O momento do anúncio tornou a mudança particularmente tumultuada. O exercício já estava planejado e começaria em poucas horas. Assim, o Pentágono e as forças armadas dos dois países precisaram rever os preparativos em curto prazo, em vez de simplesmente cancelar o evento.
Os dois aliados concordaram em encerrar o Ulchi Freedom Shield em 21 de agosto, e não em 27 de agosto. A duração caiu de 11 para cinco dias, enquanto parte do treinamento combinado de manobras em campo foi reduzida. O Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul disse que o ajuste havia sido solicitado pelos Estados Unidos.
A mudança aparentemente afetou mais do que o calendário. A primeira fase do exercício se concentrava na defesa contra um ataque. Uma etapa posterior, voltada para operações de contraofensiva, deveria ser cancelada ou adiada, segundo relatos da imprensa sul-coreana. As informações disponíveis, porém, não apresentavam um plano final detalhado para essa fase.
O Pentágono informou que atividades associadas de treinamento com munição real também foram reduzidas. Algumas foram canceladas ou transformadas em simulações. Ainda assim, o Departamento de Defesa afirmou que os ajustes não comprometeriam os objetivos de treinamento e preservariam a “prontidão essencial” dos aliados.
Autoridades e militares sul-coreanos teriam sido pegos de surpresa. A determinação veio quando o planejamento estava praticamente concluído e o exercício já começava, obrigando Seul a avaliar rapidamente os efeitos sobre a postura de defesa conjunta.
Depois do anúncio, o general Xavier Brunson, comandante das Forças dos Estados Unidos na Coreia, visitou o Ministério da Defesa sul-coreano para discutir os planos de redução. A reunião indicou que os detalhes práticos ainda estavam sendo definidos após a ordem presidencial.
A resposta pública da Coreia do Sul tentou preservar os dois lados da equação: tranquilizar sobre a aliança e apoiar uma possível retomada diplomática. O presidente Lee Jae Myung ressaltou que uma parceria sólida com os Estados Unidos é fundamental para a segurança nacional. Ao mesmo tempo, Seul disse esperar que um novo contato entre Washington e Pyongyang pudesse diminuir as tensões.
O Ulchi Freedom Shield é um dos principais exercícios anuais de defesa conjunta entre Estados Unidos e Coreia do Sul. O planejamento para 2026 previa a participação de cerca de 18 mil militares sul-coreanos e incluía cenários adaptados a ameaças como drones, interferência em GPS e ataques cibernéticos. O treinamento combinava atividades em postos de comando e operações em campo.
Não se trata apenas de uma demonstração pública de força. Exercícios desse tipo testam se os dois exércitos conseguem compartilhar informações, coordenar decisões, deslocar tropas e suprimentos e operar de maneira integrada durante um possível conflito. Autoridades americanas e sul-coreanas descrevem as manobras como defensivas; a Coreia do Norte costuma classificá-las como ensaios para uma invasão.
Os Estados Unidos mantêm aproximadamente 28.500 militares na Coreia do Sul. Essa presença faz parte do equilíbrio militar permanente na península, enquanto os exercícios demonstram como as tropas americanas atuariam em conjunto com as forças sul-coreanas em uma crise.
Antes da redução, Pyongyang condenou os exercícios planejados, classificando-os como mais provocativos do que os do ano anterior e como preparação para um confronto militar. A Coreia do Norte também afirmou que a cooperação entre Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul estava se transformando em uma “aliança nuclear” e ameaçou responder com um nível mais alto de dissuasão.
A redução entregou, portanto, algo que Pyongyang há muito exige: exercícios militares aliados menores. As reportagens disponíveis não indicam, porém, que a Coreia do Norte tenha oferecido uma contenção equivalente de seus programas nuclear ou de mísseis em troca. Essa falta de reciprocidade está no centro das críticas à decisão.
A cooperação trilateral com o Japão acrescenta outra dimensão. A coordenação entre Washington, Seul e Tóquio está ligada à dissuasão regional e à resposta a ameaças de mísseis. Por isso, a credibilidade dessa rede de segurança importa para além da península coreana. As declarações públicas de Pyongyang indicam que o regime considera essa cooperação parte da ameaça que pretende enfrentar.
O encurtamento do exercício coincidiu com novos sinais de que Trump queria retomar o contato com Kim Jong-un. Reportagens indicaram que uma reunião poderia ser discutida durante a visita esperada de Trump à China, em novembro, embora analistas tenham avaliado que a Coreia do Norte talvez não veja motivos suficientes para voltar às negociações.
O cenário hoje é diferente do das cúpulas de 2018 e 2019. Analistas apontam o apoio da Rússia e da China à Coreia do Norte e a menor dependência de Pyongyang em relação ao alívio de sanções. Também há avaliações de que Kim poderia exigir o reconhecimento da Coreia do Norte como Estado nuclear — uma condição que Washington consideraria inaceitável.
A política sul-coreana também está mudando. Seul deixou de insistir que a desnuclearização completa e imediata seja a primeira condição para qualquer diálogo. Em seu lugar, passou a considerar medidas intermediárias, como congelar o programa nuclear existente e negociar ações recíprocas de redução de riscos.
Essa estratégia pode tornar a diplomacia mais viável, mas também muda o significado das concessões. Um exercício menor pode ser interpretado como medida de construção de confiança — ou como prova de que a pressão norte-coreana sobre Washington e Seul está funcionando. Analistas alertam que a expansão das capacidades da Coreia do Norte e seus laços militares mais estreitos com a Rússia fortaleceram a posição de Kim desde as negociações anteriores.
O Pentágono e o Estado-Maior Conjunto sul-coreano sustentam que o exercício revisado preservará a prontidão essencial e seus principais objetivos de treinamento. A preocupação dos críticos não é necessariamente que cinco dias eliminem a capacidade de defesa dos aliados. O problema é que encurtar e reorganizar o exercício de última hora pode reduzir as oportunidades de ensaiar toda a sequência de defesa, comando e contraofensiva.
A ordem também criou um precedente político: um grande exercício de uma aliança passou a ser usado como instrumento de sinalização diplomática sem uma ação equivalente de Pyongyang. Trump pode ter tentado abrir espaço para uma conversa com Kim e, ao mesmo tempo, demonstrar descontentamento com Seul. O custo imediato foi aumentar a incerteza para o aliado que divide a responsabilidade pela defesa da península.
O resultado é um equilíbrio ainda sem solução. A redução pode ajudar a diminuir uma fonte de tensão e favorecer uma retomada diplomática. Mas também corre o risco de transformar a prontidão militar em moeda de negociação justamente quando a Coreia do Norte está mais confiante, mais conectada à Rússia e menos dependente das concessões que moldaram as negociações anteriores.