Swiss Re — "abismo gigantesco na cobertura"
O CFO da Swiss Re, Anders Malmström, alertou que a Europa está atrás de outras regiões (como EUA e Austrália) em termos de cobertura contra catástrofes naturais. Na prática, os incêndios no sul da Europa não são cobertos pelos fundos nacionais de seguro, deixando os proprietários依赖 de apólices privadas que muitos não contratam. Um dado revelador: a Swiss Re afirmou que os incêndios deste verão não terão impacto material em seus resultados justamente porque a maior parte dos danos é não segurada — um paradoxo que escancara o tamanho do abismo.
Zurich, Allianz, Munich Re — "a região não está adequadamente coberta"
Em uma reportagem conjunta da CNBC publicada em 7 de agosto de 2026, algumas das maiores seguradoras da Europa disseram que a região não está preparada para a frequência e gravidade crescentes de incêndios, ondas de calor e eventos climáticos extremos. Para elas, o protection gap é uma fraqueza estrutural que expõe famílias, empresas e governos.
Morningstar DBRS — o verdadeiro teste são as áreas urbanas
A Morningstar DBRS alertou que a conta final do seguro não depende da área total queimada, mas sim de se as chamas atingirem zonas urbanas densamente povoadas — em especial os arredores de Bordeaux e comunidades próximas a Madri. Incêndios urbanos representariam um salto na severidade dos sinistros.
Bloomberg — seguradoras estão 'avaliando ativamente' o novo risco de catástrofe
Seguradoras, resseguradoras e corretoras disseram à Bloomberg que já preveem prêmios mais altos e perdas maiores, e que não consideram a situação como temporária. A Bloomberg lembra que a Europa é o continente que mais aquece no mundo.
EIOPA (regulador europeu de seguros) — apenas um quarto das perdas é segurado
O painel da EIOPA mostra que, entre 1980 e 2024, apenas cerca de um quarto das perdas com eventos extremos na Europa foi segurado. A Agência Europeia do Ambiente (AEA) coloca o número em menos de 20% no mesmo período, com taxas inferiores a 3% em alguns países do Leste Europeu. A EIOPA vem "soando o alarme" de que a proporção de perdas seguradas não acompanha o aumento dos riscos climáticos.
2026 — a pior temporada de incêndios em décadas
Quase meio milhão de hectares já queimaram nos dois primeiros meses da temporada de 2026, com destaque para França e Espanha. De acordo com a Reuters, espera-se que as seguradoras domésticas absorvam a maior parte das perdas imediatas. Só a França pode acumular perdas econômicas de até €10 bilhões se os incêndios continuarem no ritmo atual. No início de agosto, o Financial Times já reportava custos superiores a €3 bilhões.
2025 — incêndios na Espanha custaram ~€5 bilhões, mas só um quinto estava segurado
A temporada de 2025 na Espanha causou perdas econômicas de quase €5 bilhões, mas apenas 20% estavam cobertos por seguros. Esse evento isolado ilustra um protection gap de 4 para 1.
Contexto global — perdas seguradas em 2025 chegam a US$ 108 bilhões
A Munich Re reportou que incêndios e tempestades impulsionaram as perdas seguradas globais para US$ 108 bilhões em 2025, embora a grande maioria venha dos EUA (os incêndios Palisades e Eaton, sozinhos, custaram US$ 41 bilhões). A Europa ainda não registrou um único evento de incêndio segurado de US$ 1 bilhão, mas a trajetória aponta para esse limite.
Projeções de perdas econômicas aceleram
Pesquisadores da Universidade de Mannheim e economistas do BCE estimaram que eventos climáticos extremos geraram €43 bilhões em perdas econômicas na Europa em 2025, com projeções que sobem para €126 bilhões até 2029 se as tendências climáticas continuarem.
EIOPA + BCE — a proposta de dois pilares
Reconhecendo o cenário fragmentado de esquemas nacionais, a EIOPA e o Banco Central Europeu propuseram uma solução em dois pilares no nível da UE: (1) um esquema de resseguro público-privado para catástrofes naturais, e (2) padrões nacionais coordenados de prevenção e redução de riscos. O Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) publicou em maio de 2026 um documento mostrando como um mecanismo europeu de compartilhamento de riscos poderia gerar benefícios de diversificação e atrair capital privado.
Comissão Europeia — estratégia integrada de gestão de risco de incêndios
Em março de 2026, a Comissão emitiu uma comunicação formal (COM(2026) 330) sobre gestão integrada de risco de incêndios, pedindo que prevenção e resiliência fossem incorporadas nos planos nacionais de restauração. A Comissão também expandiu a frota de combate a incêndios do rescEU com 12 novos aviões e 5 helicópteros.
Ferramenta PROTECT e iniciativas de demanda
Em dezembro de 2025, a EIOPA propôs o desenvolvimento do PROTECT, uma ferramenta para ajudar os cidadãos a entender melhor sua cobertura de seguro e os riscos climáticos, além de iniciativas de conscientização para enfrentar o lado da demanda do protection gap.
O alerta central de todas as grandes seguradoras e órgãos da UE é consistente: o abismo na cobertura contra incêndios na Europa é enorme (cerca de 75% a 80% das perdas não seguradas), está crescendo com a aceleração das mudanças climáticas e o peso está recaindo sobre famílias não seguradas e orçamentos públicos, não sobre o setor de seguros. As grandes resseguradoras podem absorver as perdas desta temporada — justamente porque quase nada é coberto. Mas o ponto de inflexão virá se as chamas atingirem os perímetros urbanos. Nesse momento, os prêmios vão disparar, a cobertura pode encolher ainda mais e a necessidade de um mecanismo coordenado de mutualização de riscos na UE se tornará inevitável.