O principal motor por trás do colapso de terça-feira foi uma mudança sísmica nas expectativas para a política monetária dos EUA.
A virada surpreendente do Bank of America. Em 22 de junho, o Bank of America Global Research fez uma reviravolta impressionante. O banco passou de esperar zero altas de juros em 2026 para prever três aumentos consecutivos de 0,25 ponto percentual em setembro, outubro e dezembro – totalizando 0,75 ponto percentual . O catalisador, segundo o economista do BofA, Aditya Bhave, foi uma inflação "inequivocamente pior", um mercado de trabalho resiliente e a postura mais agressiva do novo presidente do Fed, Kevin Warsh
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O próprio sinal agressivo do Fed. Dias antes, na reunião de 17 de junho do FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto), o Fed manteve os juros estáveis entre 3,50% e 3,75%, mas o gráfico de projeções (dot plot) contou uma história diferente. Nove dos 19 formuladores de política monetária já sinalizavam pelo menos um aumento de juros em 2026, e a mediana da projeção para a taxa de fundos federais em 2026 foi elevada de 3,4% para 3,8% . Os mercados rapidamente se ajustaram: a probabilidade de um aumento em setembro subiu para cerca de 70%, e na terça-feira, a ferramenta FedWatch do CME (Bolsa Mercantil de Chicago) mostrava uma probabilidade de 86% a 88% de um aumento até dezembro
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O corte de 22% na previsão do ouro pelo Deutsche Bank. Em 22 e 23 de junho, o analista do Deutsche Bank, Michael Hsueh, reduziu a meta de preço do ouro para o terceiro trimestre de 2026 em aproximadamente 22%, de mais de US$ 5.500/oz para US$ 4.300/oz, e cortou a previsão para o final do ano para US$ 4.800/oz . Hsueh citou explicitamente a "reprecificação do Fed, juntamente com dados macroeconômicos resilientes dos EUA" como o principal motor e observou que a demanda tradicional de investimento estava "evaporando"
. Ele também alertou que, em um cenário com três a quatro aumentos de juros, o ouro poderia cair para perto de US$ 3.800/oz
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O Goldman Sachs seguiu o mesmo caminho. O Goldman já havia reduzido drasticamente suas metas de preço do ouro na semana anterior, e o Citi também reduziu suas previsões, criando um efeito cascata de baixa em Wall Street .
A disparada do dólar americano. O Índice do Dólar Americano (DXY) subiu para uma máxima de um ano, tornando o ouro e a prata, cotados em dólar, mais caros para compradores internacionais e pressionando diretamente os preços . Tim Waterer, analista-chefe de mercado da KCM Trade, disse à CNBC: "O dólar continua subindo com as expectativas de aumentos de juros do Fed", não oferecendo "nenhum favor" ao ouro
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A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro. Os rendimentos dos títulos subiram em sintonia com as expectativas de aumento de juros, elevando o custo de oportunidade de manter barras de ouro e ETFs (fundos de índice) que não renderam juros .
A crise global das ações de tecnologia. Uma forte liquidação das ações de tecnologia – desencadeada pelos mesmos temores de aumento de juros – se espalhou para os metais preciosos, à medida que os investidores reduziam a exposição ao risco em todas as classes de ativos . A Micron Technology caiu 13,18%, a Sandisk despencou 13,64% e a NVIDIA recuou 4,13% em uma "crise histórica" que um analista chamou de "o catalisador principal" para o declínio dos metais na terça-feira
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O fim do prêmio de guerra geopolítico. As negociações de paz entre EUA e Irã, incluindo uma licença de 60 dias para o Irã vender petróleo nos mercados internacionais, reduziram a demanda por ativos seguros (safe havens) que antes sustentavam o ouro e a prata acima de US$ 4.300 em maio e início de junho . O suporte de US$ 4.100, que brevemente se manteve após a assinatura do memorando EUA-Irã em 19 de junho, foi "totalmente revertido e superado" na terça-feira, com ambos os metais atingindo seus níveis mais fracos desde 11 de junho
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Enfraquecimento da demanda institucional. Embora os principais ETFs ainda mostrassem entradas e as posições líquidas compradas na COMEX (Bolsa Mercantil de Chicago) permanecessem elevadas, o sentimento mais amplo mudou decisivamente para baixista à medida que a reprecificação do Fed se consolidava .
O relatório PCE que se aproxima como um evento de risco. Os mercados se preparavam para o relatório de inflação de maio com base no Índice de Preços de Gastos com Consumo Pessoal (PCE) – a medida de inflação preferida do Fed –, que seria divulgado no final da semana. O Bank of America projetou que a inflação do núcleo do PCE poderia chegar a 3,5%, e uma leitura elevada poderia reforçar a narrativa agressiva e acelerar a liquidação .
O ouro caiu em direção ao piso psicológico de US$ 4.000/oz depois de ter sido negociado bem acima de US$ 4.300 em semanas anteriores . A prata, no entanto, foi a maior vítima. Caiu mais de 5% em uma única sessão, em comparação com o declínio de 1,3% do ouro, devido ao seu beta mais alto em relação à demanda industrial – particularmente em painéis solares, eletrônicos e semicondutores – e à sua maior sensibilidade ao posicionamento em relação aos aumentos de juros
. Como observou um analista: "A prata funciona com dois motores de demanda. Apenas um está sendo atingido hoje"
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Conclusão principal: A queda de terça-feira não foi resultado de um único evento, mas de um poderoso ciclo de feedback autorreforçador. A guinada agressiva do BofA reescreveu as perspectivas para o Fed, levando o Deutsche Bank e o Goldman a reduzirem suas projeções para o ouro. Isso impulsionou o dólar e os rendimentos dos títulos, o que, por sua vez, amplificou a crise das ações de tecnologia e a liquidação dos metais. Ao mesmo tempo, o fim do prêmio da guerra do Irã removeu o piso geopolítico, deixando os metais preciosos expostos a uma oscilação baixista total antes do relatório crucial do PCE.