A mudança foi relevante porque, em junho, a manutenção dos juros havia sido aprovada por unanimidade, em 12 a 0 . As atas daquela reunião já tinham adotado um tom mais rígido, levando os mercados futuros a elevar as probabilidades de novas altas .
Na primeira entrevista coletiva do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, o banco central também sinalizou que poderia elevar os juros já em setembro caso a inflação permanecesse pressionada .
A reação dos mercados foi rápida: o índice do dólar subiu e o rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos avançou, refletindo a expectativa de uma política monetária mais apertada .
Esse movimento pesa diretamente sobre o ouro. Como o metal não gera juros ou dividendos, ele perde atratividade quando os títulos passam a oferecer retornos maiores. Além disso, um dólar mais forte encarece o ouro cotado na moeda americana para compradores de outros países .
A HSBC reduziu sua previsão de preço médio do ouro em 2026 de US$ 4.864 para US$ 4.560, citando explicitamente a “mudança mais dura nas expectativas de política monetária dos EUA” e o fortalecimento do dólar . A Goldman Sachs também cortou em US$ 500 sua projeção para o fim do ano .
A intensificação das hostilidades entre Estados Unidos e Irã levou o petróleo a máximas de nove semanas, com o Brent acima de US$ 90 por barril . Em condições normais, esse tipo de choque geopolítico poderia estimular a procura por ouro como ativo de proteção.
Desta vez, porém, o canal econômico dominou o movimento. O petróleo mais caro reacendeu o medo de uma inflação disseminada. Com isso, os investidores passaram a considerar uma resposta mais agressiva do Fed, empurrando os rendimentos dos Treasuries para cima . O dólar se fortaleceu ainda mais, criando um ciclo de pressão sobre o metal .
A sequência foi praticamente inversa à reação clássica de “porto seguro”:
choque de energia → medo de inflação → expectativa de juros mais altos → dólar mais forte → ouro mais fraco .
Assim, a crise energética não funcionou como um impulso sustentado para o ouro. Ela apertou as condições financeiras e aumentou o custo de oportunidade de manter o metal . Até mesmo um episódio direto de escalada militar — quando a Guarda Revolucionária do Irã lançou mísseis contra um navio transportador de gás natural liquefeito do Catar no estreito de Ormuz, em 7 de julho — foi seguido por uma queda de aproximadamente 1,1% no ouro .
O episódio reforçou uma lição importante: o ouro não reage apenas à manchete geopolítica, mas também à forma como o mercado interpreta suas consequências econômicas.
A deterioração técnica começou antes da queda de julho.
Os próximos níveis de atenção eram a média móvel de 20 meses, em aproximadamente US$ 3.821, e o retraçamento de Fibonacci de 50% . Analistas avaliavam que uma ruptura consistente abaixo de US$ 4.000 poderia abrir espaço para US$ 3.950 e US$ 3.900 .
O ouro chegou a se recuperar brevemente após dados mais fracos dos Estados Unidos. O índice de preços ao consumidor (CPI) caiu 0,4% em junho, enquanto o relatório de emprego mostrou a criação de apenas 57 mil vagas, contra uma expectativa de 110 mil .
Esses números reduziram temporariamente as apostas em uma alta de juros e ajudaram o ouro a testar novamente a região de US$ 4.100. Mas o movimento perdeu força quando o mercado voltou a se concentrar na possibilidade de uma política monetária mais rígida.
Por isso, a escalada no Oriente Médio não foi suficiente para sustentar uma alta. O peso combinado de juros reais elevados, dólar forte, expectativas de inflação e suportes técnicos rompidos superou a demanda defensiva pelo metal .
No fim de julho de 2026, o ouro era negociado entre aproximadamente US$ 4.020 e US$ 4.075 — cerca de 28% abaixo da máxima histórica de janeiro, próxima de US$ 5.595 . O metal permanecia em uma faixa de consolidação, com espaço limitado para alta enquanto o caminho dos juros americanos não ficasse mais claro .
A manutenção dos juros pelo Fed trouxe algum alívio aos metais preciosos, mas o chamado “congelamento duro” também prolongou a incerteza sobre inflação e política monetária. Na avaliação de analistas, isso poderia manter ouro e prata presos às faixas recentes por mais algum tempo .