A retomada dos confrontos em julho, porém, inverteu o movimento de forma abrupta. Os Estados Unidos restabeleceram um bloqueio naval que abrangia toda a costa iraniana, incluindo portos e terminais de petróleo . Em resposta, a Guarda Revolucionária do Irã declarou o Estreito de Ormuz “completamente fechado” .
O estreito é um dos principais gargalos do comércio mundial de energia: normalmente, cerca de um quinto do petróleo global passa por ali. Com o avanço da crise, o tráfego diário de navios despencou . Dados citados pelo The New York Times indicaram que mais de 130 embarcações atravessavam a passagem diariamente antes da guerra, contra apenas 14 em um dos momentos de maior tensão em julho .
O Brent, referência internacional do petróleo, avançou 9% em um único dia, para US$ 83 por barril, em 12 de julho, depois das notícias sobre o bloqueio . Em 20 de julho, o preço já havia superado US$ 90 . Em 23 de julho, alcançou US$ 96 .
A pressão aumentou quando o conflito atingiu o Mar Vermelho, outra rota estratégica para o transporte global. A ameaça de ataques a navios e de interrupção do fluxo de petróleo levou o Brent a ultrapassar US$ 100 por barril em 24 de julho, segundo o balanço de desempenho do mês .
Os ataques de houthis alinhados ao Irã criaram um novo foco de risco. O grupo ameaçou fechar a rota de petróleo do Mar Vermelho, ampliando os problemas já causados no Estreito de Ormuz .
Para o mercado, o impacto foi especialmente relevante porque duas rotas marítimas importantes passaram a estar sob ameaça ao mesmo tempo. Além da possibilidade de menor oferta física, aumentaram os custos de seguro, os desvios de navios e o tempo necessário para transportar combustíveis e outras matérias-primas.
A alta ficou concentrada principalmente em energia e agricultura . As estruturas de preços “em backwardation” — quando os contratos para entrega imediata custam mais do que os contratos futuros — favoreceram retornos expressivos em petróleo bruto, gasolina e diesel .
As commodities agrícolas encontraram apoio adicional na confirmação de um padrão de super El Niño, fenômeno climático associado a riscos para a oferta de grãos e produtos agrícolas leves. Metais como o aço também atingiram máximas de vários anos diante do temor de novos problemas nas cadeias de suprimentos .
Ouro e prata registraram ganhos semanais apesar de um ambiente normalmente desfavorável aos metais preciosos: petróleo em alta, expectativas de inflação maiores, dólar mais forte, rendimentos elevados dos títulos do Tesouro americano e maior probabilidade de uma política monetária mais apertada nos Estados Unidos .
A resistência refletiu a procura por proteção diante da incerteza geopolítica. Ainda assim, o desempenho dos metais preciosos não foi uniforme ao longo do período, já que juros reais e dólar mais fortes tendem a reduzir a atratividade de ativos que não pagam rendimento.
O índice Bloomberg do dólar registrou em junho o melhor desempenho mensal do ano, e a moeda americana continuou valorizada em julho . A escalada do conflito elevou as expectativas de inflação e fez crescer as apostas em uma alta dos juros pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos .
O resultado foi um cenário particularmente complexo para títulos de renda fixa e ativos sensíveis aos juros: o petróleo mais caro aumenta a inflação, enquanto juros maiores tendem a desacelerar a atividade econômica e pressionar os preços dos ativos.
Os mercados acionários globais passaram a oscilar entre estabilidade e queda. O choque de energia alimentou o temor de estagflação, combinação de inflação elevada com crescimento fraco. Petróleo mais caro, rendimentos maiores dos títulos e dólar fortalecido pesaram sobre os índices de ações .
A S&P Global Market Intelligence avalia que os preços das commodities devem permanecer acima dos níveis anteriores ao conflito até pelo menos 2028, devido aos danos duradouros à infraestrutura e ao risco geopolítico elevado .
Antes mesmo da escalada de julho, o Banco Mundial projetava alta de 24% nos preços de energia em 2026 — o maior aumento desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022 . A nova rodada de confrontos reforçou essa perspectiva.
Análises de UBS, Saxo Bank e Invesco destacaram que sinais diplomáticos vêm sendo rapidamente acompanhados por novas escaladas militares, mantendo os mercados em um estado de incerteza extrema . Na prática, cada notícia sobre negociações pode provocar uma queda imediata nos preços, mas qualquer ameaça às rotas de transporte ou à infraestrutura energética tem potencial para reacender o rali.
Para investidores, o cenário não aponta apenas para preços mais altos, mas também para oscilações mais intensas entre setores e classes de ativos. Energia, agricultura e metais podem continuar reagindo de maneira diferente a cada desdobramento militar, climático ou monetário.