A principal discórdia é sobre a ordem dos eventos. O plano de 15 pontos previa o desarmamento do Hamas em troca de uma retirada israelense gradual de Gaza . No entanto, Netanyahu insiste que o desarmamento deve ser concluído antes do início de qualquer retirada — uma posição exigida por seus aliados de extrema-direita na coalizão .
As Forças de Defesa de Israel (IDF) haviam efetivamente interrompido os ataques em Gaza desde 3 de agosto, mas Netanyahu deixou claro que isso não significava a aceitação do plano . Nos dias que antecederam sua rejeição pública, as IDF intensificaram os ataques aéreos, matando 28 pessoas no fim de semana mais letal em semanas — um padrão observado antes de sua recusa formal .
Esta é uma das rupturas mais diretas entre um líder israelense e um presidente dos EUA nos últimos tempos . Por mais de uma semana após o anúncio do plano, Netanyahu permaneceu em silêncio enquanto fontes oficiais israelenses não identificadas sinalizavam oposição . Quando finalmente falou, contradisse diretamente Trump, que havia afirmado que Israel estava "muito feliz" com o acordo .
A Casa Branca não emitiu uma reprimenda formal, mas a lacuna entre a narrativa de avanço de Trump e a rejeição categórica de Netanyahu criou uma significativa fricção diplomática . Netanyahu "ainda está discutindo planos para Gaza com Washington", de acordo com o Los Angeles Times, mas a contradição pública deixou a via diplomática em um impasse .
O Hamas permanece publicamente comprometido com o plano, que sua liderança concordou em implementar no Cairo dez dias antes da rejeição de Netanyahu . O alto funcionário do Hamas, Basem Naim, afirmou que o grupo espera que os mediadores garantam que Israel implemente o roteiro . No entanto, mesmo antes da rejeição, o Hamas já tinha suas próprias exigências de sequência: disse que as armas seriam armazenadas somente depois que Israel implementasse o acordo de Sharm el-Sheikh, encerrasse os ataques, retirasse suas forças e aumentasse o fluxo de ajuda humanitária — uma condição recíproca que antecedeu o impasse atual .
Isso cria um beco sem saída: Netanyahu exige o desarmamento antes da retirada; o Hamas exige a retirada antes de armazenar suas armas .
A rejeição de Netanyahu foi fortemente impulsionada pela dinâmica interna da coalizão. Seus parceiros de extrema-direita — incluindo o partido Sionismo Religioso do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o partido Otzma Yehudit do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir — ameaçaram deixar o governo se ele aceitasse qualquer plano que envolvesse a retirada de Gaza sem o desarmamento total do Hamas .
Esses partidos vinham sinalizando uma revolta desde que o acordo foi anunciado no final de julho . Smotrich e Ben-Gvir já haviam ameaçado renunciar em 2025 por causa de um plano de cessar-fogo americano diferente, alertando que derrubariam a coalizão se Netanyahu concordasse com qualquer acordo antes que o Hamas fosse destruído . A rejeição explícita de Netanyahu veio somente após dias de críticas crescentes de dentro de seu próprio governo .
Israel se prepara para eleições em outubro de 2026, e Netanyahu tenta fortalecer sua base de direita . Rejeitar um plano visto como brando com o Hamas o ajuda a se defender de acusações de rivais mais linha-dura de que ele comprometeria a segurança israelense . Ao mesmo tempo, o impasse arrisca alienar eleitores de centro que favorecem uma solução diplomática. Netanyahu caminha em uma corda bamba: manter a coalizão unida ao rejeitar o acordo, sem romper totalmente os laços com a administração Trump antes de uma eleição que pode ser disputada voto a voto .
Esta rejeição inviabiliza a mais séria via diplomática mediada pelos EUA para encerrar a guerra em Gaza desde o início do conflito. O plano de 15 pontos era o estágio mais recente de um cessar-fogo liderado pelos EUA, anunciado em outubro, que havia reduzido, mas não encerrado, as hostilidades . A estrutura do plano incluía a retirada israelense gradual vinculada ao desarmamento do Hamas, uma força de estabilização internacional e um órgão de governo tecnocrático para Gaza . Com ambos os lados presos a pré-condições que o outro não pode aceitar, um avanço no curto prazo é altamente improvável.
Palestinos em Gaza descreveram a decisão como um caminho que "não deixa uma rota clara para a paz", com um residente afirmando: "Estamos retrocedendo" . O impasse também cria um vácuo perigoso: as IDF interromperam os ataques em grande escala, mas mantêm a capacidade de escalar, enquanto o Hamas permanece armado e comprometido com o plano que aceitou, insistindo que Washington pressione Netanyahu a cumprir .