A resposta da indústria é lenta. Construir novas fábricas, instalar equipamentos, elevar o rendimento da produção e qualificar a HBM para uso em sistemas complexos leva anos, não apenas alguns trimestres. Por isso, mesmo anúncios de expansão não significam alívio imediato.
Os aumentos já atingiram a memória convencional. A TrendForce projetou alta de 90% a 95% nos preços contratuais de DRAM convencional no primeiro trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores.
Para o terceiro trimestre, as projeções mais recentes indicaram novas altas de 13% a 18% para DRAM e de 10% a 15% para NAND. Trata-se de um choque concentrado no mercado de memória, e não de uma escassez generalizada de todos os tipos de semicondutores.
O impacto econômico ganhou o nome de “chipflation” — uma inflação provocada pelo encarecimento dos chips. Fabricantes de eletrônicos podem repassar o custo ao consumidor, reduzir suas margens ou diminuir a quantidade de memória dos produtos. Empresas que não conseguem repassar toda a alta ficam com menos espaço para investir e operar.
A pressão também pode chegar a serviços de nuvem e de IA, caso os custos de memória dos data centers sejam transferidos aos clientes. Ainda assim, a escassez, sozinha, provavelmente não será suficiente para definir a inflação geral de uma economia. O efeito macroeconômico dependerá da duração do problema, do quanto dos custos será repassado e de possíveis impactos indiretos dos data centers sobre energia, construção e outros insumos.
Samsung, SK Hynix e Micron estão entre os principais beneficiários do desequilíbrio. A oferta restrita fortalece seu poder de precificação, amplia margens, favorece contratos de longo prazo e anima investidores.
Mas o ciclo de memória traz um risco conhecido. Se as empresas investirem agressivamente para atender à demanda projetada de IA e essa demanda esfriar, pode surgir capacidade excedente. Se investirem pouco, a escassez pode se prolongar, levando clientes a redesenhar produtos ou buscar fornecedores alternativos.
Carros modernos usam memória em sistemas de entretenimento, conectividade, assistência ao motorista e controle eletrônico. Custos mais altos e dificuldade para garantir componentes podem aumentar o custo de produção, alterar cronogramas e afetar primeiro os programas de veículos menos rentáveis.
Entidades que representam montadoras, varejistas e empresas de eletrônicos já alertaram para interrupções na cadeia de suprimentos e para uma alta significativa e persistente nos preços de bens de consumo. O impacto tende a ser maior sobre fornecedores e fabricantes de menor volume, que têm menos poder de compra, do que sobre as maiores montadoras.
Fabricantes de PCs, smartphones, consoles e aparelhos de baixo e médio preço têm menos margem para absorver a alta. As alternativas são conhecidas: aumentar o preço nas lojas, aceitar margens menores, oferecer configurações com menos memória ou limitar os embarques.
A Apple já afirmou que o aumento do custo da memória começou a pressionar sua rentabilidade. Também há projeções de queda na demanda global por smartphones, computadores pessoais e consoles à medida que os preços sobem.
Não existe uma data precisa para o fim do problema. A TrendForce espera que a alocação de capacidade para HBM e a demanda por servidores de IA mantenham a DRAM sob restrição e os preços em trajetória de alta em 2027.
Uma normalização antes disso exigiria uma desaceleração relevante da demanda, a entrada bem-sucedida de nova capacidade e melhorias no rendimento das fábricas — ou uma combinação desses fatores.
Mesmo quando novas linhas começarem a operar, elas poderão atender primeiro aos produtos mais estratégicos para os fabricantes, como HBM e memória de servidores. Isso significa que consumidores e setores com menor poder de compra talvez não sintam alívio na mesma velocidade.
Em um mercado escasso, empresas podem fazer pedidos maiores do que seu consumo real para garantir espaço na fila. Esse comportamento pode incluir estoque preventivo e até uma espécie de reserva duplicada de componentes por diferentes compradores.
No curto prazo, isso faz a demanda parecer ainda mais forte, agrava a falta de produtos e incentiva as fabricantes a expandirem a capacidade. Porém, quando os clientes começam a reduzir os estoques acumulados, os pedidos podem despencar de forma repentina.
Nesse cenário, os preços sofreriam uma correção brusca e as fábricas poderiam operar abaixo da capacidade. É um dos mecanismos clássicos do ciclo de semicondutores: a escassez estimula encomendas e investimentos, que mais tarde podem produzir oferta demais.
A outra grande incerteza está na própria economia da IA. Se os investimentos em data centers forem baseados em expectativas otimistas demais sobre receita, utilização ou monetização, um retorno abaixo do esperado poderá levar empresas a cancelar ou adiar encomendas de memória.
Se isso ocorrer ao mesmo tempo em que novas fábricas entram em operação, a atual escassez poderá se transformar em excesso de oferta. O resultado seria uma queda nos preços dos chips, nos lucros dos fornecedores e nos gastos de capital, além de pressão sobre avaliações de ações ligadas à IA.
A questão central é se a demanda por IA será duradoura o bastante para absorver tanto a oferta já contratada quanto a capacidade que está sendo planejada. Se for, os preços elevados de memória podem persistir. Se não for, a mesma corrida para garantir componentes e construir fábricas poderá preparar uma desaceleração abrupta mais adiante.