Em dezembro do mesmo ano, a comissão avaliou que a China já estava superando os Estados Unidos em determinados segmentos da inovação biofarmacêutica . O avanço passou a ser tratado por setores do aparato de segurança nacional americano, incluindo o Pentágono, como uma questão estratégica, e não apenas comercial .
A preocupação se concentra no fato de que a biotecnologia pode influenciar áreas como medicamentos, produção industrial, dados biológicos e capacidades de defesa. Na avaliação de críticos em Washington, a estratégia chinesa combina investimentos públicos, coordenação nacional e expansão internacional para acelerar a liderança do país no setor .
A pandemia de COVID-19 expôs a vulnerabilidade de cadeias globais concentradas em poucos fornecedores. Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos medicamentos genéricos têm um princípio ativo cuja origem está na China .
A dependência também aparece nos chamados insumos farmacêuticos ativos (APIs) e nos principais materiais de partida (KSMs), componentes usados na fabricação de medicamentos. A China é fornecedora exclusiva de pelo menos um KSM para mais de 700 APIs diferentes e ultrapassou a Índia em registros relacionados a esses ingredientes em 2024 .
Para os formuladores de políticas americanos, uma interrupção comercial, uma crise geopolítica ou uma decisão regulatória poderia afetar a disponibilidade e o custo de medicamentos. Por isso, propostas como o Biosecure Act buscam limitar compras do governo dos EUA de empresas chinesas como BGI Genomics, WuXi AppTec e WuXi Biologics .
O desafio, porém, é reduzir a dependência sem provocar novas interrupções. Uma pesquisa citada pelo MERICS indicou que 79% de 124 empresas americanas de biotecnologia consultadas em maio de 2024 mantinham algum vínculo com fabricantes terceirizados sediados na China .
O crescimento chinês também aparece nos acordos entre empresas de biotecnologia e grandes farmacêuticas. O valor do licenciamento de ativos da China para o Ocidente alcançou o recorde de US$ 41,5 bilhões em 2024, alta de 66% em relação ao ano anterior. Naquele ano, grandes companhias farmacêuticas obtiveram da China 28% de seus ativos inovadores .
Outra análise indica que um terço dos ativos de biotecnologia licenciados globalmente por grandes farmacêuticas em 2024 veio da China — uma participação que era inferior a 10% em 2017 . Em oncologia, os acordos envolvendo empresas chinesas somaram US$ 30 bilhões em 2024, cerca de três vezes o valor de operações equivalentes relacionadas aos Estados Unidos .
A presença chinesa também cresceu nos ensaios clínicos de medicamentos inovadores. Entre 2016 e 2025, a participação da China nesse segmento aumentou seis vezes, chegando a 30%, enquanto a fatia americana recuou de 45% para 33%. A China passou a representar 7.141 medicamentos, ou 31,1% do pipeline global analisado .
Esse movimento altera a relação de dependência entre as empresas ocidentais e chinesas. Farmacêuticas dos EUA e da Europa passaram a buscar na China não apenas capacidade produtiva, mas também moléculas, plataformas tecnológicas e candidatos a medicamentos que podem ser desenvolvidos e comercializados internacionalmente.
O papel do Estado chinês é outro fator de preocupação. Em fevereiro de 2026, a Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC) abriu uma investigação para examinar o apoio estatal e as práticas de preços de empresas chinesas de biotecnologia, além de avaliar possíveis efeitos sobre a participação de mercado e a competitividade da indústria americana .
A investigação reflete a suspeita de que subsídios, financiamento público e políticas industriais possam permitir que empresas chinesas reduzam preços, ampliem sua capacidade e conquistem mercados externos com mais rapidez. A questão também se conecta às regras americanas de comércio e investimento, que vêm sendo usadas para restringir relações consideradas sensíveis.
O Biosecure Act, apresentado inicialmente em maio de 2024, é uma dessas iniciativas. Já o projeto Biotechnology Innovation and Security Act (BINSA), apresentado em junho de 2026, propõe incluir a biotecnologia na análise de investimentos americanos no exterior e pode submeter acordos de licenciamento e joint ventures com entidades chinesas à revisão do Departamento do Tesouro .
O aumento do escrutínio americano é resultado de quatro fatores interligados: a transformação da China em um centro real de inovação; a dependência dos EUA de ingredientes farmacêuticos chineses; o crescimento da participação chinesa na pesquisa e no desenvolvimento de medicamentos; e a percepção de que Pequim usa políticas estatais para acelerar a expansão do setor.
Para Washington, a resposta envolve diversificar fornecedores, fortalecer a produção doméstica, limitar determinadas parcerias e proteger tecnologias consideradas estratégicas. Para a indústria farmacêutica global, no entanto, um afastamento rápido entre os dois países pode encarecer o desenvolvimento de medicamentos e interromper cadeias de produção que hoje atravessam fronteiras.
A biotecnologia chinesa, portanto, passou a ocupar uma posição ambígua: é simultaneamente uma fonte cada vez mais importante de inovação para as farmacêuticas ocidentais e um foco crescente de preocupação estratégica nos Estados Unidos.