A decisão provocou uma reação imediata de Ancara: os benefícios que ajudavam a BYD a competir no mercado turco foram suspensos, e as vendas da marca sofreram um tombo de cerca de 96% em poucos meses. O episódio também mostra como tarifas, regras de conteúdo local e exigências de exportação estão redesenhando o mapa industrial da montadora chinesa.
O projeto de Manisa previa uma área de 1,6 milhão de metros quadrados e capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano . A construção, no entanto, nunca começou.
A explicação apresentada pela empresa é uma mudança de prioridades. Em vez de direcionar recursos ao projeto turco, a BYD passou a priorizar sua presença produtiva dentro da União Europeia e a busca por uma segunda unidade no continente .
“A Hungria é a prioridade número um neste momento”, afirmou Li à Reuters. Segundo a executiva, o próximo objetivo é encontrar uma segunda instalação de produção na Europa .
A Turquia continua ligada à União Europeia por uma união aduaneira para produtos industriais, mas não oferece à BYD exatamente a mesma posição de uma fábrica localizada em um Estado-membro da UE para atender ao mercado automotivo europeu . Assim, o projeto de Manisa perdeu urgência diante da necessidade de estabelecer uma base física dentro do bloco e contornar barreiras comerciais .
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Turquia suspendeu, no início de 2026, as isenções de impostos de importação concedidas à BYD . A medida atingiu especificamente a tarifa aduaneira adicional de 40% que havia sido dispensada para os veículos importados pela empresa .
Um funcionário do ministério disse que os incentivos foram interrompidos porque o investimento havia “parado” .
O ministro da Indústria e Tecnologia, Mehmet Fatih Kacir, afirmou a parlamentares que o governo abrirá um processo para recuperar, com juros, todos os incentivos concedidos caso o projeto seja formalmente cancelado . O terreno de 1,6 milhão de metros quadrados reservado na Zona Industrial Organizada de Manisa também poderá ser retomado pelo governo .
O caso ganhou ainda uma dimensão comercial mais ampla. No fim de julho de 2026, um painel da Organização Mundial do Comércio (OMC) concluiu que partes da sobretaxa turca de 40% sobre veículos elétricos chineses violam regras do comércio internacional . A decisão complica a política tarifária de Ancara justamente enquanto o governo pressiona a BYD por causa dos benefícios vinculados à fábrica.
A suspensão da isenção tornou os carros da BYD significativamente mais caros na Turquia e reduziu sua vantagem de preço no mercado local . A própria empresa reconheceu que houve uma “queda significativa nas vendas locais” .
Os números dão a dimensão do impacto:
A diferença sugere o quanto a competitividade da BYD no país dependia da isenção tarifária. Sem o benefício, os modelos importados passaram a enfrentar um custo adicional capaz de alterar completamente sua posição diante dos consumidores turcos.
A fábrica de Szeged, no sul da Hungria, deve iniciar a montagem de veículos no quarto trimestre de 2026 — cerca de um ano depois do cronograma original .
Produzir dentro da Hungria oferece à BYD acesso ao mercado único europeu sem as tarifas adicionais aplicadas pela União Europeia a veículos elétricos fabricados na China . Na prática, a unidade funciona como uma porta de entrada industrial para o continente, permitindo que a empresa atenda consumidores europeus com menor exposição às barreiras comerciais.
A montadora também avalia assumir uma fábrica já existente no sul da Europa para acelerar a criação de uma segunda base produtiva . Essa estratégia pode ser mais rápida e menos arriscada do que iniciar um novo projeto do zero, sobretudo em um momento em que governos europeus estudam regras de conteúdo mínimo produzido localmente.
A expansão global da BYD enfrenta dificuldades semelhantes na Malásia. O projeto de uma unidade de montagem de 1,3 bilhão de ringgits malaios — cerca de US$ 280 milhões — em Tanjung Malim recebeu uma licença provisória de fabricação em setembro de 2025, mas permanece indefinido por causa de um impasse com o Ministério de Investimento, Comércio e Indústria (MITI) .
Os principais pontos de discordância são:
O ministro Johari Abdul Ghani afirma que as condições não foram criadas especificamente para a BYD e valem para todos os novos projetos de montagem em grande volume no sistema CKD — sigla em inglês para veículos montados com peças importadas — desde setembro de 2025 .
A BYD estaria “reavaliando seus planos” e não teria concordado com os termos, deixando o futuro da fábrica em aberto .
Os problemas na Turquia e na Malásia apontam para o mesmo desafio: a BYD não pode mais depender apenas de veículos produzidos na China para sustentar sua expansão internacional.
As tarifas adicionais da União Europeia, que podem superar 40% em alguns casos, tornaram urgente a produção dentro do bloco e deslocaram o foco da empresa para a Hungria. Na Turquia, a perda dos incentivos mostrou como um acordo de investimento pode deixar de ser economicamente viável quando as condições comerciais mudam. Na Malásia, as exigências de exportação e preço colocaram em dúvida a lógica de produzir localmente para atender ao mercado doméstico.
A nova estratégia da BYD dependerá, portanto, de mais do que construir fábricas. A empresa terá de negociar regras de conteúdo local, metas de exportação, limites de preço e políticas tarifárias específicas de cada país. É essa complexa rede de exigências — e não apenas a capacidade de fabricar carros elétricos — que deverá definir o próximo capítulo do crescimento global da montadora.