O valor também fica abaixo da faixa de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões divulgada no início de agosto. A redução mostra como as expectativas dos investidores mudaram em poucas semanas, em meio a dúvidas sobre crescimento, margens e custos operacionais.
Os dados financeiros mais recentes ajudam a explicar a cautela. A receita avançou 8%, para US$ 41,8 bilhões em 2025, mas o lucro líquido recuou 38,7%, para US$ 2,06 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido de US$ 99 milhões. O resultado trimestral refletiu vendas mais fracas depois que os Estados Unidos retiraram uma isenção tarifária para pequenos pacotes, além de um relevante encargo contábil não recorrente.
O ponto central não é apenas um trimestre negativo. Uma empresa ainda pode sustentar uma avaliação elevada quando os lucros estão temporariamente pressionados, desde que os investidores continuem esperando expansão rápida. No caso da Shein, a desaceleração relatada torna mais difícil justificar esse prêmio de crescimento, especialmente com a alta dos custos de logística, conformidade regulatória e importação.
A Shein construiu boa parte de sua expansão internacional com produtos baratos enviados diretamente aos consumidores. Nos Estados Unidos, o fim do tratamento conhecido como de minimis — que permitia a entrada de encomendas de baixo valor com isenção ou cobrança reduzida de tarifas — eliminou uma importante vantagem de custo para esse modelo. Os documentos pré-IPO da empresa associaram a mudança à queda da receita no mercado americano.
A Europa acrescenta outro obstáculo. Novas cobranças sobre importações de baixo valor elevam o custo de atender um mercado relevante e dificultam a competição baseada principalmente em preços muito baixos. Investidores esperam que essas taxas pressionem o crescimento das vendas e os lucros da Shein.
As mudanças não anulam necessariamente a cadeia de suprimentos da empresa. Elas, porém, reduzem o benefício de enviar pedidos pequenos através das fronteiras. Para se adaptar, a Shein pode ter de absorver mais custos, elevar preços, mudar sua estrutura de distribuição ou investir em infraestrutura local.
As alternativas de listagem em Nova York e Londres anteriormente consideradas pela Shein não avançaram. A aprovação atribuída a Pequim em julho para uma oferta em Hong Kong removeu um obstáculo regulatório importante e tornou a operação possível, mas não eliminou os riscos comerciais e geopolíticos da companhia.
A bolsa de Hong Kong pode oferecer à Shein acesso à liquidez do mercado público. Em contrapartida, a empresa ficará sob avaliação contínua dos investidores. O escrutínio deverá alcançar não apenas as vendas, mas também margens, exposição a tarifas, concentração da cadeia de fornecedores, cumprimento de regras e durabilidade da demanda dos consumidores.
O prospecto da empresa revelou acordos segundo os quais a Shein pode precisar emitir ações adicionais para determinados investidores pré-IPO caso a avaliação da oferta fique abaixo de limites previamente estabelecidos. Se essas cláusulas forem acionadas, os novos acionistas poderão sofrer diluição — isto é, passar a deter uma parcela proporcionalmente menor da empresa.
O detalhe é especialmente relevante em uma listagem com características de rodada de baixa. Uma avaliação menor pode aumentar as chances de concluir o IPO, mas as proteções concedidas a investidores antigos podem transferir parte do custo dessa reprecificação para os novos compradores.
A oferta da Shein em Hong Kong deve ser entendida menos como um IPO convencional de hiper crescimento e mais como um evento de reprecificação. Uma operação bem-sucedida perto da faixa anunciada daria à empresa liquidez e uma avaliação pública a partir da qual poderia tentar reconstruir a confiança dos investidores.
Por outro lado, uma recepção fraca, novos cortes de preço ou uma estreia instável reforçariam a tese de que a economia que sustentou o crescimento anterior da Shein foi permanentemente afetada por mudanças nas regras comerciais, custos operacionais maiores e concorrência mais acirrada.
A pergunta central deixou de ser apenas se a Shein consegue vender mais roupas baratas. O desafio agora é saber se ela consegue preservar crescimento e lucro suficientes depois que as regras que tornavam seu modelo internacional tão eficiente ficaram menos favoráveis.