O destaque foi a atividade LEO, cuja receita subiu 69,5% em base comparável, para €297 milhões. Com isso, o segmento passou a responder por 25% da receita total do grupo, contra aproximadamente 15% um ano antes. Dentro da área de conectividade, os serviços baseados em LEO já representam cerca de 45% da receita .
O crescimento, porém, foi parcialmente compensado pelo declínio do negócio tradicional de vídeo. Essa atividade recuou 13,1%, para €519 milhões . Já a área de serviços governamentais avançou 17,7%, para €235,5 milhões, em parte graças ao reconhecimento de receitas associadas ao contrato CENTAURE .
O EBITDA ajustado ficou em €632,4 milhões. A margem caiu de 54,4% para 51,2% em base comparável, refletindo a migração para serviços LEO, que têm margem menor, além do aumento dos investimentos .
A companhia também concluiu um pacote de refinanciamento de €5 bilhões durante o exercício, medida destinada a dar suporte aos próximos investimentos .
Na teleconferência de resultados, Fallacher argumentou que a Eutelsat pode estar sendo avaliada abaixo do que seus ativos e perspectivas justificariam quando comparada à Starlink, especialmente após a estreia da SpaceX no mercado acionário em junho de 2026 .
A principal diferença apontada pelo executivo está na concentração de clientes. Segundo divulgações relacionadas à abertura de capital da SpaceX, quase 25% da receita da Starlink viria de um único cliente do governo dos Estados Unidos, identificado como “Client A” . Para Fallacher, essa dependência representa um risco de concentração.
A Eutelsat, por outro lado, opera uma plataforma multiórbita que combina satélites LEO da OneWeb e satélites geoestacionários (GEO), além de uma base de clientes mais equilibrada entre governos e empresas.
“Quando analisamos a avaliação da Starlink, acreditamos que estamos subavaliados como empresa, considerando os ativos que administramos e operamos”, afirmou Fallacher durante a teleconferência .
O argumento não significa que a Eutelsat esteja tentando competir diretamente com a Starlink em todos os mercados. A tese da companhia se concentra sobretudo em conectividade para governos, defesa, empresas e infraestrutura soberana — áreas em que a combinação de diferentes órbitas pode ser uma vantagem operacional.
Um dos principais marcos do exercício foi a assinatura do contrato CENTAURE com o Ministério das Forças Armadas da França. O acordo fornece capacidade de comunicação segura em órbita baixa e em múltiplas órbitas para operações militares francesas, utilizando a constelação OneWeb .
Os principais termos são:
Além de gerar receita, o contrato funciona como uma validação da estratégia da Eutelsat de oferecer conectividade soberana e de baixa latência para governos e forças armadas.
Outro avanço decisivo foi a assinatura do acordo de implementação do IRIS² — sigla em inglês para Infrastructure for Resilience, Interconnectivity and Security by Satellite. O programa da União Europeia saiu da fase de planejamento e entrou na etapa de implantação industrial .
A Eutelsat foi confirmada como líder do segmento LEO do consórcio SpaceRISE, que também reúne a Hispasat e a SES . A companhia prevê investir €3,39 bilhões entre 2027 e 2034, divididos da seguinte forma:
O desenho ampliado do IRIS² prevê uma constelação multiórbita. O contrato de concessão original contempla 290 satélites, e outros 66 foram adicionados para aplicações de defesa, segurança e serviços de emergência, elevando o total planejado para 348 satélites . O núcleo LEO inclui 264 satélites com cargas úteis duplas nas bandas Mil-Ka e Ku, além dos 66 satélites adicionais em banda Mil-Ka .
O sistema será desenvolvido com base nos padrões de 5G para redes não terrestres (5G NTN), que permitem integrar redes móveis e infraestrutura espacial . Os primeiros serviços são esperados entre 2029 e 2030, enquanto a implantação completa da constelação está prevista para 2034 .
Para o exercício fiscal de 2026/2027, a Eutelsat projeta a continuidade da expansão do negócio LEO, impulsionada pela entrada em ritmo maior de contratos governamentais — incluindo o CENTAURE — e pelo avanço das soluções de conectividade para empresas .
A orientação divulgada inclui:
Há, contudo, uma ressalva importante: os números exatos de “mais de 30%” de crescimento LEO e de aproximadamente €1,2 bilhão em capex foram reportados a partir da teleconferência de resultados e de um resumo da Reuters publicado em 7 de agosto de 2026. A orientação oficial confirma a direção da estratégia, mas investidores devem conferir os valores definitivos na apresentação final de resultados da Eutelsat antes de usá-los em decisões de investimento .
A Eutelsat ainda não abandonou seu negócio de vídeo, mas os números mostram que o centro de gravidade da empresa mudou. A receita LEO já representa um quarto do grupo, enquanto contratos de defesa e o IRIS² ampliam a visibilidade da OneWeb em aplicações governamentais e corporativas.
O desafio será financiar essa transformação sem pressionar excessivamente as margens e o balanço. A Eutelsat aposta que a expansão LEO, o refinanciamento concluído e seu posicionamento como provedora europeia de conectividade soberana serão suficientes para fechar essa conta — e para convencer o mercado de que sua avaliação atual não reflete todo o potencial da empresa.