Essa penetração cria uma enorme base produtiva para baterias, plataformas, componentes e integração de software. Também aumenta a competição. Quando muitas empresas conseguem fabricar veículos elétricos em grande escala, vender mais unidades no exterior ajuda a manter as fábricas ocupadas mesmo com a desaceleração do crescimento doméstico.
É aí que surge a tensão estrutural: a escala necessária para reduzir custos e competir internacionalmente também deixa o mercado chinês mais lotado. As exportações funcionam, portanto, tanto como oportunidade de crescimento quanto como mecanismo para distribuir a produção entre um número maior de compradores.
Países parceiros da Iniciativa Cinturão e Rota — programa de infraestrutura e comércio liderado pela China — receberam 1,135 milhão de veículos chineses de nova energia no primeiro semestre de 2026, alta de 59,4% em um ano.
Esses mercados oferecem espaço para veículos com preços competitivos, sobretudo onde as marcas chinesas enfrentam barreiras políticas e regulatórias mais fortes, como nos Estados Unidos e em partes da Europa.
A mudança também aparece no setor de energia. Uma análise da Reuters identificou que economias como Brasil, Emirados Árabes Unidos e Nigéria aumentaram as importações de veículos elétricos chineses enquanto reduziram as compras de gasolina. Em conjunto, os países analisados cortaram as importações de gasolina em cerca de um terço no período comparável. A relação, porém, não prova que os veículos chineses, sozinhos, tenham causado a queda.
Para consumidores desses mercados, o apelo é principalmente prático, e não apenas geopolítico. Modelos elétricos mais baratos podem ser uma alternativa quando a gasolina pesa no orçamento, a preocupação com a qualidade do ar cresce ou as montadoras tradicionais oferecem poucas opções eletrificadas.
Para os fabricantes chineses, esses países fornecem volume, experiência internacional e uma porta de entrada para regiões em que o acesso direto a mercados altamente protegidos continua difícil.
A parceria com a Waymo mostra um modelo diferente de expansão. Desde 2024, a Zeekr teria enviado mais de 3.200 plataformas de minivans elétricas CM1e aos Estados Unidos, incluindo mais de 2.600 em 2026. Os veículos estão associados ao programa de robotáxis Ojai, da Waymo.
Não se trata de um lançamento convencional de uma marca chinesa. As unidades chegam sem os sensores e os sistemas computacionais usados na direção autônoma. Depois da importação, a Waymo instala seu próprio equipamento e seu software de sexta geração.
A divisão de tarefas é estratégica:
Assim, a fabricação chinesa participa do mercado americano de veículos autônomos sem colocar um carro de passeio com marca chinesa nas concessionárias dos Estados Unidos.
A CM1e foi concebida como uma plataforma para a operação da Waymo, e não como um carro convencional vendido ao consumidor. O formato de minivan oferece mais espaço interno e permite projetar o veículo em torno dos pontos de instalação dos sensores, dos sistemas elétricos, da refrigeração, da computação e da durabilidade exigida por uma frota de robotáxis.
A vantagem de custo fica menos evidente depois das tarifas de importação, mas ainda pode existir. Reportagens colocam o preço da CM1e no mercado chinês em cerca de US$ 39 mil. Uma estimativa amplamente citada aplica uma carga tarifária combinada de aproximadamente 127,5% nos Estados Unidos, levando o veículo básico para perto de US$ 89 mil antes da instalação do equipamento de direção autônoma da Waymo.
Esses valores são estimativas, não uma abertura oficial dos custos da Waymo. Outras reportagens citam percentuais diferentes, dependendo das tarifas incluídas no cálculo. Ainda assim, a lógica empresarial é clara: uma plataforma projetada especificamente para uma frota e produzida em escala chinesa pode continuar sendo atraente para uso intenso, especialmente se custar menos do que desenvolver e fabricar um veículo equivalente em volumes menores.
O novo conjunto de hardware da Waymo também reduziu o número de câmeras de 29 para 13 e de sensores lidar de cinco para quatro, segundo a Electrive. Isso não elimina o custo da autonomia, mas ajuda a empresa a reduzir o preço de cada robotáxi ao longo do tempo.
O modelo de fornecimento também separa a empresa chinesa dos sistemas mais diretamente atingidos pelas restrições americanas a veículos conectados. A regra do Departamento de Comércio dos EUA entrou em vigor em março de 2025 e será implementada gradualmente.
Segundo as reportagens sobre a norma, a partir do ano-modelo 2027 determinados fabricantes de veículos conectados ligados à China ou à Rússia enfrentarão restrições para vender veículos conectados e prestar serviços comerciais nos Estados Unidos. As limitações sobre hardware entram em uma etapa posterior.
Um veículo que chega sem sensores, computadores ou software de direção autônoma chineses dá à Waymo maior controle sobre a parte tecnológica sujeita à regulamentação. Isso não elimina todos os riscos tarifários, regulatórios ou de mudanças futuras na política americana, mas estreita o papel da Zeekr: a empresa fornece hardware industrial, enquanto a Waymo entrega os sistemas conectados e autônomos.
A estratégia amplia o mercado potencial, mas pode limitar quanto valor a Zeekr captura em cada veículo. A fabricante recebe pela plataforma e pela capacidade de produção. A Waymo, por sua vez, mantém o controle sobre o software crítico de segurança, as operações da frota, os mapas, o aplicativo, os preços, os pagamentos, os relacionamentos regulatórios e os dados dos clientes descritos no modelo operacional.
Essa diferença é importante. O fornecimento de uma plataforma é principalmente uma transação industrial, enquanto o transporte autônomo pode gerar receita recorrente com o serviço. Como os parceiros não divulgaram a divisão de lucros, não é possível quantificar essa diferença.
A inferência estratégica, porém, é relevante: empresas chinesas podem conquistar alcance global primeiro como fornecedoras eficientes de hardware, enquanto parceiros americanos mantêm as camadas de maior valor associadas ao software, à operação e ao relacionamento com o consumidor.
O avanço das exportações chinesas de veículos elétricos não é apenas uma história sobre mais carros saindo das fábricas. Ele reflete um ciclo de retroalimentação: a competição doméstica intensa estimula a expansão internacional; o volume externo reforça a escala industrial; e essa escala torna o hardware chinês mais competitivo em novos mercados.
Os mercados emergentes são, por enquanto, o destino mais claro para veículos completos. Em mercados protegidos como os Estados Unidos, a parceria entre Zeekr e Waymo aponta para outro caminho: exportar a plataforma, retirar a tecnologia politicamente sensível e deixar que um parceiro local seja dono do serviço autônomo.
Esse modelo pode ajudar os fabricantes chineses a monetizar uma capacidade produtiva que o mercado doméstico não consegue absorver integralmente. Mas também expõe o limite de uma expansão baseada apenas em hardware. Tarifas, regras de segurança e políticas industriais locais podem impedir que as marcas chinesas controlem a relação com o cliente — mesmo quando as fábricas chinesas continuam sendo fundamentais para o veículo.