Samsung, SK Hynix e Micron, as três maiores fabricantes de memória, controlam mais de 95% da produção global de DRAM e vêm transferindo capacidade de suas salas limpas para a HBM . A HBM é fundamental para aceleradores de IA porque permite movimentar grandes volumes de dados rapidamente entre a memória e os processadores.
Estimativas indicam que até 70% de todos os chips de memória fabricados no mundo em 2026 serão consumidos por data centers de IA . A HBM já ocupa 23% da capacidade de produção de wafers de DRAM, contra uma participação de apenas um dígito percentual dois anos atrás .
A disputa também acontece antes mesmo de os chips chegarem ao mercado. Grandes empresas de tecnologia estão assinando contratos plurianuais, pagando prêmios para garantir fornecimento futuro. Isso reduz ainda mais a oferta disponível no mercado à vista, onde fabricantes de celulares e outros compradores tentam adquirir componentes .
Sassine Ghazi, CEO da Synopsys, disse à CNBC que a pressão sobre os chips deve continuar durante 2026 e 2027 . Para analistas, trata-se de uma crise estrutural: a demanda por IA é pouco sensível a aumentos de preço e cresce mais rápido do que a capacidade industrial consegue acompanhar .
O mercado de smartphones já sente o impacto diretamente. As remessas globais caíram 11% no segundo trimestre de 2026, o pior resultado para um segundo trimestre desde 2013, de acordo com estimativas da Counterpoint Research .
As previsões para o ano inteiro também pioraram:
A escassez tende a pesar principalmente sobre aparelhos básicos e intermediários, que têm margens menores e são mais sensíveis ao aumento do custo dos componentes. Em muitos casos, fabricantes precisam escolher entre elevar preços, reduzir especificações ou adiar lançamentos.
A Qualcomm registrou queda de 20% na receita de chips para celulares no terceiro trimestre fiscal de 2026, para US$ 5,09 bilhões . A receita de sua divisão QCT para aparelhos Android também recuou 20% na comparação anual, com impacto superior a US$ 1,50 no lucro por ação .
A empresa citou aumentos “sem precedentes” nos preços e restrições de oferta de memória. Como resposta, anunciou que elevaria os preços da maioria de seus chips a partir de 1º de setembro de 2026 . A Qualcomm estima que o mercado de celulares encolherá na faixa de “poucos dígitos na casa dos 10%” em 2026, com a maior fraqueza concentrada nos modelos de entrada .
A receita de chips móveis da MediaTek caiu 20% no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado foi pressionado pelo custo maior dos componentes e pela redução da demanda por smartphones .
A participação da empresa no mercado de chipsets para celulares caiu de 38% no primeiro trimestre de 2025 para 32% no primeiro trimestre de 2026 . A forte presença da MediaTek nos aparelhos básicos e intermediários foi afetada pela queda nas vendas dessas categorias.
Ao mesmo tempo, a companhia tenta aproveitar o movimento que está prejudicando seu negócio tradicional. A MediaTek aprovou uma estrutura de financiamento de US$ 5 bilhões para avançar em chips destinados a data centers de IA . Seu CEO, Rick Tsai, projetou uma queda de aproximadamente 15% nas remessas globais de smartphones em 2026 .
As remessas globais de chipsets para smartphones recuaram 15% no primeiro semestre de 2026. Qualcomm e MediaTek tiveram, cada uma, queda estimada de 25% nas remessas de SoCs — sistemas que reúnem processador e outros componentes em um único chip .
Para o ano inteiro, a Counterpoint Research estima recuo de 14% nas remessas de chipsets. No segmento de entrada, a queda pode chegar a 30% .
A crise não se limita aos smartphones. O setor automotivo enfrenta o que vem sendo chamado de “chipflação”: a disparada dos custos de componentes de memória. A escassez afeta desde chips flash usados em celulares e pendrives até a HBM empregada nos servidores de IA .
Reportagens da Bloomberg indicam que a disputa por memória está atingindo laptops, smartphones e automóveis . A alta dos custos pode reduzir margens, provocar restrições de produção e elevar os preços finais de diversos produtos. Líderes do setor de tecnologia, como Elon Musk e Tim Cook, alertaram que a escassez já começa a pressionar lucros e planos corporativos .
Embora o setor automotivo esteja entre os mais expostos, as fontes disponíveis não confirmam especificamente acordos individuais de fornecimento envolvendo GM e Micron ou Ford, nem aumentos de preços da BYD. O dado confirmado é que a pressão de oferta se espalha por praticamente todos os setores que dependem de memória.
A expectativa predominante é de que o aperto continue até 2027 e possivelmente além. Uma análise da IDC publicada em junho de 2026 afirma que a expansão de servidores equipados com GPUs está “absorvendo a capacidade de memória antes que a oferta consiga se reequilibrar”. O estudo também aponta que as cargas de trabalho de inferência — quando um sistema de IA usa um modelo já treinado para gerar respostas — podem consumir tanta memória quanto o treinamento em grande escala .
A chegada de novas fábricas e linhas de produção deve levar tempo. Por isso, a normalização da oferta é amplamente esperada apenas para 2027 ou depois .
A IDC prevê uma segunda queda consecutiva, de 1,1%, nas remessas de smartphones em 2027, seguida por uma recuperação de 5,5% em 2028, quando o fornecimento de memória deve se normalizar . A Omdia também espera que o mercado encolha em 2027, mas em ritmo bem menor, de 0,9%; uma recuperação significativa em volume só começaria em 2028 .
O ponto central da crise é uma mudança estrutural na indústria. A demanda dos data centers de IA está redirecionando a produção de memória para a HBM, que oferece margens maiores e atende a compradores dispostos a pagar mais para garantir capacidade.
Enquanto a oferta não acompanhar esse ritmo, fabricantes de smartphones, computadores e veículos continuarão disputando os mesmos componentes — e consumidores poderão pagar mais por produtos com menos memória ou esperar mais tempo por novos modelos. Para a IDC, esta é “uma crise como nenhuma outra” .