A engenheira está concentrada, possivelmente perto de uma solução. Ainda assim, precisa ir embora: a lei determina o fim da jornada .
A história é apresentada como uma metáfora para uma dificuldade maior. Em setores de alta tecnologia, o valor do trabalho nem sempre aparece de forma contínua ao longo do dia. Uma única percepção pode melhorar o rendimento de uma fábrica, evitar perdas ou acelerar o lançamento de um produto. Com ferramentas de IA, um engenheiro também pode resolver em horas um problema que antes exigiria o trabalho de uma equipe durante semanas .
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “quantas horas foram trabalhadas?” e passa a ser: como medir uma atividade em que o impacto pode estar concentrado em uma descoberta de poucos minutos?
O governo sul-coreano e o Partido Democrata, que durante anos resistiram a exceções amplas para pesquisadores de chips, passaram a considerar uma flexibilização limitada às chamadas “zonas especiais de megaprojetos”, como o futuro polo de Honam .
Uma das propostas é a chamada isenção para trabalhadores de escritório, ou white-collar exemption. Ela poderia retirar certos profissionais de pesquisa e desenvolvimento e gestores de alta renda do limite de 52 horas. Uma versão discutida prevê que trabalhadores no grupo de maior renda, mediante consentimento individual, também deixariam de estar sujeitos a algumas regras sobre descanso, feriados e pagamento adicional de horas extras, noturnas e em feriados .
Outras medidas em análise incluem flexibilizar as regras para trabalhadores temporários e terceirizados e aplicar regimes trabalhistas mais flexíveis em toda a zona especial .
Ainda não se trata de uma mudança definitiva na lei. São propostas em debate, e o formato final — caso haja acordo político — permanece em aberto.
O debate não está restrito ao sudoeste do país. Em 31 de julho, o deputado Koh Dong-jin, do Partido do Poder Popular e ex-executivo-chefe da Samsung, apresentou um projeto para retirar todos os profissionais de pesquisa e desenvolvimento em semicondutores do limite de 52 horas em âmbito nacional .
A iniciativa amplia a disputa: uma exceção apenas para uma zona geográfica poderia criar diferenças entre trabalhadores e empresas do mesmo setor, enquanto uma regra nacional teria impacto muito maior sobre o mercado de trabalho.
A indústria de semicondutores apresenta dois argumentos principais.
O argumento empresarial, contudo, não elimina a preocupação com o custo humano. Sindicatos e organizações civis afirmam que a flexibilização prioriza a competitividade industrial em detrimento dos direitos trabalhistas e acusam o governo de transformar as zonas de megaprojetos em um “laboratório trabalhista” .
A Coreia do Sul quer investir somas históricas para disputar a liderança global em chips para IA. Ao mesmo tempo, tenta preservar uma regra que limita jornadas excessivas e foi criada justamente para proteger os trabalhadores.
O desafio é encontrar uma fórmula que permita flexibilidade em momentos realmente críticos sem transformar a exceção em uma autorização permanente para jornadas longas. Para a indústria, o relógio pode não capturar o valor de uma descoberta. Para os trabalhadores, retirar o relógio da equação pode fazer com que a pressão por produtividade nunca termine.
É esse o conflito no centro do projeto sul-coreano: como acelerar a inovação na era da IA sem tratar o tempo — e a saúde — dos engenheiros como um recurso ilimitado?