Em 25 de junho de 2026, o Tribunal Judicial de Paris proferiu uma decisão histórica e mista no processo de dever de vigilância climática contra a gigante do petróleo e gás TotalEnergies. A corte determinou que a empresa deve divulgar e tratar dos riscos climáticos ligados às emissões de seus clientes, mas não impôs cortes obrigatórios de emissões ou a paralisação de novos projetos de combustíveis fósseis.
O que o tribunal decidiu
- TotalEnergies violou seu dever de vigilância. O tribunal considerou que a empresa não cumpriu suas obrigações sob a lei francesa de 2017 sobre o dever de vigilância corporativa, ao não abordar adequadamente os riscos climáticos associados aos seus produtos
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- Inclusão obrigatória das emissões de Escopo 3 (dos consumidores). A corte ordenou especificamente que a TotalEnergies "complete seu atual plano de diligência, em até seis meses da notificação da decisão, adicionando as emissões de gases de efeito estufa de Escopo 3" — ou seja, as emissões indiretas produzidas quando os clientes queimam seus produtos de petróleo e gás
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. Os juízes afirmaram que a TotalEnergies dispõe de alavancas para influenciar essas emissões por meio de suas escolhas de investimento e da composição de seu portfólio de energia
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- Prazo de seis meses para um plano revisado. A empresa tem seis meses a partir da notificação da decisão para apresentar um plano de vigilância atualizado que leve em conta esses riscos climáticos gerados pelos consumidores
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. Uma nova audiência está marcada para janeiro de 2027 para revisar o cumprimento da ordem ![]()
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- Nenhuma ordem para paralisar novos projetos de combustíveis fósseis. O tribunal não exigiu que a TotalEnergies interrompesse o desenvolvimento de novos campos de petróleo e gás, nem impôs metas quantitativas e vinculativas de redução de emissões
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. A decisão foi amplamente descrita como uma "vitória parcial" — uma vitória legal em obrigações de transparência, mas não nas mudanças operacionais substantivas que os autores buscavam ![]()
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Contexto do processo
- Ação aberta em janeiro de 2020. Seis ONGs — Notre Affaire à Tous, Sherpa, ZEA, Les Eco Maires e France Nature Environnement — juntamente com mais de uma dúzia de municípios franceses (incluindo a Prefeitura de Paris) entraram com a ação contra a Total (como era então chamada)
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- Base legal: A lei francesa de 2017 sobre o Dever de Vigilância, que exige que grandes empresas identifiquem, previnam e relatem riscos aos direitos humanos e ao meio ambiente em suas operações e cadeias de valor
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- Batalha processual pré-julgamento. A TotalEnergies inicialmente contestou a jurisdição do tribunal, argumentando que o caso deveria ser julgado pela justiça comercial. O tribunal cível de Nanterre rejeitou essa objeção em fevereiro de 2021, e o Tribunal de Apelação de Paris confirmou a admissibilidade da ação em junho de 2024
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- Julgamento do mérito. O julgamento substantivo ocorreu ao longo de dois dias em fevereiro de 2026, com a decisão sendo emitida durante uma onda de calor recorde em 25 de junho
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Principais argumentos jurídicos de ambos os lados
- Autores (ONGs e autoridades locais): Argumentaram que o plano de vigilância existente da TotalEnergies era inadequado porque cobria apenas as emissões diretas da empresa (Escopos 1 e 2) e ignorava o impacto climático muito maior da combustão de seus produtos (Escopo 3). Eles buscavam uma ordem judicial que obrigasse a empresa a alinhar sua estratégia com a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, incluindo a paralisação de novos projetos de combustíveis fósseis e cortes vinculativos
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- TotalEnergies: Sustentou que não tem obrigação legal, sob a lei francesa, de controlar as emissões de seus clientes, que a lei do dever de vigilância não exige reduções específicas de emissões e que as emissões de Escopo 3 dependem da escolha do consumidor e da política governamental, não de uma ação corporativa unilateral
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. A empresa também destacou sua estratégia climática existente e seus investimentos em energias renováveis
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Pressões legais mais amplas que a TotalEnergies enfrenta na Europa
- Bélgica (caso do agricultor contra o clima): Um tribunal belga adiou um caso movido pelo agricultor Hugues Falys (apoiado pelo Greenpeace) buscando indenização por danos climáticos da TotalEnergies, aguardando o resultado da decisão de Paris
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- Litígio de greenwashing em Paris. Um caso separado, movido por Les Amis de la Terre, Greenpeace France e Notre Affaire à Tous em 2025, contesta a comercialização de gás e biocombustíveis pela TotalEnergies como energia "limpa". Uma audiência ocorreu em junho de 2025
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- Pressão regulatória da UE. A TotalEnergies, juntamente com a Siemens, instou publicamente a UE a enfraquecer ou abolir as principais regras de relatórios de sustentabilidade corporativa em 2025, sinalizando resistência à tendência regulatória mais ampla
. O relatório de 2025 da LSE sobre litígios climáticos globais observa uma "onda de decisões influentes na Europa", incluindo a Suprema Corte do Reino Unido e casos em expansão de responsabilidade
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O que determinará se a ordem leva a mudanças operacionais substantivas
- Revisão de conformidade em janeiro de 2027. O tribunal se reunirá novamente para avaliar se o plano de vigilância revisado da TotalEnergies aborda adequadamente os riscos de Escopo 3. Se o plano for considerado insuficiente, o tribunal poderá impor penalidades financeiras ou intensificar suas ordens
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- Alcance das "alavancas" reconhecidas pelo tribunal. O impacto da decisão depende de quão longe o tribunal leva a interpretação da influência da TotalEnergies sobre as emissões dos consumidores — se exige mudanças na estratégia de investimento, no mix de produtos ou em reduções reais
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- Recurso de qualquer um dos lados. A TotalEnergies pode recorrer da obrigação de divulgação do Escopo 3, enquanto os autores podem recorrer da recusa do tribunal em ordenar cortes vinculativos de emissões. A interpretação legal final pode levar anos
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- Efeito cumulativo de casos paralelos. O caso do agricultor belga, o julgamento de greenwashing e novas ações judiciais potenciais podem criar um ecossistema legal em cascata que aperta progressivamente as obrigações da empresa em todas as jurisdições
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- Pressão de investidores e reputacional. Mesmo sem metas vinculativas de redução, a divulgação obrigatória dos riscos climáticos de Escopo 3 pode mudar as expectativas dos investidores e o escrutínio público, forçando a empresa a tratar esses riscos como materiais para sua estratégia de negócios.