Os custos de memória dispararam para níveis nunca vistos na era dos eletrônicos de consumo. Os preços da DRAM móvel subiram de 78% a 83% trimestre contra trimestre para o padrão LPDDR5X e de 70% a 75% para o LPDDR4X no segundo trimestre de 2026 . A Samsung relatou que seus preços de memória subiram 90% apenas no primeiro trimestre de 2026 . A TrendForce projetou que os preços contratuais de DRAM convencional continuariam subindo de 58% a 63% no trimestre, e que os preços anuais da DRAM disparariam de 150% a 200% .
Pela primeira vez, os custos de memória superaram os custos dos processadores (SoC) em todos os segmentos de preço de smartphones. Historicamente, a memória representava cerca de 10% a 15% do custo total dos componentes (BOM). No primeiro trimestre de 2026, a TrendForce reportou que essa participação saltou para 30% a 40% . Dados da Counterpoint mostraram que, no primeiro trimestre de 2025, DRAM e NAND representavam cerca de 8% e 5% do BOM, respectivamente; no segundo trimestre de 2026, a memória e o armazenamento respondiam por quase metade do custo total dos componentes — a DRAM sozinha chegando a mais de 20% em muitos segmentos . A Omdia constatou que, em smartphones abaixo de US$ 400, os custos de memória consumiram quase 60% do BOM total no primeiro trimestre de 2026 .
O choque de preços desencadeou uma contração histórica na produção e nas vendas. As remessas globais de chips SoC para smartphones caíram 15% na comparação anual no primeiro semestre de 2026, impulsionadas pelo aumento dos custos de memória, pela gestão cautelosa de estoques por parte dos fabricantes e pelo ciclo de troca mais longo . A Counterpoint espera que as vendas anuais de smartphones em 2026 caiam aproximadamente 14% — a maior contração anual já registrada . O segmento de entrada foi o mais atingido, com vendas caindo mais de 30% . As vendas globais de smartphones no segundo trimestre de 2026 caíram para o nível mais baixo desde 2013, de acordo com a Counterpoint e a IDC . A previsão da IDC em maio projetava uma queda anual de 13,9%, para 1,09 bilhão de unidades .
Uma segunda queda consecutiva de 1,1% é esperada para 2027, com uma recuperação de 5,5% prevista apenas para 2028, conforme a oferta de memória se normalizar . Múltiplos analistas alertaram que a indústria pode enfrentar outro ano difícil em 2027 .
A crise reorganizou o cenário competitivo entre os fornecedores de SoC. MediaTek e Qualcomm tiveram quedas de vendas superiores a 25% na comparação anual no primeiro semestre de 2026 . A participação de mercado da MediaTek caiu de aproximadamente 38% para 32%, enquanto a da Qualcomm caiu de aproximadamente 27% para 23% no primeiro trimestre de 2026 . Enquanto isso, Apple, Samsung, Google e UNISOC ganharam participação e registraram crescimento nas vendas no período . As vendas de SoC da Apple apresentaram "crescimento sólido", com sua participação subindo de 15% para 19% na comparação anual . Os chips Tensor do Google cresceram, com os processadores próprios ganhando tração . A UNISOC cresceu impulsionada pela demanda por smartphones de entrada, migrando para plataformas 4G de custo mais baixo para reduzir o BOM .
Vale notar que os SoCs com capacidade de IA generativa (GenAI) contrariaram a tendência geral e cresceram 24%, já que os fabricantes priorizaram dispositivos premium com IA, mesmo reduzindo a produção de modelos mais baratos .
Os consumidores já estão sentindo os efeitos. O Google confirmou que o Pixel 11 terá aumentos de preço de aproximadamente US$ 100, além da redução da memória RAM base de 16 GB para 12 GB, como resposta direta à inflação nos custos de memória . Smartphones premium (acima de US$ 800) tiveram um aumento no BOM de US$ 100 a US$ 150, com a memória devendo representar mais de 40% dos custos dos componentes . A Counterpoint relatou que os custos de materiais para smartphones de baixo custo (abaixo de US$ 200) subiram de 20% a 30% no início de 2026, enquanto os dispositivos de médio e alto padrão tiveram aumentos de 10% a 15% . A IDC projeta que o preço médio de venda dos smartphones subirá 14%, para um recorde de US$ 523 até 2027 . A diretora sênior de pesquisa da IDC, Nabila Popal, alertou que o segmento abaixo de US$ 100, que representa aproximadamente 171 milhões de dispositivos, se tornará "permanentemente inviável" . A TrendForce afirma que muitas marcas não terão outra escolha senão aumentar os preços finais dos produtos para proteger as margens de lucro, o que exigirá ajustes na oferta de produtos e especificações .
As perspectivas continuam sombrias. Não se espera uma normalização na oferta de memória antes do segundo semestre de 2027, com algumas fontes alertando que não haverá alívio antes de 2028 . A IDC prevê uma segunda queda consecutiva de 1,1% em 2027, antes de uma recuperação de 5,5% em 2028, com a normalização da oferta de memória . No entanto, os analistas alertam que os preços não devem retornar aos níveis anteriores à crise, mesmo após o fim da escassez . Como disse Francisco Jeronimo, da IDC: "O que estamos testemunhando não é um aperto temporário, mas um realinhamento fundamental da cadeia de suprimentos de semicondutores" .