A reação europeia combinou duas posições que, à primeira vista, parecem contraditórias: Bruxelas reconheceu que a nova alíquota respeitava o acordo comercial firmado com Washington, mas rejeitou a justificativa usada pelos Estados Unidos para adotá-la.
A Comissão Europeia afirmou que o resultado estava “em linha com” o acordo comercial fechado pelos dois lados um ano antes, em Turnberry . A escolha das palavras foi importante.
A tarifa de 10% aplicada aos produtos europeus ficou abaixo do teto de 15% reservado pelos Estados Unidos no acordo . Por isso, a Comissão considerou que a medida era compatível com os compromissos assumidos por Washington — mas não comemorou a cobrança nem aceitou a acusação de que a União Europeia seria negligente no combate ao trabalho forçado.
Na prática, tratou-se de uma posição tática: preservar o acordo e evitar uma nova escalada comercial, sem dar a entender que Bruxelas aprovava a justificativa americana ou a ampliação geral do uso de tarifas.
A reação de autoridades da União Europeia e de outros parceiros comerciais foi, em grande parte, negativa. O argumento de que os países atingidos não estariam fazendo o suficiente para impedir a entrada de produtos ligados ao trabalho forçado foi considerado sem fundamento.
A União Europeia, por exemplo, já havia criado sua própria Regulamentação sobre Trabalho Forçado, que proíbe a comercialização no mercado europeu de produtos fabricados nessas condições. A regra se aplica tanto a bens importados quanto a produtos feitos dentro do próprio bloco .
O acordo político anunciado em 27 de julho de 2025, em Turnberry, na Escócia, foi negociado pelo presidente americano Donald Trump e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O texto estabeleceu um teto de 15% para as tarifas americanas sobre a maior parte das exportações europeias .
Em contrapartida, a União Europeia se comprometeu a eliminar tarifas sobre produtos industriais americanos e a oferecer acesso preferencial a uma série de bens agrícolas e pesqueiros dos Estados Unidos . O entendimento foi detalhado e confirmado em uma declaração conjunta publicada em 21 de agosto de 2025 .
O ponto central para entender a reação de julho de 2026 é que os 15% funcionavam como teto, não como piso. Assim, uma nova tarifa de 10% poderia ser considerada tecnicamente compatível com o acordo, desde que não ultrapassasse esse limite. Isso explica por que a Comissão Europeia conseguiu reconhecer a conformidade do percentual e, ao mesmo tempo, criticar sua justificativa.
A implementação do compromisso ocorreu em meio a forte pressão política. Trump havia dado à União Europeia um ultimato até 4 de julho, aniversário de 250 anos da independência dos Estados Unidos, ameaçando impor tarifas “muito mais altas” caso o bloco não ratificasse o acordo .
O Parlamento Europeu aprovou sua posição de negociação em março de 2026 . Em 20 de maio, Parlamento e Conselho da União Europeia chegaram a um acordo provisório sobre as regras necessárias para implementar os compromissos tarifários .
Em 16 de junho, o Parlamento Europeu aprovou o acordo por 440 votos a 151, com 50 abstenções . A parte europeia do acordo entrou em vigor em 1º de julho de 2026 , eliminando tarifas sobre grande parte dos produtos industriais americanos e ampliando o acesso a alguns produtos agroalimentares.
O processo deixou a Comissão politicamente exposta: ela precisava cumprir o compromisso com Washington, mas enfrentava resistência dentro do próprio bloco. Nesse cenário, evitar uma nova retaliação ou uma escalada imediata tornou-se uma prioridade.
Outro elemento decisivo foi a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em 20 de fevereiro de 2026, no caso Learning Resources Inc. v. Trump. Por 6 votos a 3, os ministros concluíram que a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) não autorizava o presidente a impor tarifas amplas e abrangentes .
A decisão derrubou a base jurídica das tarifas globais temporárias de 10% impostas anteriormente . Com isso, o governo americano precisou buscar outra autoridade legal para manter sua política tarifária.
A alternativa escolhida foi a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite a adoção de medidas contra práticas comerciais consideradas injustas, mas exige investigações e conclusões formais sobre a conduta dos parceiros comerciais .
Em 2 de junho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos — conhecido pela sigla USTR — anunciou conclusões em 60 investigações baseadas na Seção 301. A alegação era que os países investigados não teriam feito o suficiente para impedir a entrada de produtos produzidos com trabalho forçado .
As tarifas anunciadas em 24 de julho foram o resultado desse processo. Elas substituíram as cobranças baseadas na IEEPA, que haviam expirado, e usaram as conclusões sobre trabalho forçado como gatilho jurídico para a aplicação da Seção 301 .
A mudança tem consequências práticas. Diferentemente da IEEPA, que permitia uma ação emergencial rápida e ampla, a Seção 301 depende de investigações e é mais limitada. Ao mesmo tempo, as tarifas criadas por esse mecanismo tendem a ser mais difíceis de eliminar rapidamente por um futuro governo .
A decisão de julho de 2026 não encerrou a disputa comercial entre Estados Unidos e União Europeia. Ela apenas manteve o conflito dentro de uma faixa considerada administrável por Bruxelas.
Para a Comissão Europeia, o fato de a tarifa permanecer em 10% — abaixo do teto de 15% — preservou formalmente a trégua de Turnberry. Para governos europeus e outros parceiros comerciais, porém, a justificativa baseada no trabalho forçado continuou sendo contestável, especialmente porque a UE já possui legislação própria sobre o tema.
O resultado foi uma espécie de trégua sob tensão: o acordo evitou uma tarifa ainda maior, mas não eliminou a disputa sobre a legalidade, a motivação e o possível acúmulo de novas medidas americanas.