Uma nova pesquisa conduzida por astrônomos da Universidade de Durham, no Reino Unido, e apresentada no National Astronomy Meeting 2026 da Royal Astronomical Society, finalmente explica por que o halo estelar da Via Láctea — aquela região esparsa e antiga que envolve o disco da galáxia — gira de forma tão incomumente lenta. A resposta, segundo os cientistas, está em uma colisão violenta e frontal ocorrida há cerca de 10 bilhões de anos com uma galáxia anã chamada Gaia-Enceladus-Sausage (ou simplesmente 'Salsicha de Gaia') ![]()
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O que as novas evidências mostram
A equipe de Durham combinou simulações de supercomputador de última geração com dados precisos do satélite Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA). As simulações, que fazem parte do projeto Auriga, recriaram a evolução de 25 galáxias com massa similar à da Via Láctea ao longo de bilhões de anos ![]()
. O resultado principal é o seguinte:
- O disco da Via Láctea virou de lado. O impacto frontal da galáxia anã foi tão energético que reorientou todo o disco estelar da nossa galáxia em mais de 90 graus em relação ao seu plano original
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- Não foi instantâneo. O 'virar' aconteceu de forma gradual ao longo de bilhões de anos, com o disco se reposicionando dentro do imenso e estável halo de matéria escura que envolve a galáxia
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- O halo estelar 'lembra' do passado. O halo estelar — uma nuvem esparsa de estrelas muito antigas, remanescentes de fusões com galáxias menores — reteve uma 'memória' da orientação original e do torque gerado pela virada. Como resultado, ele gira muito mais devagar do que o disco propriamente dito, algo que os astrônomos já haviam detectado com o Gaia e que até agora não tinha uma explicação clara
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"O projeto começou como uma investigação sobre a velocidade de rotação do halo estelar" — explicou o astrônomo Kirill Batrakov, da Universidade de Durham, em entrevista ao ScienceAlert ![]()
. "Descobrimos que as galáxias que sofreram fusões massivas no início de sua história tinham halos estelares que giravam muito mais lentamente."
O que isso significa para a órbita do Sistema Solar?
A pesquisa indica que o Sol (e todo o Sistema Solar) teve sua trajetória alterada por esse evento cósmico.
- O caminho do Sol mudou. Antes da colisão, o Sol provavelmente seguia uma órbita diferente ao redor do centro galáctico. Após a virada do disco, sua trajetória foi 'resetada' para acompanhar a nova orientação do plano da galáxia
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- Sem risco de instabilidade. É essencial destacar que essa colisão aconteceu entre 5 e 6 bilhões de anos antes do Sol e da Terra sequer existirem. Portanto, não há qualquer evidência de que a estabilidade orbital atual do Sistema Solar esteja ameaçada por esse antigo cataclismo
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. O que o estudo mostra é que a trajetória do Sol hoje não é a mesma que teria sido se a colisão não tivesse ocorrido.
A relação entre o halo estelar e a matéria escura
Um dos aspectos mais fascinantes da descoberta é como ela conecta as estrelas visíveis ao componente mais misterioso da nossa galáxia: a matéria escura.
- A matéria escura ficou parada. Enquanto o disco de estrelas virou mais de 90°, o enorme halo de matéria escura, que é aproximadamente esférico e muito mais massivo, permaneceu em sua orientação original. A reorientação aconteceu dentro dessa 'armação' invisível e fixa
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- O torque que desacelerou o halo. Conforme o disco girava contra o halo de matéria escura, interações gravitacionais transferiram momento angular. A rotação lenta do halo estelar é interpretada como uma assinatura direta desse torque, ligando a dinâmica das estrelas à influência gravitacional da matéria escura, que não pode ser vista diretamente
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- Uma nova sonda para a matéria escura. Essa descoberta oferece uma nova maneira de estudar a forma e a estabilidade do halo de matéria escura da Via Láctea. Medindo como o halo estelar está 'inclinado' e sua rotação reduzida, os astrônomos podem inferir propriedades da distribuição da matéria escura que, de outra forma, seriam impossíveis de observar
. Um estudo recente, inclusive, já apontava que o halo estelar tem uma forma triaxial e inclinada em relação ao disco, o que só é possível se o halo de matéria escura tiver uma geometria específica para sustentá-lo .
Em resumo, o trabalho da equipe de Durham oferece a explicação mais convincente até agora para a rotação anormalmente lenta do halo estelar da Via Láctea, ligando-a a uma virada massiva do disco causada por uma colisão com uma galáxia anã. O Sistema Solar teve sua órbita redefinida por esse evento, mas sua estabilidade a longo prazo não foi comprometida. A pesquisa também abre uma nova janela para entender a matéria escura, o componente mais elusivo do universo.
Este artigo foi baseado em um estudo apresentado no National Astronomy Meeting 2026 da Royal Astronomical Society por pesquisadores da Universidade de Durham, com cobertura do The Guardian, ScienceAlert, India Today e outras fontes ![]()
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