“RAMaggedon” é um termo informal usado para descrever a falta global de DRAM — a memória utilizada em PCs, notebooks e celulares — e de HBM (High Bandwidth Memory, ou memória de alta largura de banda), essencial para aceleradores de IA e servidores de alto desempenho .
A diferença em relação à escassez de chips de 2020 a 2023 é importante. Naquele período, a combinação de pandemia, demanda excepcional e problemas logísticos desorganizou as cadeias de fornecimento. Agora, o principal fator é uma mudança deliberada na produção: os fabricantes estão destinando mais capacidade a produtos de maior margem para a infraestrutura de IA .
Google, Microsoft, Amazon e Meta, entre outras empresas de nuvem, estão ampliando rapidamente seus clusters para treinamento e inferência de modelos de IA. Um sistema equipado com HBM pode demandar de seis a 12 vezes mais capacidade de memória do que um servidor convencional, enquanto o mercado de HBM teria crescido de cerca de US$ 5 bilhões em 2023 para uma estimativa de US$ 35 bilhões a US$ 40 bilhões em 2026 .
A fabricação da HBM também consome muito mais capacidade de wafer — aproximadamente três a quatro vezes a de um chip DRAM padrão. Por isso, quando Samsung, SK hynix e Micron redirecionam linhas avançadas para HBM, sobra menos espaço relativo, e em alguns casos menos espaço absoluto, para DDR5 e LPDDR5, usadas em computadores e celulares .
A Deloitte afirma que a crise atual é “diferente em natureza, não apenas em intensidade”. Segundo a consultoria, a infraestrutura de IA está consumindo memória em um ritmo estruturalmente difícil de acompanhar, sobretudo porque uma nova fábrica de semicondutores leva anos para ser construída e entrar em operação .
As previsões variam, mas apontam para uma escassez que ainda vai durar:
Em outras palavras, pode haver estabilização pontual antes de uma queda expressiva. Mas a expectativa predominante é que a memória continue cara durante boa parte de 2027.
As altas variam conforme o tipo de chip, a região e o produto final, mas os dados disponíveis mostram aumentos extraordinários:
Por isso, a referência a aumentos de quatro a seis vezes diz respeito às mínimas observadas em alguns segmentos e períodos. Ela não significa que todos os módulos, celulares ou computadores tenham subido exatamente na mesma proporção.
O repasse já aparece em diversas categorias. Em Hong Kong, kits DDR5-6000 de 32 GB passaram de aproximadamente HK$ 780 no início de 2025 para HK$ 2.200 a HK$ 2.600 em meados de 2026 — uma alta estimada entre 180% e 230% . Na Nova Zelândia, kits semelhantes chegaram a NZ$ 450 a NZ$ 550 .
Fabricantes de smartphones, incluindo a Xiaomi, citaram o aumento do custo da LPDDR como um dos motivos para reajustes de US$ 80 a US$ 150 em modelos topo de linha de 2026 .
No mercado de GPUs, a Nvidia lançou a RTX 5090, com 32 GB de GDDR7, por US$ 1.999, e a RTX 5080, com 24 GB, por US$ 1.199 — valores US$ 400 a US$ 500 acima dos preços sugeridos de suas antecessoras. A empresa apontou os custos de memória e empacotamento como o principal fator do aumento .
Dell, HP e Lenovo também adicionaram uma sobretaxa de “ajuste de custo de memória” de 12% a 18% em alguns computadores corporativos e de consumo a partir do primeiro trimestre de 2026 . O impacto chegou ainda ao setor de jogos: o Xbox Series X passou de US$ 499,99 para US$ 799,99, enquanto o PlayStation 5 subiu para US$ 649. A Steam Machine de 512 GB, da Valve, foi lançada por US$ 1.049, acima de uma meta interna estimada entre US$ 700 e US$ 800 .
A pressão sobre preços e disponibilidade já afetou o mercado de computadores. Segundo a IDC, as remessas globais de PCs caíram 4,9% na comparação anual no segundo trimestre de 2026, para 68,2 milhões de unidades. Foi a primeira queda depois de nove trimestres consecutivos de crescimento . A Counterpoint Research calculou uma retração semelhante, de 4% .
Os fabricantes anteciparam estoques tanto quanto puderam, mas o custo mais alto da memória acabou sendo repassado aos compradores. Jitesh Ubrani, da IDC, descreveu uma desconexão entre unidades e faturamento: as remessas diminuem, mas a receita cresce porque os preços estão subindo mais rápido do que a demanda está recuando .
Fornecedores menores de PCs correm o risco de sair do mercado se não conseguirem absorver esses custos ou competir com empresas maiores . A Apple foi uma exceção, com crescimento de 10,1%, favorecida por alocação preferencial de memória e vantagens em sua cadeia de fornecimento .
O mercado de memória costuma alternar períodos de excesso de oferta e escassez. Quando os preços sobem, os fabricantes ampliam a produção; depois, o excesso de chips derruba os valores. Esse mecanismo normalmente se resolve em seis a 12 trimestres, quando a capacidade pode ser ajustada.
O RAMaggedon tem características diferentes:
Samsung, SK hynix e Micron estão ampliando seus investimentos, mas a maior parte do dinheiro segue para produtos ligados à inteligência artificial. A Deloitte espera que os investimentos de capital de toda a indústria de semicondutores ultrapassem US$ 200 bilhões em 2026 .
Estimativas citadas para 2026 apontam para mais de US$ 45 bilhões em investimentos da Samsung, cerca de US$ 35 bilhões da SK hynix e aproximadamente US$ 18 bilhões da Micron. Porém, esses valores incluem sobretudo HBM, empacotamento avançado e a conversão de linhas para novas tecnologias, não uma expansão proporcional da DRAM comum .
A Reuters descreveu a postura dos grandes fabricantes como a instalação de uma “margem limitada contra uma futura queda”, sinal de que eles continuam cautelosos para não repetir os ciclos de excesso de capacidade e colapso de preços do passado .
O RAMaggedon não é apenas uma falta temporária de módulos de RAM nas lojas. É o resultado de uma disputa pela capacidade industrial mais avançada do planeta. De um lado estão os hyperscalers, dispostos a pagar caro por HBM para acelerar seus projetos de IA. Do outro, consumidores e fabricantes de PCs, celulares e consoles competem por uma parcela menor da produção de memória convencional.
A oferta deve continuar apertada durante 2027. O primeiro alívio relevante pode aparecer no início de 2028, mas a expansão completa da capacidade pode levar até 2029 ou 2030. Mesmo quando os preços começarem a recuar, analistas não esperam um retorno rápido aos valores de 2024 e 2025 .