A equipe liderada pelo MIT mediu o grau de distorção (tecnicamente, a medida de dispersão) para milhares de sinais de FRB detectados pelo Canadian Hydrogen Intensity Mapping Experiment (CHIME). Em seguida, eles cruzaram a distorção de cada FRB com as posições conhecidas de galáxias em todo o céu. Ao isolar quanto da distorção era contribuída pelo gás difuso fora das galáxias — em vez das próprias galáxias — eles puderam mapear onde a matéria bariônica perdida está realmente localizada .
Esta abordagem é poderosa porque as FRBs agem como holofotes cósmicos. Como explicou Kiyoshi Masui, do MIT: 'As rajadas rápidas de rádio penetram a névoa do meio intergaláctico. Ao avaliar com precisão como a luz desacelera, podemos quantificar essa névoa, mesmo quando ela é muito tênue para ser vista diretamente' .
A análise produziu vários resultados impressionantes que estão remodelando nossa compreensão de como as galáxias funcionam.
A matéria bariônica perdida não existe como uma forma exótica de matéria. Em vez disso, assume a forma de nuvens de gás morno-quente de densidade muito baixa — o meio intergaláctico morno-quente, ou WHIM, na sigla em inglês — que se estendem para longe das galáxias, no espaço intergaláctico .
Um estudo complementar publicado na Nature Astronomy em 2025 forneceu uma contabilidade completa de onde reside toda a matéria bariônica: 76% está em nuvens intergalácticas mornas, 15% é gás frio dentro e ao redor das galáxias, e apenas 9% compõe todas as estrelas e planetas que vemos .
Talvez o resultado mais surpreendente seja que as nuvens observadas alcançam distâncias significativamente maiores das galáxias do que a maioria das simulações de computador havia antecipado. Essa discrepância é importante porque as simulações de computador — como as baseadas no modelo cosmológico padrão — são uma das principais ferramentas que os cosmologistas usam para testar sua compreensão do universo .
A distribuição estendida do gás aponta para uma única causa subjacente: os processos energéticos dentro das galáxias são muito mais violentos do que se pensava anteriormente. Buracos negros supermassivos nos centros das galáxias lançam jatos poderosos que explodem matéria para fora, supernovas de estrelas moribundas fazem o mesmo, e essas forças combinadas estão lançando matéria comum no espaço intergaláctico em uma escala massiva. Como Kiyoshi Masui afirmou: 'Essas medições indicam que a atividade das estrelas e a atividade dos buracos negros são mais fortes e muito mais violentas do que o previsto' .
Um estudo separado no arXiv, analisando dados de 3.455 fontes únicas de FRB do CHIME, encontrou correlações estatisticamente significativas (variando de 2,6 a 5 sigma) entre os sinais de FRB e dez diferentes sondas de estrutura em grande escala, incluindo galáxias, lentes gravitacionais fracas e lentes da radiação cósmica de fundo. Isso confirma a detecção da teia bariônica difusa em redshifts de até cerca de 1,5 — o que significa que o gás está lá há bilhões de anos .
O problema dos bárions perdidos tem sido um dos quebra-cabeças mais persistentes da astrofísica por quase duas décadas. Resolvê-lo valida o quadro fundamental que os cosmologistas construíram: a matéria comum realmente está onde a teoria previa, apenas em uma forma que era invisível para os telescópios tradicionais até agora .
Mas a descoberta também revela que as simulações de galáxias precisam de uma grande atualização. A distribuição inesperadamente ampla do gás significa que os modelos podem estar subestimando quanta energia as galáxias injetam em seus arredores — energia de buracos negros e estrelas em explosão que molda o ambiente ao redor de cada galáxia. Isso tem implicações para tudo, desde a compreensão da evolução das galáxias até a medição da estrutura em grande escala do universo.
O trabalho da colaboração CHIME está apenas começando. Com o lançamento do Segundo Catálogo de FRBs do CHIME em janeiro de 2026, o número de fontes de FRB publicadas saltou de 861 para mais de 4.500 . Cada nova rajada adiciona outro ponto de dados para mapear a teia cósmica dos bárions.
Trabalhos futuros usarão não apenas o número de FRBs, mas também suas localizações precisas — possibilitadas pelos telescópios CHIME/FRB Outrigger — para identificar exatamente quais grupos de galáxias são cercados por bárions perdidos e para medir as propriedades dessas nuvens de gás com mais detalhes .