A negativa é direta. Ainda assim, o episódio expôs uma tensão estratégica concreta: a Tesla depende profundamente de sua estrutura industrial chinesa, enquanto a SpaceX mantém vínculos estreitos com o governo e a área de defesa dos Estados Unidos.
De acordo com o WSJ, alguns executivos da Tesla teriam sido orientados a se preparar para uma separação das operações na China. Consultores da empresa teriam discutido diferentes possibilidades, entre elas:
A reportagem também afirmou que Musk teria estruturado o negócio chinês para que ele pudesse ser separado com relativa facilidade da operação americana diante das tensões geopolíticas. Essa configuração poderia ser útil caso avançasse uma combinação entre Tesla e SpaceX .
O motivo apontado seria regulatório e estratégico: uma empresa reunindo a presença industrial da Tesla na China e os contratos de defesa e segurança nacional da SpaceX poderia despertar preocupações em Washington sobre exposição estrangeira, transferência de tecnologia e proteção de informações sensíveis .
Separar a China não seria uma decisão periférica. A Gigafactory de Xangai é uma das principais engrenagens da produção global da Tesla.
Na prática, uma separação retiraria da Tesla sua maior unidade produtiva, um de seus principais polos de exportação e uma parcela central de sua cadeia global de fornecedores. Por isso, mesmo que o plano descrito pelo WSJ não exista, a operação chinesa teria um peso enorme em qualquer reorganização futura.
A eventual união das duas companhias enfrentaria barreiras que vão muito além de uma decisão empresarial. A principal dificuldade está no papel da SpaceX como fornecedora estratégica do governo americano.
Uma transação que combinasse a forte presença chinesa da Tesla com uma empresa responsável por contratos militares e programas classificados da defesa americana provavelmente seria submetida a uma análise rigorosa do Committee on Foreign Investment in the United States (CFIUS) — o comitê americano que avalia investimentos e transações com possíveis impactos sobre a segurança nacional .
Reguladores poderiam considerar a exposição chinesa um risco para o controle de tecnologias, dados e ativos estratégicos. Parlamentares americanos, incluindo a senadora Elizabeth Warren, já questionaram possíveis investimentos chineses na SpaceX e descreveram a companhia como uma contratada crítica do Departamento de Defesa .
A SpaceX participa de lançamentos relacionados à segurança nacional dos Estados Unidos, opera a Starshield — versão militar da rede Starlink — e atua em outros programas de defesa e inteligência. Em seu documento S-1, a empresa afirmou ser a principal fornecedora de lançamentos do governo americano. Em 2025, realizou 11 dos 12 lançamentos de médio e grande porte do programa National Security Space Launch .
Esse vínculo torna mais sensível qualquer estrutura que mantenha, dentro do mesmo grupo, uma grande operação industrial e comercial na China.
Analistas do JPMorgan descreveram a obtenção simultânea de autorizações regulatórias em diferentes jurisdições como um “gargalo prático”. Os Estados Unidos poderiam resistir a qualquer vínculo considerado arriscado para seus contratos de defesa, enquanto a China poderia se opor a uma reorganização que reduzisse o compromisso local da Tesla .
Pequim também teria instrumentos próprios para revisar operações estrangeiras que afetem interesses nacionais. Uma transação que deslocasse investimentos, tecnologias ou decisões estratégicas para fora da China poderia enfrentar condições severas ou ser bloqueada .
Há ainda uma questão societária. Musk controla aproximadamente 85% do poder de voto da SpaceX, mas cerca de 20% da Tesla. Essa diferença poderia dificultar a definição dos termos de uma operação e alimentar a percepção de que o negócio seria, na prática, uma aquisição liderada pela SpaceX — e não uma fusão entre iguais .
As empresas de Musk também permanecem sob escrutínio de autoridades americanas. Uma investigação do Senado apontou processos, investigações e ações de fiscalização envolvendo Musk e cinco de suas empresas em pelo menos oito agências federais, com exposição potencial superior a US$ 2,37 bilhões em multas criminais e penalidades civis, considerando a situação registrada em janeiro de 2025 .
Musk negou categoricamente que a separação da Tesla China tenha sido discutida. A Tesla China reforçou a negativa. Portanto, a reportagem do WSJ não comprova que exista um plano aprovado ou em execução.
O que ela evidencia, porém, é um dilema estratégico plausível: uma fusão entre Tesla e SpaceX teria de conciliar a dependência industrial da Tesla em relação à China com o papel da SpaceX na segurança nacional americana. Com os dois governos capazes de impor revisões, restrições ou vetos, qualquer operação desse tipo seria juridicamente, politicamente e operacionalmente complexa.