O valor de €880 bilhões mencionado na pergunta pode refletir uma definição mais ampla da exposição ou a duplicação da estimativa de €440 bilhões. No entanto, as evidências disponíveis não confirmam esse número maior. A exposição também pode estar distribuída por fundos de índice, fundos de pensão e seguradoras, o que amplia os canais pelos quais uma queda nos Estados Unidos poderia chegar à Europa.
Um dos indicadores acompanhados pelo mercado é o Shiller CAPE, ou índice de preço sobre lucro ajustado ciclicamente. Ele compara o preço do S&P 500 com a média dos lucros reais das empresas nos dez anos anteriores, ajudando a suavizar oscilações temporárias.
O CAPE está próximo de 41, um nível perto do maior registrado desde o pico da bolha das empresas pontocom, em 2000. O indicador não prevê quando uma queda ocorrerá, mas mostra que os investidores estão pagando preços que pressupõem resultados muito otimistas no longo prazo.
Outro sinal de atenção é que o investimento americano em tecnologia, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), já superou o pico observado nos anos 1990. Isso indica a dimensão do ciclo de gastos em computação, data centers e infraestrutura relacionada à IA — mas também eleva a exigência para que esses investimentos produzam receitas e lucros compatíveis.
A expansão da infraestrutura de IA também está sendo financiada por crédito. Estimativas apontavam para quase US$500 bilhões em emissão de dívida relacionada à IA em 2026 até o início de agosto, enquanto o Morgan Stanley projetava cerca de US$570 bilhões para o ano.
A dívida ligada à IA já se aproximava de 15% das emissões de títulos corporativos com grau de investimento. Bancos e empresas passaram a recorrer a estruturas cada vez mais complexas para financiar data centers, chips e cadeias de fornecimento.
O ponto de preocupação não é apenas o volume, mas também a forma como o financiamento é organizado. Leasing, veículos de propósito específico, fundos de crédito privado e outras estruturas podem transferir parte da alavancagem para fora dos balanços mais visíveis das grandes empresas de tecnologia.
Isso torna mais difícil identificar:
A comparação com a bolha pontocom é, portanto, uma comparação de risco — não uma afirmação de que as estruturas atuais sejam idênticas às de 2000.
Há uma diferença importante em relação a muitas empresas da era pontocom: as maiores companhias de tecnologia de hoje, em geral, têm receitas substanciais, lucros, geração de caixa e balanços mais fortes.
Por isso, um cenário possível é o de uma compressão prolongada das avaliações. Nesse caso, os lucros continuariam crescendo enquanto os preços das ações permaneceriam estáveis ou cairiam, permitindo que os resultados das empresas alcançassem gradualmente os múltiplos pagos pelos investidores.
Isso seria mais parecido com a bolha “murchando” do que com um colapso imediato. Ainda assim, lucros atuais não eliminam o risco de que os gastos de capital e o serviço da dívida cresçam mais rapidamente do que a capacidade de transformar a IA em receita.
O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, também acompanha a pressão elevada sobre as avaliações de ativos e o financiamento do investimento em IA. Relatórios e pesquisas associados ao mercado destacam que os múltiplos de preço sobre lucro das ações estão na faixa superior de sua distribuição histórica, apoiados por expectativas de forte crescimento dos lucros das empresas de tecnologia e por um apetite elevado por risco.
Mas há uma ressalva importante de atribuição: as evidências fornecidas não mostram que o Federal Reserve tenha emitido todos os alertas numéricos específicos sobre um CAPE de 41,4, o pico do investimento tecnológico em relação ao PIB ou o nível recorde do S&P 500. Esses números aparecem como indicadores de mercado e de pesquisas independentes. Já o argumento explícito de que uma correção é provável foi apresentado pelos economistas do BCE.
Uma liquidação forte nas ações de tecnologia americanas poderia produzir efeitos além das carteiras dos acionistas. Entre os possíveis impactos estão:
A preocupação do BCE é que a zona do euro possa sofrer mesmo sendo um mercado secundário nesse ciclo. A região está conectada aos Estados Unidos por fundos de investimento, previdência, seguradoras e pelas condições globais de financiamento.
Outro ponto destacado pelo BCE é que autoridades monetárias e fiscais teriam hoje menos margem para amortecer uma desaceleração com grandes cortes de juros ou estímulos orçamentários agressivos.
Se a correção ocorrer de forma desordenada, essa limitação pode aumentar o custo econômico do ajuste. O risco, portanto, não depende apenas de saber se a IA é uma tecnologia real e lucrativa. A questão é se os preços dos ativos, os investimentos e a dívida cresceram além do que os lucros futuros conseguirão sustentar — e se governos e bancos centrais terão instrumentos suficientes para conter os efeitos de uma reversão.