A vantagem também é sustentada por produção adicional concreta, e não apenas pela geografia. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) prevê que Brasil, Guiana e Argentina acrescentem, juntos, 0,4 milhão de barris por dia em 2026 — metade do aumento de 0,8 milhão de barris por dia esperado para a produção global de petróleo bruto. A Agência Internacional de Energia também aponta Brasil, Guiana e Argentina entre os principais responsáveis pelo crescimento da oferta fora da Opep+.
A crise pode favorecer esses produtores por três caminhos:
A crise não criou a expansão do pré-sal brasileiro nem o crescimento offshore da Guiana. Ela tornou tendências já existentes mais importantes do ponto de vista comercial e estratégico.
A Argentina participa dessa mesma história de crescimento da oferta com a expansão de Vaca Muerta, formação de petróleo e gás de xisto localizada principalmente na província de Neuquén.
A EIA estima que a produção argentina suba de uma média de 670 mil barris por dia em 2024 para 740 mil barris por dia em 2025. Entre janeiro e outubro de 2025, Vaca Muerta teria respondido por cerca de 62% da produção do país.
A Argentina, porém, é menos flexível para exportar rapidamente do que Brasil e Guiana. A capacidade de oleodutos, a infraestrutura portuária e as necessidades do mercado doméstico determinam a velocidade com que o petróleo adicional pode chegar aos compradores estrangeiros.
Mesmo assim, o aumento da produção amplia a contribuição potencial da América do Sul para a oferta mundial e, com o tempo, pode reduzir a dependência regional de barris importados.
A Venezuela pode se beneficiar de preços mais altos e da procura por petróleo pesado fora do Golfo. Mas as evidências disponíveis não permitem tratar sua oportunidade como equivalente à de Brasil e Guiana.
A recuperação da produção e das exportações venezuelanas depende de fatores como confiabilidade operacional, infraestrutura, investimentos, exposição a sanções, formas de pagamento e acesso ao transporte marítimo.
A diferença é relevante. Brasil e Guiana contam com crescimento ativo da produção e acesso relativamente direto ao Atlântico. A Venezuela pode ganhar com um ambiente de mercado favorável, mas transformar essa vantagem em receitas fiscais e exportações duradouras exige resolver obstáculos que vão muito além do preço do petróleo.
O impacto sobre a América Latina e o Caribe é bastante desigual. Países exportadores líquidos de petróleo podem registrar receitas maiores com as vendas externas e reforçar a arrecadação pública quando os preços sobem.
Para países que importam combustíveis, a conta é inversa: aumento da fatura de importação, pressão sobre subsídios, transporte mais caro e perda de poder de compra das famílias.
O Fundo Monetário Internacional identificou economias da América Central dependentes de energia importada e países caribenhos dependentes do turismo como particularmente vulneráveis ao aumento dos custos de energia. O encarecimento dos combustíveis pode atingir a geração de eletricidade, o transporte rodoviário, a distribuição de alimentos, as passagens aéreas e as operações de cruzeiros.
Há ainda uma complicação importante: exportar petróleo bruto não significa necessariamente estar protegido contra a inflação dos combustíveis refinados. Um país pode vender óleo cru ao exterior e, ao mesmo tempo, importar gasolina, diesel ou outros derivados. Nesse caso, consumidores continuam expostos aos preços internacionais e aos custos do transporte marítimo.
Uma reabertura do Estreito de Ormuz poderia aliviar rapidamente os mercados de petróleo bruto. Os preços no varejo e as cadeias de abastecimento, contudo, tendem a reagir mais devagar.
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) alertou que os sistemas de alimentos e transporte demoram mais para se recuperar, pois as redes de navegação precisam de tempo para se reorganizar após uma interrupção prolongada.
Esse atraso é especialmente importante para pequenas economias insulares que importam tanto combustível quanto alimentos. Segundo a UNCTAD, famílias do Caribe continuaram enfrentando custos mais altos de combustível e eletricidade mesmo depois de os preços do petróleo se aproximarem dos níveis anteriores à crise.
Uma queda nas cotações de referência não reverte imediatamente contratos de frete, estoques comprados a preços elevados, custos de serviços públicos ou a pressão acumulada sobre as contas do governo.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) também projeta que o preço médio do petróleo em 2026 ficará acima da média de 2025, mesmo em um cenário de recuo ao longo do ano. O resultado é uma economia regional em duas velocidades: exportadores podem capturar um ganho extraordinário, enquanto importadores continuam absorvendo custos mais altos.
Provavelmente não — pelo menos ainda não. Para que a demanda asiática migre de forma duradoura para o petróleo latino-americano, várias condições precisariam persistir:
Se o trânsito pelo estreito voltar a um nível confiável, exportadores do Golfo poderão recuperar boa parte de sua posição nos mercados asiáticos. O crescimento estrutural da produção latino-americana continuará relevante, mas o prêmio de preço e os ganhos temporários de participação de mercado provocados pela crise provavelmente diminuirão.
O legado mais duradouro pode ser estratégico, e não necessariamente uma mudança permanente no comércio. A crise mostrou às refinarias o valor da diversificação geográfica e aos produtores que barris confiáveis do Atlântico podem receber um prêmio quando um importante corredor energético se torna inseguro.
Para Brasil e Guiana, isso representa uma vantagem relevante no curto prazo. Para a América Central e o Caribe, é um lembrete de como uma crise marítima distante pode rapidamente se transformar em um problema doméstico de custo de vida.