A mudança não se limita aos chips. As exportações de produtos mecânicos e elétricos chegaram a 11,12 trilhões de yuans entre janeiro e julho, alta de 21,2% e equivalente a 63,8% de todas as exportações chinesas.
Essa categoria inclui eletrônicos, máquinas, veículos elétricos, baterias de lítio e equipamentos para geração de energia eólica. São produtos que carregam mais tecnologia e valor agregado do que muitas mercadorias tradicionais e representam, ao mesmo tempo, os equipamentos e componentes da modernização industrial do país.
A vantagem chinesa resulta de escala produtiva, redes densas de fornecedores e investimentos contínuos em manufatura. Esses fatores ajudam as empresas a manter a competitividade mesmo com a valorização do renminbi e com a criação de novas barreiras comerciais.
A nova composição torna as exportações relativamente mais resistentes porque chips, máquinas, veículos eletrificados e outros equipamentos industriais têm demanda em diferentes mercados. As empresas chinesas também vêm diversificando seus destinos e ampliando sua integração com cadeias produtivas, distribuição e serviços no exterior.
Mas o sucesso desses setores tem um custo geopolítico. O superávit comercial chinês chegou a US$ 112,5 bilhões em julho, o terceiro mês consecutivo acima de US$ 100 bilhões. O resultado aumenta a pressão de parceiros comerciais que tentam limitar a entrada de produtos chineses por meio de tarifas, controles tecnológicos e outras medidas defensivas.
A mesma capacidade industrial que sustenta o crescimento das exportações alimenta debates sobre excesso de capacidade, subsídios, acesso a mercados e tecnologias consideradas sensíveis para a segurança nacional.
A força das exportações tem ajudado a compensar a demanda interna ainda fraca. O Banco Mundial afirmou que a procura externa por produtos intensivos em tecnologia sustentou o impulso exportador da China e ajudou a neutralizar a fraqueza do consumo doméstico.
Isso cria uma dependência ambígua. De um lado, as vendas externas mantêm as fábricas ativas e apoiam o crescimento. De outro, a economia continua relativamente dependente de compradores estrangeiros, em vez de contar com uma recuperação plenamente equilibrada do consumo interno.
Os dados apontam para uma estratégia de diversificação e integração, não para um simples recuo da globalização. A China está vendendo para vários mercados e, ao mesmo tempo, ampliando sua presença produtiva, logística e comercial fora do país.
A prioridade revelada pelos números é preservar a competitividade por meio de inovação, manufatura avançada e cadeias de suprimentos mais resilientes. Ao mesmo tempo, fortalecer a demanda doméstica seria essencial para reduzir a vulnerabilidade a tarifas e outras barreiras externas.
A transformação das exportações, portanto, é uma fonte de força e de risco. Ela sustenta o crescimento chinês em um ambiente comercial mais difícil, mas também torna mais intenso o conflito com países que veem a crescente presença de produtos chineses como uma ameaça à própria indústria.