No dia seguinte, os papéis caíram até 8% .
Foi uma reviravolta confusa para o investidor pessoa física, mas a lógica ficou clara para quem leu além dos números principais. A realização de lucros teve dois gatilhos principais — e ambos se conectam diretamente à ansiedade crescente do mercado sobre se o boom da infraestrutura de IA é sustentável.
A Intel reportou um prejuízo líquido contábil (GAAP) de US$ 11,0 bilhões (US$ 2,16 por ação) no segundo trimestre . Esse prejuízo veio, em grande parte, de encargos de reestruturação e impairment ligados à cara migração da Intel para o modelo de foundry (fundição) — um esforço de turnaround de vários anos que ainda não se provou aos olhos de muitos investidores.
As métricas não-GAAP excluem esses custos pontuais, por isso a Intel conseguiu, ao mesmo tempo, reportar um resultado operacional recorde e um prejuízo bilionário. Mas, para muitos investidores de varejo e traders algorítmicos que escaneiam os números principais, o prejuízo contábil foi a primeira coisa que viram. Venderam primeiro e perguntaram depois.
O fator mais relevante — e o que mais chamou a atenção dos analistas — foi o gasto de capital (capex).
A Intel elevou sua projeção de capex para 2026 para mais de US$ 20 bilhões — muito acima das estimativas anteriores — e sinalizou que o capex de 2027 seria "significativamente superior" aos níveis de 2026 . O CFO David Zinsner confirmou isso na teleconferência de resultados, citando "sinais de demanda excepcionalmente fortes dos clientes" .
Para uma empresa que ainda está tentando provar sua recuperação, essa escalada de gastos alarmou os investidores. Significava que a Intel, em vez de gerar fluxo de caixa livre com o boom da IA, precisaria despejar ainda mais dinheiro em fábricas e equipamentos — sem garantia de quando esses investimentos trariam retorno.
As ações já acumulavam alta de aproximadamente 163% no ano até a divulgação do balanço . Depois de dispararem 12-13% no after-hours de 23 de julho, muitos vendedores de sexta-feira estavam simplesmente realizando lucros .
Apesar do resultado forte, a maioria dos analistas manteve suas recomendações e adotou um tom moderado. A CNBC reportou que "os analistas tiveram, em grande parte, uma reação moderada aos resultados estrondosos do segundo trimestre da Intel, com a maioria dos bancos de investimento de Wall Street mantendo suas classificações atuais para a ação" . Eles não estavam dispostos a elevar a recomendação até verem uma melhora sustentada nas margens e execução no negócio de foundry .
A queda das ações da Intel em 24 de julho não foi um evento isolado. Foi o sintoma mais recente de uma reavaliação generalizada do mercado sobre o ciclo de gastos de capital em IA, que vinha se formando há semanas.
O Índice de Semicondutores da Filadélfia (.SOX) caiu quase 24% de seu pico no final de junho até meados de julho, entrando tecnicamente em um bear market . Um relatório da Bloomberg em 18 de julho descreveu as ações de semicondutores em queda "em meio a preocupações sobre se os maciços investimentos em inteligência artificial justificarão valuations elevados" .
A Reuters reportou que fundos de hedge dos EUA venderam ações de hardware de tecnologia pela quarta semana consecutiva no início de julho, com o Goldman Sachs observando uma ampla rotação para fora do setor . A venda não se limitou aos EUA — o índice KOSPI da Coreia do Sul despencou quase 10% durante o pregão, acionando circuit breakers, enquanto Samsung Electronics e SK Hynix caíram de 9% a 12% .
Uma pesquisa do Bank of America com 162 gestores de fundos, que administram US$ 440 bilhões, constatou que "um número histórico" de entrevistados acredita que as empresas estão gastando demais em investimentos em IA, chamando o movimento de bolha . A Reuters observou em maio de 2026 que o boom do capex em IA já havia "eclipsado a mania das pontocom" em escala, com crescente preocupação de que os gastos podem não gerar retornos suficientes .
Até mesmo o JPMorgan, que permaneceu amplamente otimista em relação aos gastos com IA, reconheceu a tensão: sua perspectiva de meio de ano elevou sua estimativa para os gastos de capital globais relacionados à IA para US$ 5,5 trilhões até 2030, mas observou que "gastos nesta escala ameaçam os lucros corporativos e os balanços patrimoniais" .
A receita da divisão de Data Center e IA da Intel disparou 59%, para US$ 6,3 bilhões, e seu negócio geral de IA cresceu 70% em relação ao ano anterior . Mas a resposta da empresa a essa demanda — aumentar o capex para mais de US$ 20 bilhões e sinalizar ainda mais em 2027 — ilustrou perfeitamente o dilema central do mercado: perseguir o crescimento da IA exige investimentos cada vez maiores, com prazos de retorno que permanecem incertos.
A queda da Intel na sexta-feira foi um golpe duplo. Um prejuízo contábil bilionário assustou os investidores de varejo, e uma escalada no capex atingiu um nervo em um mercado que já estava precificando o risco de um "pico nos gastos com IA".
A ação caiu não apesar das boas notícias, mas porque as notícias confirmaram a trajetória de gastos que os investidores já temiam em todo o setor de semicondutores. A demanda por IA é real e está crescendo. A questão que o mercado está fazendo agora — e que os resultados da Intel colocaram em foco — é se o retorno sobre esse investimento chegará rápido o suficiente para justificar o custo.