro de um envelope gasoso. Além disso, o espectro atual não apresenta uma única característica capaz de eliminar de forma definitiva todas as explicações alternativas.
Outras possibilidades ainda precisam ser testadas, incluindo combinações de uma galáxia compacta, gás incomum, poeira, populações estelares e atividade de um buraco negro obscurecido. Portanto, o modelo da “estrela de buraco negro” é um forte candidato e a melhor explicação disponível até agora, mas “melhor explicação” não é o mesmo que identificação definitiva.
Novas observações do James Webb poderão procurar características espectrais previstas pelo modelo, restringir a densidade e a composição do gás, medir o tamanho da fonte com maior precisão, buscar variações de brilho e comparar MoM-BH*-1 com uma amostra maior de pontinhos vermelhos. Esses testes ajudarão a determinar se o objeto é uma raridade de transição ou parte de uma população mais ampla de buracos negros envolvidos por gás no amanhecer cósmico.
MoM-BH*-1 é mais bem entendido, por enquanto, como uma candidata a “estrela de buraco negro”: um buraco negro de aproximadamente 100 mil massas solares, alimentando-se rapidamente e escondido por um envelope denso de hidrogênio que o faz brilhar como uma enorme estrela vermelha. Seu brilho extremo e suas características incomuns nas linhas de Balmer favorecem essa interpretação, enquanto o mesmo casulo pode explicar a cor avermelhada e o sinal fraco em raios X. Mas a hipótese ainda depende de modelos e não confirma uma nova classe de objeto celeste.