A Moody’s publicou sua análise em 29 de julho e destacou um problema estrutural. Para as seguradoras que vendem apólices diretamente a clientes, os incêndios na França e na Espanha aparecem como perdas nacionais separadas. Para as resseguradoras — empresas que assumem parte do risco das seguradoras —, porém, eles formam uma exposição regional acumulada .
Quando vários incêndios de grande porte ocorrem ao mesmo tempo no sul da Europa, o sistema global de resseguros é pressionado de uma só vez. Isso reduz a eficácia dos modelos tradicionais de diversificação, nos quais eventos em diferentes mercados deveriam, em tese, compensar-se parcialmente .
A Swiss Re, por sua vez, afirmou em 28 de julho que os incêndios devem aumentar a procura por seguros privados. O problema é que as perdas causadas por incêndios florestais, em geral, não são cobertas pelos fundos nacionais de seguro existentes no sul da Europa. Os proprietários precisam contratar proteção privada por conta própria, e as lacunas de cobertura variam bastante entre os países .
O resultado é um desequilíbrio delicado: os mecanismos públicos não cobrem adequadamente o risco, enquanto as seguradoras privadas ficam mais expostas justamente quando os incêndios se tornam mais frequentes e caros.
O incêndio de Gironde começou em 22 de julho, nos departamentos franceses de Gironde e Landes, no sudoeste do país, junto à costa atlântica . As chamas chegaram a 15 quilômetros de Bordeaux, a sexta maior cidade da França e centro de uma das principais regiões vinícolas do país .
| Indicador | França | Espanha |
|---|---|---|
| Área total queimada em 2026 até 27 de julho | Cerca de 115 mil a 116 mil hectares | Cerca de 153 mil hectares |
| Principal incêndio de julho | Aproximadamente 40 mil a 42 mil hectares; área equivalente a quatro vezes Paris | |
| Dimensão histórica | Segundo maior incêndio individual na França desde a Segunda Guerra Mundial | Maior incêndio individual da história moderna da Espanha |
Os números acumulados já haviam rompido os recordes anuais franceses antes mesmo do fim do verão. Segundo o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, 13.566 incêndios consumiram mais de 116 mil hectares no país desde janeiro .
Somadas, as evacuações nos dois países ultrapassaram 300 mil pessoas, em uma das maiores operações desse tipo já registradas na Europa .
Pelo menos 240 casas foram destruídas na França, e muitas outras sofreram danos . Autoridades e equipes de combate descreveram o fogo como “imprevisível”; em alguns momentos, ele se transformou em uma espécie de tempestade de fogo autossustentada .
As áreas produtoras de vinho próximas a Bordeaux também ficaram ameaçadas, com possíveis impactos sobre uma importante atividade econômica e exportadora francesa . Resorts, áreas de férias e estruturas turísticas foram afetados, aumentando o alcance econômico da crise .
A conta final dos prejuízos segurados ainda estava sendo calculada, mas as primeiras estimativas indicavam que o custo econômico total chegaria a bilhões de euros . O ministro francês das Finanças, Roland Lescure, afirmou que a crise atingiu a economia local .
A avaliação da Swiss Re aponta que os fundos nacionais de seguro do sul da Europa geralmente não cobrem incêndios florestais de forma ampla. Com isso, os proprietários dependem de apólices privadas, cuja disponibilidade e cujo preço variam conforme o país e o nível de risco .
À medida que os incêndios se tornam mais frequentes, a procura por cobertura tende a crescer. Mas o aumento da demanda pode vir acompanhado de prêmios mais altos — o valor pago pelo segurado —, restrições de cobertura e falta de capacidade para oferecer apólices em zonas consideradas de alto risco .
O alerta da Moody’s está ligado à forma como as perdas se acumulam. Uma mesma temporada pode gerar indenizações por danos a imóveis, interrupção de negócios, agricultura e florestas em diferentes países. Para as resseguradoras, esses custos transfronteiriços podem se somar em uma única exposição regional concentrada .
Esse cenário desafia a ideia de que a diversificação geográfica sempre reduz o risco. Quando França, Espanha e outros mercados enfrentam incêndios simultâneos, a correlação entre os eventos aumenta — e a conta pode chegar ao sistema internacional de resseguros ao mesmo tempo.
Desde 1970, as perdas seguradas globalmente causadas por incêndios florestais cresceram cerca de 12% ao ano, em termos reais — ritmo superior ao de qualquer outro grande perigo climático, segundo a Swiss Re .
Os incêndios europeus de julho ocorreram poucos meses depois do recorde de US$ 40 bilhões em perdas seguradas em Los Angeles. Juntos, os eventos reforçam a percepção de que incêndios, tempestades severas e enchentes já dominam as perdas por catástrofes naturais, exigindo uma revisão dos modelos de precificação e avaliação de risco .
A Moody’s observou que a dimensão definitiva do episódio dependeria do avanço do controle das chamas, da área queimada, da contagem final de estruturas destruídas e da duração da temporada de incêndios . Como ainda faltavam quase dois meses para o fim do verão de 2026, novas perdas recordes continuavam possíveis .
Mas a mensagem central já estava definida: a estrutura atual de proteção contra incêndios florestais na Europa não acompanha mais a escala do risco. Para consumidores, seguradoras e governos, isso pode significar prêmios mais caros, maior dificuldade para encontrar cobertura e uma pressão crescente por prevenção, adaptação climática e novos mecanismos públicos e privados de proteção.
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