Nas bordas da nebulosa, a camada azul (Chandra) aparece sozinha. No centro da imagem, as três camadas se sobrepõem, criando um espetáculo de cores que vai do vermelho e laranja ao amarelo, verde e azul . O estudo também utilizou dados de arquivo do já aposentado Telescópio Espacial Spitzer da NASA
.
A Nebulosa Tarântula é uma das regiões de formação estelar mais intensas do nosso grupo local de galáxias. Ela abriga milhares de estrelas massivas tão jovens que seus ventos estelares — verdadeiras tempestades de partículas — são extremamente poderosos. Segundo os modelos clássicos, esses ventos deveriam aquecer o gás ao redor a temperaturas altíssimas, fazendo-o brilhar intensamente em raios-X. No entanto, todas as observações anteriores mostravam que a nebulosa emitia muito menos radiação do que o esperado .
Usando a exposição mais profunda já feita de 30 Doradus em raios-X (os tais 2 milhões de segundos do Chandra), a equipe de Jennifer Rodriguez, em conjunto com dados do Webb, Hubble e Spitzer, rastreou para onde essa energia estava indo. A conclusão é que ela não está sendo gerada, mas sim escapando por três caminhos diferentes :
Até metade do gás quente que deveria emitir raios-X está simplesmente escapando da nebulosa! As paredes de gás e poeira que cercam as bolhas de gás quente são porosas e fragmentadas. Em vez de conter o gás, elas agem como uma peneira, permitindo que o material mais quente vaze para o espaço interestelar ao redor .
Imagine uma sopa quente sendo mexida com uma colher gelada. O gás frio que está nas bordas das estruturas da nebulosa se agita e se mistura fisicamente com o gás quente do interior. Essa turbulência "amorna" o gás, baixando sua temperatura geral e, consequentemente, sua capacidade de emitir raios-X .
Este processo é mais sutil e não envolve mistura. Funciona como uma panela de metal no fogão: o calor passa de um material para outro pelo simples contato direto. O gás quente do interior entra em contato com o gás mais frio das densas paredes das bolhas, e o calor é conduzido de uma região para a outra, equalizando as temperaturas e drenando a energia que seria emitida como raios-X .
A combinação desses três processos — vazamento, mistura e condução — finalmente explica o mistério da baixa emissão de raios-X na Nebulosa Tarântula . Mais importante, esta descoberta desafia os modelos clássicos de feedback estelar, que assumiam que a energia das estrelas massivas ficava presa perto do aglomerado estelar.
O estudo mostra que a energia escapa por múltiplos canais, o que tem implicações profundas para a compreensão de como as "explosões" de formação estelar (as chamadas starbursts) influenciam as galáxias hospedeiras. Afinal, esses mesmos mecanismos podem estar em ação em todo o universo, regulando o nascimento de novas estrelas e moldando o crescimento das galáxias ao longo de bilhões de anos.
A Nebulosa Tarântula, também conhecida como 30 Doradus, está localizada a cerca de 160 mil anos-luz da Terra, na constelação austral do Dourado, dentro da Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da nossa Via Láctea. A sua proximidade relativa a torna um laboratório natural ideal para estudar os processos que, em escalas maiores, acontecem em todo o cosmos.