O epicentro da crise foi a França. No final de julho de 2026, os incêndios em Gironde e Biscarrosse, no sudoeste do litoral francês, já haviam queimado mais de 45 mil hectares. Nacionalmente, mais de 115 mil hectares foram queimados — quase o dobro do total de 2022 . Cerca de 240 casas foram destruídas, e toda a península de Cap Ferret foi evacuada por terra e por mar
. Somando-se as mais de 75 mil evacuações na Espanha, o total de pessoas deslocadas ultrapassou 295 mil
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A Morningstar DBRS estimou as perdas econômicas totais para a França entre € 10 bilhões e € 15 bilhões, mas alertou que as perdas seguradas seriam "significativamente menores" . A razão é dupla. Primeiro, grande parte dos danos ocorreu em áreas rurais, florestais ou não edificadas, que muitas vezes não são seguradas ou são excluídas das apólices de seguro residencial padrão
. Segundo — e mais importante — a lei francesa trata o incêndio florestal como um sinistro comum de incêndio, coberto pela garantie incendie de uma apólice residencial padrão. Ou seja, não se enquadra como "catastrophe naturelle" (CatNat)
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O regime CatNat francês, instituído pela lei de 1982, é uma parceria público-privada que cobre riscos considerados "não seguráveis", como enchentes, terremotos e a retração e expansão de solos argilosos (fenômeno ligado à seca) . Ele é financiado por uma sobretaxa compulsória sobre todos os prêmios de seguros de propriedade — que subiu de 12% para 20% em 1º de janeiro de 2025 — e tem a garantia do ressegurador estatal Caisse Centrale de Réassurance (CCR)
. Quando um evento é declarado CatNat pelo governo, os segurados têm direito à indenização garantida, e as seguradoras podem recorrer ao resseguro estatal.
Contudo, os incêndios florestais — assim como tempestades, granizo e nevascas — são explicitamente excluídos do regime CatNat . A lógica jurídica francesa é que esses riscos são considerados "seguradores" e já estão cobertos pelas apólices privadas de incêndio. Portanto, eles ficam inteiramente fora do esquema estatal
. O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, confirmou que as seguradoras cobririam os custos das evacuações e dos danos materiais por meio de apólices privadas, sem nenhum respaldo do Estado
. Isso significa que todo o risco de incêndio florestal na França é suportado exclusivamente pelo mercado segurador privado — sem um pool de resseguro público, ao contrário do que ocorre com o componente de enchente do CatNat
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A situação francesa é um microcosmo de um problema continental. De acordo com o Banco Central Europeu, apenas cerca de 25% das perdas por catástrofes climáticas na UE são seguradas; em vários países, essa parcela fica abaixo de 5% . A Insurance Europe, federação da indústria europeia de seguros, estima a lacuna de proteção ("protection gap") da UE para catástrofes naturais em cerca de 65% — ou seja, dois terços dos custos dos desastres não são segurados
. O BCE espera que essa lacuna aumente ainda mais, à medida que as perdas climáticas superam a adesão a seguros
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Para contextualizar, a temporada de incêndios de 2025 na Espanha gerou perdas econômicas totais de cerca de € 5 bilhões, mas apenas € 1 bilhão segurado — uma taxa de cobertura de meros 20% . Em toda a Europa, os incêndios florestais ainda não geraram um único evento de perda segurada de US$ 1 bilhão, não porque os incêndios sejam pequenos, mas porque muito pouco do dano é efetivamente coberto
. A Munich Re reportou que a área queimada na Espanha em 2025 foi de quase 400 mil hectares — quase cinco vezes a média de 20 anos —, mas as perdas seguradas permaneceram contidas
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As implicações para os proprietários de imóveis são severas. Como observou Balz Grollimund, chefe de Perigos de Catástrofe da Swiss Re, as perdas por incêndios florestais geralmente não são cobertas por pools de seguros nacionais no sul da Europa, obrigando os proprietários a buscar seguros privados — e, à medida que o risco climático se intensifica, a demanda deve aumentar mesmo com a oferta se tornando mais escassa .
A retirada do risco de incêndio não se limita à Europa. Em 2025, a lacuna global de proteção contra catástrofes naturais atingiu um recorde de US$ 424 bilhões, à medida que seguradoras privadas recuaram do risco climático em vez de absorver custos crescentes . Grandes seguradoras americanas — State Farm, Allstate e Chubb — suspenderam a emissão de novas apólices residenciais na Califórnia
. Pressões semelhantes surgem na Flórida e na Louisiana, onde o aumento das perdas por furacões desestabiliza o mercado segurador privado, bem como em partes da Austrália e do sul da Europa
. Desde 2022, sete das doze maiores seguradoras da Califórnia pausaram ou restringiram novos negócios, empurrando mais proprietários para o FAIR Plan, o segurador de última instância do estado
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As resseguradoras reforçaram essas dinâmicas. Ao longo de 2025-2026, elas mantiveram uma alocação de capital e padrões de subscrição disciplinados, limitando a capacidade das seguradoras primárias de absorver o risco de incêndio . As perdas seguradas globais por catástrofes naturais totalizaram US$ 107 bilhões em 2025, impulsionadas fortemente por perigos secundários, como incêndios florestais, que responderam por 92% do total segurado global
. Só os incêndios em Los Angeles geraram cerca de US$ 40 bilhões em perdas seguradas
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A temporada de incêndios de 2025 na Europa expôs um desajuste estrutural que atravessa geografias. As perdas econômicas crescem rapidamente, mas a penetração de seguros permanece baixa (cerca de 25% na UE), e a França não possui qualquer mecanismo público de compensação para incêndios florestais. O resultado é uma lacuna de proteção grande e crescente, que recai sobre proprietários não segurados, seguradoras domésticas e — em última instância — contribuintes, mas sem o amparo estatal no caso francês . Globalmente, seguradoras e resseguradoras estão recuando do risco de incêndio em vez de expandir a cobertura, sugerindo que a lacuna vai piorar sem intervenção política
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Analistas e reguladores começaram a explorar soluções. O Banco Central Europeu pediu opções políticas para reduzir a lacuna de proteção do seguro climático . A Morningstar DBRS apoiou uma proposta de esquema de resseguro público-privado em toda a UE para melhorar a cobertura e a estabilidade financeira, observando que apenas 20% das perdas por catástrofes naturais na UE são atualmente seguradas
. Mas essas propostas enfrentam profundos obstáculos políticos e econômicos: na França, o próprio regime CatNat já está sob pressão devido ao aumento de sinistros relacionados ao solo argiloso, e a adição do risco de incêndio sobrecarregaria ainda mais um sistema projetado para riscos "inseguráveis"
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Por ora, o risco de incêndio florestal na Europa permanece nas mãos de seguradoras privadas, em um momento em que a indústria global está ativamente reprecificando e recuando da exposição climática. A temporada de 2025 pode não ter produzido um único evento de perda segurada de bilhão de dólares na Europa, mas deixou uma coisa clara: a arquitetura atual não foi construída para os incêndios do futuro.