Cerf, de 83 anos, ingressou no Google em 2005 com o título nada convencional de Chief Internet Evangelist (Evangelista Chefe da Internet), um cargo que ele mesmo brincou ter sugerido que fosse "Archduke" (Arquiduque) . Durante duas décadas, ele atuou como uma espécie de "embaixador tecnológico", participando de discussões sobre padrões, promovendo a internet aberta e oferecendo sua visão sobre o futuro da tecnologia
.
Em seu discurso de despedida, Cerf não se limitou a celebrar o passado. Ele mirou no futuro e no que considera o próximo grande desafio: a proliferação de agentes de IA — programas de software capazes de agir de forma autônoma, tomar decisões e interagir com outros sistemas para executar tarefas complexas .
O argumento de Cerf é direto e poderoso: estamos caminhando para uma torre de Babel digital. De um lado, empresas como Google, OpenAI e Microsoft estão lançando seus próprios agentes. De outro, não existe uma "linguagem comum" para que esses agentes de diferentes origens se entendam e colaborem de forma segura e em escala .
"O modelo agêntico da IA, com múltiplos agentes de múltiplas fontes interagindo entre si, vai forçar a interoperabilidade, a padronização e a composição entre sistemas", explicou Cerf durante o painel . Para ele, a indústria precisará resolver, mais cedo ou mais tarde, o mesmo enigma que ele enfrentou com Bob Kahn nos anos 1970: como fazer sistemas distintos se entenderem? Naquela época, a resposta foi o TCP/IP, o conjunto de protocolos que permite que redes de computadores diferentes se comuniquem e formem a internet que conhecemos hoje
.
Se a internet dos computadores precisou do TCP/IP para conectar máquinas, a "internet dos agentes" precisará de um novo conjunto de padrões. Sem ele, o risco é de um ecossistema fragmentado, onde cada agente só funciona dentro de seu próprio "jardim murado", incapaz de se comunicar com agentes de outras plataformas. Isso limitaria o potencial da tecnologia para resolver problemas complexos que exigem colaboração entre diferentes sistemas, como otimizar cadeias de suprimentos globais, gerenciar redes de energia ou até mesmo coordenar assistentes pessoais de diferentes fabricantes .
A saída de Cerf do Google simboliza o fim de um capítulo onde a narrativa central era a dos "protocolos abertos" que permitiram a explosão da internet . Agora, ele passa o bastão para uma nova geração de engenheiros, com um aviso que soa como uma missão: criem os padrões para a próxima era da computação, antes que o caos tome conta.
A indústria já começou a se mexer. Iniciativas como o protocolo A2A (Agent-to-Agent) do Google, o MCP (Model Context Protocol) da Anthropic e o ACP (Agent Communication Protocol) da IBM são os primeiros passos nessa direção, mas ainda não há um consenso ou um padrão universalmente aceito . Cerf, como sempre, está um passo à frente, apontando o caminho que a tecnologia precisará trilhar.