Um dos aspectos mais alarmantes deste surto é que pacientes infectados estão abandonando as instalações de isolamento para buscar comida ,
. Em um incidente, 11 pacientes suspeitos fugiram de um hospital em Bambu, a cerca de 40 km do epicentro do surto, por causa do suporte nutricional inadequado
. O chefe do escritório do Programa Mundial de Alimentos (PMA) em Ituri, Olivier Nkakudulu, foi direto: "Existem medidas de saúde que sugerem que as pessoas sejam contidas em áreas, mas se essas pessoas não estiverem recebendo assistência alimentar, elas não vão ficar nas áreas de contenção. Elas vão procurar comida"
. Trabalhadores humanitários agora descrevem a fome como um dos maiores obstáculos para conter o vírus
.
O surto está colidindo com uma crise de fome de longa data. Antes mesmo da chegada do vírus, quase 10 milhões de pessoas nas províncias orientais afetadas pelo Ebola já sofriam de fome aguda ,
. Em toda a RDC, 26,5 milhões de pessoas devem enfrentar níveis de crise de insegurança alimentar ou piores até o início de 2026
. A ONU e a OMS descreveram a situação como uma "colisão catastrófica de doença e conflito" — onde a violência armada, o deslocamento em massa e a fome aguda estão sobrecarregando os esforços de contenção
. O International Rescue Committee (IRC) colocou a RDC em sua lista dos dez países com maior risco de catástrofe humanitária em 2026, alertando que o colapso dos serviços de saúde, a fome recorde e os cortes drásticos na ajuda estavam levando milhões ao limite
.
O vírus Bundibugyo (BDBV) é uma forma rara de Ebola que atualmente não possui vacina ou tratamento antiviral aprovado ,
. Três vacinas candidatas estão em desenvolvimento, mas nenhuma ainda está disponível
. Isso contrasta fortemente com a cepa Zaire, para a qual existem a vacina Ervebo e tratamentos com anticorpos
,
. A falta de uma vacina significa que profissionais de saúde e contatos de pacientes não podem ser protegidos profilaticamente, e os pacientes não podem receber uma terapia comprovada
. O África CDC afirmou que pretende ter uma vacina pronta até o final de 2026
.
A violência e a resistência da comunidade estão agravando os desafios operacionais. Em 21 de maio, jovens locais em Rwampara atacaram e incendiaram um centro de tratamento de Ebola depois que a polícia os impediu de recuperar o corpo de um amigo que havia morrido do vírus ,
. O CDC dos EUA citou "desafios significativos para o acesso comunitário" como um fator-chave que impulsiona a gravidade deste surto
. O IRC observa que décadas de conflito armado, deslocamento forçado e exploração corroeram a confiança nas autoridades e nos respondedores de saúde, tornando o engajamento da comunidade extremamente difícil
.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) é a agência líder para assistência alimentar na resposta ao Ebola. O PMA identificou uma necessidade de financiamento de US$ 214 milhões para continuar suas operações na RDC até outubro de 2026 . O financiamento internacional tem sido substancial, mas desigual: o Departamento de Estado dos EUA forneceu mais de US$ 200 milhões diretamente para a resposta ao Ebola, além de US$ 350 milhões para necessidades humanitárias mais amplas
; o Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU alocou até US$ 60 milhões, com US$ 10 milhões liberados imediatamente para a RDC e US$ 4 milhões para Uganda
,
; a Comissão Europeia alocou € 15 milhões
; e a OMS liberou US$ 3,4 milhões adicionais de seu Fundo de Contingência para Emergências
. No entanto, o financiamento humanitário geral para a RDC caiu drasticamente em 2025, mesmo com as necessidades atingindo níveis recordes, forçando o PMA a priorizar apenas a assistência vital
. O PMA relata que um déficit de US$ 218 milhões permanece para o ano
.
O Diretor-Geral do África CDC, Jean Kaseya, fez alertas contundentes. Durante uma reunião virtual de chefes de estado africanos, ele disse: "Se não pararmos o surto muito em breve, será pior do que o que tivemos na África Ocidental e no leste da RDC" . Ele observou que milhares de contatos de casos não foram rastreados
. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) avaliou que a epidemia ainda não atingiu o pico e pode durar um ano
. A avaliação de ameaça do ECDC classifica o risco de maior propagação dentro da região e para países vizinhos como muito alto, dada a ampla distribuição geográfica em 31 zonas de saúde, o movimento transfronteiriço e as restrições de segurança
.
O vírus Bundibugyo é relativamente raro — identificado pela primeira vez em Uganda em 2007 — mas tem uma taxa de letalidade estimada entre 25% e 50% . Este surto já é o maior surto de Bundibugyo já registrado
. Sem vacina, sem tratamento comprovado, com fome generalizada e conflito ativo no leste da RDC, a janela para contê-lo está se fechando rapidamente.
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