Com essa quantidade de dados, os pesquisadores puderam realizar testes detalhados de ondas parciais e comparar diferentes padrões de decaimento. O tamanho da amostra tornou a determinação do spin e da paridade estatisticamente robusta, em vez de depender apenas do sinal original observado em 2011.
Em 2024, uma análise de ondas parciais do processo J/ψ → γK_S⁰K_S⁰η′ determinou pela primeira vez os números quânticos do X(2370): J^{PC}=0^{-+}, com significância superior a 9,8 desvios-padrão.
A massa medida, próxima de 2,37 GeV, está dentro da faixa prevista por cálculos de cromodinâmica quântica na rede — uma técnica numérica usada para estudar a teoria da força forte — para a bola de glúons pseudoscalar mais leve, estimada aproximadamente entre 2,3 e 3,0 GeV.
Essa compatibilidade é importante porque a combinação 0^{-+} e a massa observada corresponde justamente às características esperadas para esse tipo de estado gluônico.
O BESIII também encontrou um conjunto de propriedades que favorece a interpretação do X(2370) como uma partícula com forte componente de glúons:
Nenhum desses resultados, considerado separadamente, identifica uma bola de glúons. O peso está na convergência de todos eles.
A evidência mais recente e particularmente discriminante veio da busca pelo decaimento X(2370) → K*(892)⁰K̄⁰ + conjugado de carga. O canal foi investigado por meio do processo J/ψ → γK_S⁰K_S⁰π⁰.
O BESIII não encontrou evidência desse decaimento e estabeleceu, com 90% de nível de confiança, um limite superior de 2,7 × 10⁻⁶ para o produto das frações de ramificação relevantes.
Essa supressão indica que o X(2370) se comporta como um singleto de sabor — isto é, um estado que não privilegia os sabores de quark u, d ou s. Segundo a análise, trata-se do primeiro hádron leve singleto de sabor observado acima de 1 GeV/c².
A propriedade é esperada para uma bola de glúons: glúons carregam carga de cor, mas não carregam sabor de quark. Por isso, um estado formado predominantemente por glúons não deveria se comportar como um méson convencional composto por ūu+d̄d ou s̄s. A ausência do canal K* K̄ constitui, assim, um teste mais específico do que uma simples comparação entre razões de frações de ramificação, que podem ser afetadas por incertezas.
Na cromodinâmica quântica, a teoria que descreve a força forte, os glúons não apenas transmitem a interação entre quarks: eles também interagem entre si. Essa característica distingue a força forte do eletromagnetismo comum, no qual os fótons não interagem diretamente uns com os outros da mesma maneira.
Uma bola de glúons seria uma consequência de baixa energia dessa auto-interação dos glúons. Sua observação forneceria uma confirmação direta de uma previsão central da cromodinâmica quântica e revelaria uma classe incomum de matéria: um hádron composto principalmente pelos próprios bósons que transportam uma força, e não por quarks.
O BESIII não afirma que o X(2370) seja necessariamente um estado perfeitamente puro, formado exclusivamente por glúons. A formulação adotada é que a partícula é dominada por uma componente da bola de glúons pseudoscalar mais leve. A análise permite inclusive uma pequena possível contribuição de um estado c̄c, embora sustente que uma componente gluônica dominante seja a explicação mais natural para o conjunto das observações.
A apresentação em Natal culminou cerca de 15 anos de estudos do X(2370) pelo BESIII, dentro de uma busca internacional por bolas de glúons que já dura quase cinco décadas. O resultado reúne previsões teóricas, cálculos em rede, desenvolvimento de aceleradores e detectores, coleta de dados e análises realizadas por várias gerações de pesquisadores.
Por isso, o anúncio é considerado a evidência experimental mais clara até agora de uma partícula dominada por uma bola de glúons — não uma demonstração de que o X(2370) contenha literalmente zero quarks. A força do resultado está na combinação de massa, números quânticos 0^{-+}, ambiente de produção, múltiplos decaimentos e comportamento de singleto de sabor.