A reversão foi impulsionada por forças estruturais profundas que nenhuma compra de moeda consegue resolver sozinha. Veja o que deu errado e o que isso significa para mercados, investidores e empresas japonesas.
Mesmo após o aperto gradual do Banco do Japão (BOJ), as taxas de juros reais do Japão continuam profundamente negativas em relação às do Federal Reserve (Fed), mantendo o carry trade (estratégia de tomar emprestado em iene para aplicar em ativos com retorno maior) lucrativo. O iene caiu 51% entre o fim de 2011 e o fim de abril de 2026 . Analistas apontam amplamente que, sem altas significativas de juros pelo BOJ, a intervenção é "inútil" . Como resumiu um analista de Wall Street: "Se o Japão não aumentar as taxas de juros, qualquer intervenção é inútil" .
O diferencial de juros entre EUA e Japão continua sendo um motor importante. O Fed manteve taxas significativamente mais altas, enquanto o BOJ seguiu um caminho mais gradual de normalização da política monetária. Mesmo depois de o BOJ elevar sua taxa básica para 1% em junho de 2026 — o maior nível desde 1995 — o hiato permanece substancial .
O "Plano Honebuto 2026", aprovado pelo gabinete japonês em 21 de julho, foi interpretado pelos mercados como um sinal de que o governo está fazendo pressão contrária às altas de juros do BOJ, aumentando a incerteza sobre a normalização da política monetária . A dívida colossal do Japão — mais de 250% do PIB — força o BOJ a limitar os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo, transferindo efetivamente a fragilidade fiscal do mercado de títulos para a moeda . Em um nível mais profundo, os diferenciais de juros são apenas uma manifestação da dívida pública muito elevada do Japão .
Investidores japoneses continuam comprando títulos estrangeiros em ritmo elevado, e o Goldman Sachs observa que a repatriação de capital não se materializou apesar do incentivo de Tóquio — uma alta de juros do BOJ importa muito mais para a força do iene do que qualquer intervenção . O motor fundamental da depreciação do iene reflete uma hemorragia de capital por múltiplos canais estruturais simultaneamente: saídas persistentes de investidores pessoa física via o reformado programa de investimento NISA, aquisições corporativas no exterior e posições vendidas especulativas acumuladas por hedge funds globais .
Goldman Sachs estimou que o Japão gastou até US$ 85 bilhões em dois dias e concluiu que "as causas subjacentes da fraqueza do iene permanecem inalteradas", esperando que a pressão de baixa retorne a menos que o BOJ aumente os juros. A equipe do banco prevê que o próximo aumento pode ser adiado para janeiro de 2027 . A reação do mercado a essa intervenção foi relativamente moderada, refletindo que os motores subjacentes da fraqueza do iene permanecem . O Goldman também observou que os investidores japoneses continuam comprando títulos estrangeiros em ritmo considerável, apesar do esforço de Tóquio para redirecionar os fluxos para casa .
Mohamed El-Erian publicou em 2 de agosto que os EUA quebraram sua política de mais de uma década de não intervenção porque Washington vê um iene excessivamente fraco como um entrave à competitividade comercial americana, tanto no comércio bilateral quanto em mercados de terceiros . Ele também observou que a estratégia conjunta Japão-EUA é usar "palavras fortes como substituto para a intervenção real no mercado", para desencorajar o mercado de testar a determinação de ambas as autoridades .
Uma pesquisa da Reuters constatou que os analistas duvidam amplamente que os especuladores serão contidos sem uma política monetária mais apertada — a intervenção apenas ganha tempo . O HSBC acrescentou que uma mudança estrutural nas políticas subjacentes do Banco do Japão será a chave para qualquer recuperação sustentada do iene .
Executivos japoneses estão cada vez mais vocalizando os prejuízos. Quase metade das empresas japonesas relata impacto negativo dos aumentos de juros do BOJ, com custos de empréstimos mais altos prejudicando os resultados e desencorajando investimentos de capital . Mais da metade das empresas japonesas vê o iene fraco como negativo para os lucros .
Executivos de grandes empresas destacaram que as oscilações cambiais voláteis estão obscurecendo os lucros e os planos de investimento, mesmo após a intervenção conjunta .
Altas de juros do BOJ: O Goldman Sachs prevê que o próximo aumento pode não ocorrer até janeiro de 2027, já que a postura fiscal do governo faz pressão contrária ao aperto monetário . O mercado vê, em geral, uma normalização gradual e atrasada, e não uma ação agressiva. Como observou uma análise, a fraqueza persistente do iene não é impulsionada por um fator único, mas por "uma combinação de ventos contrários estruturais que continuam a superar a normalização gradual da política do BOJ" .
Novas intervenções: O ex-diretor do BOJ Atsushi Takeuchi disse que o Japão e os EUA "certamente" realizarão outra intervenção conjunta se o iene mostrar sinais de retomar sua tendência de queda . O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, prometeu fazer "o que for preciso" para apoiar o esforço do Japão . Mas o consenso entre os analistas é que, sem uma mudança duradoura nos diferenciais de juros ou nos fluxos de capital, cada intervenção terá um efeito cada vez menor. A Russell Investments observou que, embora a intervenção tenha impulsionado o iene no curto prazo, "uma recuperação sustentada provavelmente exigirá uma política mais apertada do BOJ e a melhora dos fundamentos econômicos" .
A intervenção de US$ 88 bilhões foi uma demonstração histórica de força, mas não conseguiu mudar a matemática fundamental do iene. Enquanto as taxas de juros dos EUA permanecerem bem acima das do Japão, os investidores japoneses continuarem comprando ativos estrangeiros e a postura fiscal de Tóquio fizer pressão contrária ao aperto monetário, qualquer alta do iene proveniente de intervenção provavelmente será temporária. A lição é clara: a intervenção ganha tempo, mas apenas mudanças estruturais na política podem definir a direção.