O pânico foi tamanho que o Índice de Semicondutores da Filadélfia (SOX) entrou em território de bear market (queda de 20% ou mais em relação ao pico recente), e o valor de mercado global de semicondutores encolheu cerca de US$ 3,3 trilhões em poucos dias. Na prática, o governo chinês usou sua artilharia pesada para conter os danos.
O gatilho para a turbulência foi a apresentação do Kimi K3 pela Moonshot AI, uma startup de Pequim, na quinta-feira, 16 de julho de 2026. O modelo, um LLM de peso aberto (open-weight) com 2,8 trilhões de parâmetros — o maior já lançado do tipo —, apresentou desempenho em benchmarks que rivaliza com os modelos topo de linha da OpenAI e da Anthropic, mas a um custo muito menor. A reação do mercado foi imediata, com comparações ao "momento DeepSeek" do início de 2025, quando outro modelo chinês barato abalou as certezas sobre a dominância dos EUA na área de IA.
Na sexta-feira, 17 de julho, os mercados americanos desabaram: o Nasdaq Composite caiu 1,40%, o S&P 500 perdeu 1,01%, e as ações de chips foram fortemente penalizadas — Nvidia caiu 2,2%, Applied Materials 5,6% e ASML 5,3%. O índice PHLX Semiconductor acumulou queda de 10% na semana, entrando em bear market.
No fim de semana, duas estatais de investimento anunciaram publicamente a compra coordenada de ações. A China Reform Holdings Corporation (CRHC) afirmou que suas entidades de investimento alocaram mais de 50 bilhões de yuans (cerca de US$ 7,38 bilhões) de linhas especiais de refinanciamento (special relending facilities) e fundos equivalentes para recompra de ações e aumento de participações em estatais. A empresa declarou que mantinha "confiança nas perspectivas do mercado de capitais chinês" e que continuaria a aumentar suas participações em empresas estatais centrais (SOEs).
Paralelamente, a China Chengtong Holdings Group fez um compromisso semelhante. Somadas, as injeções do "time nacional" chegaram a aproximadamente CNY 60 bilhões (US$ 8,9 bilhões) até o final do domingo. O Wall Street Journal reportou o total como cerca de US$ 9 bilhões.
A intervenção aconteceu na esteira de perdas severas no mercado chinês. O STAR Market, índice de tecnologia da bolsa de Xangai, despencou mais de 24% em relação ao pico de 1º de julho, eliminando mais de 4 trilhões de yuans em valor de mercado.
A Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC, na sigla em inglês) também agiu no fim de semana. Segundo diversos relatos, o órgão convocou instituições financeiras para uma reunião de emergência na segunda-feira, 20 de julho, para discutir medidas de estabilização do mercado. Contudo, nenhuma declaração pública da CSRC atribuindo diretamente suas ações ao selloff do Moonshot/Kimi K3 foi encontrada nos resultados de busca disponíveis. O que se sabe é que o órgão convocou as instituições como parte de uma intervenção mais ampla, mas um comunicado formal ou nota oficial da CSRC sobre o tema não foi capturado.
As principais declarações públicas vieram das duas estatais de investimento, e não diretamente da CSRC. O papel do regulador parece ter sido de coordenação nos bastidores.
Dias após o lançamento, a popularidade do Kimi K3 sobrecarregou a capacidade computacional da Moonshot AI. No domingo, 19 de julho, a empresa suspendeu novas assinaturas, afirmando que a demanda "havia se aproximado dos limites da nossa capacidade atual". A startup também começou a se preparar para um possível IPO em Hong Kong, desmontando sua estrutura de variable-interest entity (VIE) para liberar o caminho regulatório.