Imagens de câmeras de segurança divulgadas pelas autoridades ucranianas mostram um drone FPV — modelo controlado por uma câmera que transmite imagens em primeira pessoa — perseguindo deliberadamente um vendedor de legumes em um mercado de Kherson, no sul do país .
O homem, identificado como Yuriy, de 52 anos, tentou correr ao redor de sua van para escapar. O drone circulou acima dele, acompanhou seus movimentos e finalmente explodiu ao lado do veículo . Yuriy sobreviveu, mas sofreu ferimentos por estilhaços, concussão e trauma psicológico .
“Eu estava mostrando o drone: ‘Olha, são legumes’, mas ele começou a voar direto para mim”, relatou o vendedor do leito hospitalar .
A Polícia Nacional da Ucrânia classificou o episódio como crime de guerra. O presidente Volodymyr Zelenskyy publicou o vídeo nas redes sociais e chamou o ataque de exemplo do “safári de drones” russo contra civis . O ministro das Relações Exteriores ucraniano, Andrii Sybiha, afirmou que o caso reforça a acusação de que os ataques são deliberados e sistemáticos — elemento que deverá integrar o processo jurídico preparado por Kyiv .
A ofensiva também se expandiu para Zaporizhzhia, cidade industrial no sudeste da Ucrânia e próxima da linha de frente. Segundo autoridades locais, as forças russas passaram a combinar drones FPV com bombas planadoras, atingindo áreas urbanas e infraestrutura usada pela população no dia a dia .
Os alvos relatados incluem escolas, pontos de ônibus, postos de combustível, mercados, prédios residenciais e escritórios públicos . Autoridades ucranianas afirmam que o objetivo é espalhar pânico e interromper a rotina da cidade. A inteligência militar da Ucrânia também informou ter identificado uma ordem, emitida em junho, para ampliar significativamente os ataques de drones kamikaze contra infraestrutura civil em Zaporizhzhia .
Entre os ataques recentes estão:
As bombas planadoras são armamentos lançados do ar, frequentemente derivados de bombas soviéticas adaptadas com asas e sistemas de orientação. Algumas podem transportar até 3.000 quilos de explosivos, provocando grandes crateras e danos extensos .
O procurador-geral da Ucrânia, Ruslan Kravchenko, disse que o ataque contra Yuriy foi um entre mais de 2.600 ataques russos contra civis registrados desde o começo de 2026. De acordo com a autoridade, esses ataques mataram 967 pessoas .
Os dados das Nações Unidas apontam para uma piora expressiva no primeiro semestre. A Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia (HRMMU, na sigla em inglês) documentou 1.396 civis mortos e 7.978 feridos entre janeiro e junho de 2026 — alta de 37% em relação ao mesmo período de 2025 .
Junho foi o mês mais letal para civis ucranianos desde abril de 2022: pelo menos 293 pessoas morreram e 1.990 ficaram feridas .
O crescimento foi ainda mais acentuado nos ataques com drones de curto alcance. Entre janeiro e junho, 418 pessoas morreram e 2.437 ficaram feridas nesse tipo de ofensiva — aumento de 65% nas baixas em comparação com os mesmos meses de 2025 . Danielle Bell, chefe da missão de direitos humanos da ONU na Ucrânia, afirmou que esses drones estão “mudando fundamentalmente a vida dos civis nas comunidades da linha de frente” .
A iniciativa jurídica ucraniana se apoia em conclusões anteriores de investigadores internacionais. Em maio de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Ucrânia, criada pela ONU, concluiu que os ataques russos com drones contra civis na província de Kherson configuravam o crime contra a humanidade de assassinato e crimes de guerra . O documento recebeu o título “Eles estão nos caçando” .
A comissão afirmou que, desde julho de 2024, operadores russos atacaram repetidamente civis na margem direita do rio Dnipro, em uma área de mais de 100 quilômetros da província de Kherson . Segundo os investigadores, os ataques tinham como principal objetivo espalhar terror entre a população civil, em violação ao direito internacional humanitário .
Em outubro de 2025, a comissão ampliou suas conclusões. O relatório afirmou que autoridades russas coordenaram sistematicamente ataques com drones para expulsar civis de suas casas no sul da Ucrânia. A investigação apontou crimes contra a humanidade de assassinato e transferência forçada, além de crimes de guerra relacionados a ataques contra civis . A ONU descreveu as ações como envolvendo “dois crimes contra a humanidade” .
A Human Rights Watch chegou a uma avaliação semelhante sobre Kherson. A organização afirmou ter identificado aparentes crimes contra a humanidade cometidos por forças russas ao atacar civis com drones quadricópteros. Para a entidade, os episódios faziam parte de um ataque amplo contra a população civil e pareciam estar associados a uma política estatal russa .
A Ucrânia pretende reunir os ataques em um processo específico, em vez de tratá-los apenas como episódios isolados. Para Kyiv, a perseguição de civis em Kherson, a expansão dos drones FPV para áreas urbanas de Zaporizhzhia e o aumento das mortes podem ajudar a demonstrar um padrão organizado de violência contra a população não combatente .
Em fevereiro de 2026, o Institute for the Study of War avaliou que a campanha russa com drones FPV “institucionaliza o dano intencional a civis como uma ferramenta deliberada de guerra” .
A classificação jurídica final dependerá da investigação e dos procedimentos competentes. Mas os relatórios da ONU e de organizações independentes já apontam que a repetição, a coordenação e a aparente escolha de alvos civis podem ultrapassar a dimensão de ataques individuais e configurar crimes previstos no direito internacional .