O que é "shadow borrowing"? É um termo cunhado pelo BIS em sua Revisão Trimestral de março de 2026 para descrever obrigações financeiras que são economicamente equivalentes a dívida, mas que permanecem fora dos balanços das empresas, tornando-se invisíveis para a maioria dos investidores .
A Meta usou uma estrutura clássica para seu projeto Hyperion, em Louisiana: um empreendimento conjunto onde a empresa detém apenas 20% e o fundo de crédito privado Blue Owl Capital, com 80%, assume a maior parte da dívida . Para isso, foram criadas sete empresas de fachada em Delaware com a palavra "Beignet" no nome .
A Microsoft reportou US$ 62,9 bilhões em passivos de arrendamento financeiro (finance lease) em seu balanço do Q3 do ano fiscal de 2026, um valor que aparece na linha "outros passivos" e não como dívida explícita de longo prazo . Ao todo, as obrigações totais com arrendamentos da empresa chegam a US$ 178,7 bilhões .
A Alphabet (Google) concedeu US$ 43,8 bilhões em garantias de crédito — ou seja, prometeu cobrir os pagamentos de aluguel de datacenters de terceiros caso o inquilino não pague — mas registrou essa exposição a apenas US$ 815 milhões em valor justo no balanço . Esse valor disparou de US$ 6,5 bilhões em setembro de 2025 para US$ 44 bilhões em julho de 2026, um aumento de quase 7 vezes .
Funcionam como uma espécie de colchão: a empresa garante que, ao final do contrato, o ativo valerá um certo valor. A Moody's alerta que, se o valor dos datacenters cair (devido à rápida depreciação dos chips de IA), as empresas podem ter que arcar com custos inesperados .
O BIS, em sua Revisão Trimestral de março de 2026, descobriu que as big techs transferiram silenciosamente mais de US$ 120 bilhões em dívida relacionada à IA para fora de seus balanços em apenas 18 meses . Os principais pontos:
A agência de classificação de risco S&P rebaixou a nota da Oracle para BBB− em julho de 2026 — a um passo do grau especulativo ("junk") — devido às enormes obrigações fora do balanço da empresa .
O spread do credit default swap (CDS) da Oracle — um seguro contra calote da dívida — ultrapassou os níveis registrados durante a crise financeira de 2008 .
A Alphabet registrou fluxo de caixa livre negativo no Q1 de 2026 pela primeira vez desde 2004, impulsionado pelos gastos massivos em IA . Segundo uma análise jurídica, tanto a Alphabet quanto a Meta devem gerar fluxo de caixa livre negativo de até US$ 28 bilhões em 2026 .
A Moody's emitiu um alerta em julho de 2026 sobre a "circularidade" dos investimentos em IA: as big techs são, simultaneamente, os maiores clientes, financiadores e parceiros de capital nas SPVs de datacenters, criando exposições interligadas que podem amplificar perdas em uma eventual crise . A Moody's afirmou que os gastos com IA "ameaçam a qualidade de crédito" da Amazon, Meta e Alphabet .
A linha de fundo: Entre US$ 1,65 e US$ 2,13 trilhões em "dívida sombra" para construção de datacenters de IA estão fora dos balanços das cinco maiores empresas de tecnologia dos EUA. O BIS classifica isso como risco sistêmico, e o mercado já respondeu: rebaixamento da Oracle a um passo do "lixo", CDS da Oracle superando os níveis de 2008, primeiro fluxo de caixa livre negativo da Alphabet em mais de duas décadas e um alerta da Moody's sobre a perigosa circularidade do financiamento da IA.