A união pretende aproximar o desenvolvimento de hardware de sua aplicação comercial. Com as duas áreas mais integradas, a Alibaba pode coordenar melhor o desenho dos chips, a capacidade dos data centers, o treinamento dos modelos e a inferência — isto é, a execução de modelos já treinados para responder aos usuários.
A aposta não é apenas criar um chip ou um modelo superior de forma isolada. A empresa quer controlar uma parcela maior da cadeia para tentar melhorar o desempenho e a economia dos serviços vendidos a outras companhias. Isso pode facilitar a transformação de infraestrutura própria em receita de nuvem, embora os resultados disponíveis ainda não comprovem que essa abordagem integrada produzirá retornos superiores no longo prazo.
A criação do AI Lab and Applications dá ao Qwen um responsável direto tanto pelo desenvolvimento dos modelos quanto por sua adoção em produtos. Esse ponto é importante porque a Alibaba persegue dois objetivos simultâneos: distribuir o Qwen amplamente e transformar seu uso em demanda por aplicativos, ferramentas e serviços de nuvem.
O desenho também separa o motor de crescimento formado por modelos e aplicativos do negócio de infraestrutura, sem romper a conexão estratégica entre eles. O Qwen pode levar usuários aos serviços de nuvem da Alibaba, enquanto a Alibaba Cloud fornece computação, hospedagem e soluções empresariais para comercializar o modelo.
Alguns números frequentemente associados à estratégia de IA da Alibaba pertencem a períodos diferentes. No último trimestre do ano fiscal de 2026, a receita externa da Cloud Intelligence cresceu 40%, e os produtos relacionados à IA representaram cerca de 30% da receita externa de nuvem.
No trimestre seguinte, o primeiro do ano fiscal de 2027, os indicadores foram mais fortes em vários aspectos:
Por isso, o número de RMB 35,8 bilhões em receita anualizada de IA e a marca de 11 trimestres consecutivos de crescimento de três dígitos devem ser entendidos como métricas de um período anterior, e não como a melhor descrição do primeiro trimestre fiscal de 2027.
A direção é promissora: a demanda por IA já não aparece apenas como uma frente de pesquisa dentro da Alibaba. Ela começa a se refletir na comercialização da nuvem e na receita de produtos. Ainda assim, o crescimento das vendas relacionadas à IA, por si só, não prova que o negócio já seja lucrativo.
A estratégia para o Qwen combina distribuição com pesos abertos e uma possível divisão de receitas com grandes usuários comerciais. A Reuters informou que a empresa pretendia pedir a usuários comerciais de grande porte de uma futura versão do Qwen que negociassem acordos baseados na receita gerada por produtos ou serviços desenvolvidos com o modelo. O modelo continuaria amplamente distribuído, mas as maiores implementações comerciais poderiam estar sujeitas a condições adicionais.
O ponto importante é que esse plano não constituía uma política pública de preços totalmente definida. As fontes não estabeleceram uma porcentagem final de participação, um limite de receita ou um sistema completo de licenciamento. A proposta sinaliza, portanto, uma tentativa de capturar parte do valor comercial do Qwen sem abrir mão do alcance que a distribuição com pesos abertos pode oferecer.
A iniciativa cria duas possíveis rotas de monetização:
A resposta dos clientes dependerá dos termos finais. Uma licença mais exigente pode gerar receita, mas também tornar grandes usuários mais cautelosos em adotar o modelo.
A consolidação atual chama atenção porque prioriza a coordenação das áreas que a administração considera decisivas. Em vez de manter chips, nuvem, modelos e aplicativos separados, a empresa está aproximando esses negócios para que o desenvolvimento de produtos e os investimentos em infraestrutura sejam gerenciados como partes de um mesmo sistema. A reformulação também reúne as principais operações de comércio para melhorar a coordenação do ecossistema de consumidores e lojistas.
A mudança se distancia da reorganização de 2023, que enfatizava a descentralização, a responsabilidade financeira de cada unidade e a possibilidade de listagens separadas. O plano de abertura de capital da área de nuvem, por exemplo, acabou sendo abandonado. Agora, a Alibaba caminha na direção oposta nas tecnologias consideradas estratégicas: recentraliza a coordenação entre chips, computação em nuvem, modelos e aplicativos.
O teste prático será saber se essa estrutura encurta o caminho entre pesquisa e adoção. Se o Qwen atrair usuários, eles poderão gerar demanda por computação em nuvem, ferramentas empresariais e aplicativos de IA. Ao mesmo tempo, uma operação de comércio mais integrada pode usar inteligência artificial para fortalecer os negócios centrais voltados a consumidores e vendedores.
Os dados disponíveis sustentam a direção da mudança, mas não comprovam que a consolidação organizacional, por si só, criará uma vantagem competitiva. Isso ainda é uma hipótese da administração, que deverá ser testada por indicadores como adoção por clientes, margens da nuvem, uso dos modelos e retorno sobre os investimentos em infraestrutura.
Os investidores acompanhavam se a aceleração da nuvem seria suficiente para compensar o custo de construir capacidade em inteligência artificial. Antes da divulgação dos resultados, uma estimativa de consenso apontava receita trimestral de US$ 38,63 bilhões. A Alibaba reportou receita de RMB 268,95 bilhões, equivalente a aproximadamente US$ 39,64 bilhões, alta de 9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A evolução do lucro foi bem mais fraca. O lucro líquido caiu cerca de 75%, para aproximadamente RMB 10,5 bilhões, enquanto a cobertura do mercado apontou lucro por ação ajustado de US$ 1,26. O EBITA ajustado também recuou, à medida que a Alibaba elevou os gastos com infraestrutura de IA, tecnologia e iniciativas relacionadas.
A empresa afirmou que espera superar seu plano de investimento anunciado anteriormente, de RMB 380 bilhões ao longo de três anos, destinado à IA e à infraestrutura de nuvem. Essa escala ajuda a explicar por que a Alibaba pode apresentar forte demanda por serviços de nuvem e, ao mesmo tempo, deixar os investidores preocupados com o perfil de lucro no curto prazo.
A leitura mais clara do primeiro trimestre fiscal de 2027 não é que a Alibaba já tenha provado a economia de seus negócios de IA. É que a empresa está priorizando deliberadamente as condições que considera necessárias para construir essa rentabilidade:
O compromisso tem um custo visível nas demonstrações financeiras. A demanda por nuvem e IA está acelerando, mas os servidores, chips, desenvolvimento de modelos e capacidade computacional necessários para atendê-la reduzem a rentabilidade e pressionam o caixa no curto prazo.
A próxima evidência que os investidores precisarão ver não é apenas mais um aumento no uso dos modelos. Será necessário demonstrar que a receita de IA consegue crescer mais rápido do que o custo da infraestrutura que sustenta essa expansão.
A alegação de mais de 3 bilhões de downloads do Qwen em seis meses e a suposta alta trimestral de 36% das ações da Alibaba listadas em Hong Kong não foram corroboradas de forma independente pelas fontes disponíveis para este artigo. Por isso, esses números não devem ser tratados como evidência confirmada do sucesso da estratégia.