O gatilho mais imediato do rali foi a simples lei da oferta e demanda. A SpaceX vendeu mais de 555 milhões de ações para levantar ao menos US$ 75 bilhões, mas apenas 3% a 5% do total de papéis da empresa foram disponibilizados para negociação pública, o que deixou o montante de ações negociáveis na faixa de US$ 45 a US$ 100 bilhões . Essa fatia minúscula não foi um acidente. Grande parte das ações permaneceu bloqueada com insiders e investidores iniciais, criando uma escassez estrutural.
Ao mesmo tempo, a demanda era inédita. O interesse dos investidores alcançou aproximadamente US$ 250 bilhões, cerca de quatro vezes o valor das ações disponíveis . A SpaceX se apoiou nisso, alocando uma fatia incomumente grande de 30% do IPO diretamente para investidores pessoa física por meio de plataformas como Robinhood, Fidelity e Schwab
. Isso representou de três a seis vezes a alocação típica do varejo para uma listagem desse porte e criou uma base de acionistas entusiasmada e massiva
.
O resultado foi uma operação de momento que se autoalimentou. As ações subiram 19% no primeiro dia de negociação, mais 20% no segundo dia, fechando a US$ 192,46, e tiveram um ganho adicional de 4,8% no terceiro dia . Na manhã de terça-feira, antes da abertura do mercado, os papéis já operavam mais de 54% acima do preço do IPO
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A SpaceX é uma empresa aeroespacial e de satélites, mas seu rali também foi turbinado por uma história de inteligência artificial. Em 21 de abril, a companhia anunciou um acordo que lhe dava o direito de adquirir a Cursor, um popular assistente de codificação baseado em IA, por US$ 60 bilhões até o fim do ano — ou a opção de investir US$ 10 bilhões em uma parceria com a startup .
O acordo com a Cursor, idealizado pela startup Anysphere, não era uma aquisição fechada. Tratava-se de uma opção — uma aquisição que “talvez” acontecesse . Mas, para os investidores, o sinal era claro. A SpaceX, que já havia se fundido com a xAI de Elon Musk no início do ano, estava se posicionando como uma concorrente de peso no setor de ferramentas empresariais de IA, um mercado em que antes ficava para trás dos rivais
.
Ao combinar a expertise da Cursor em IA com seu próprio supercomputador de treinamento Colossus, a SpaceX prometia construir “a melhor IA de codificação e trabalho do conhecimento do mundo” . O acordo permitiu que o mercado "reprecificasse" a SpaceX não mais como uma mera empresa de foguetes, mas como uma plataforma de IA. Esse "rebranding" foi cozinhado nas semanas que antecederam o IPO e adicionou ainda mais combustível ao rali pós-estreia
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Se os três primeiros dias foram de euforia, o quarto dia introduziu um elemento novo e mais volátil: as opções. Em 16 de junho de 2026, as opções da SPCX começaram a ser negociadas, e os primeiros sinais foram tudo, menos tranquilos .
Segundo dados da Susquehanna, o mercado de opções indicava, já no primeiro dia, uma chance de aproximadamente 15% de as ações da SpaceX subirem 50% nos próximos três meses — e uma probabilidade igual de caírem 50% no mesmo período . O estrategista Chris Murphy descreveu as maiores operações como “hedges associados a riscos de oferta futura”, observando que o grande volume de compra de calls foi acompanhado por uma grande compra de puts, o que sugere um mercado se preparando para a turbulência, e não apostando em uma escalada sem volta
.
A estreia das opções, embora por si só um fator de impulso e atenção para a ação, também serviu como um alerta em tempo real de que a trajetória do papel não era sustentável sem riscos significativos.
No pano de fundo da ação imediata do preço, havia um calendário de eventos de compra forçada que os investidores corriam para antecipar. Vários dos principais provedores de índices reescreveram suas regras para acomodar IPOs gigantes, e a SpaceX foi a primeira a se beneficiar.
Um índice notável está ausente da lista: o S&P 500. Em 4 de junho, a S&P Global reafirmou suas regras, que exigem que uma empresa seja lucrativa nos quatro trimestres anteriores para ser elegível . Com um prejuízo líquido de US$ 4,94 bilhões em 2025, a SpaceX não se qualificará para o S&P 500 antes de meados de 2027, no mínimo
. Esse é um detalhe relevante para investidores passivos: os fundos que seguem o S&P 500 terão exposição zero à SpaceX por pelo menos um ano
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A velocidade da ascensão da SpaceX também é um mapa de suas vulnerabilidades. O risco mais imediato é uma reversão brusca. Analistas já alertavam, ainda antes do IPO, que o “fervente IPO da SpaceX pode queimar os compradores de varejo” se o rali alimentado pelo momento virar um frenesi de vendas .
A alocação excepcionalmente grande ao varejo — cerca de 30% das ações — cria uma fragilidade específica. Se os investidores pessoa física que compraram a US$ 135 esperando um lucro rápido virem o preço cair, podem entrar em pânico e vender tudo ao mesmo tempo, criando um efeito cascata que testa os circuit breakers da ação .
Um risco de queima mais lenta, porém maior, é o vencimento do lock-up. A maioria das ações da SpaceX está atualmente impedida de ser vendida por insiders e investidores iniciais. Quando esses acordos de bloqueio começarem a expirar, o free float público se expandirá drasticamente, com potencial para sobrecarregar a demanda . O foco do mercado de opções nos riscos de oferta futura sugere que os grandes operadores já estão se protegendo contra esse evento
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O acordo com a Cursor também carrega um risco de execução. O trato permanece como uma opção, não uma aquisição concluída. Se a SpaceX não conseguir fechar o negócio ou se o prometido modelo de IA não se materializar, uma parte da narrativa de IA que ajudou a impulsionar a ação pode se desmanchar .
A estreia da SpaceX é mais do que a história de uma única ação. É um modelo para uma próxima onda de listagens de tecnologia de grande porte, com empresas como OpenAI e Anthropic observando atentamente.
O rali prova que narrativas de IA podem turbinar avaliações de mercado mesmo quando a conexão ainda está em estágio inicial. A SpaceX obteve o direito de potencialmente comprar uma startup de IA; ela não lançou um produto novo. Ainda assim, o mercado tratou a opção como um evento de reavaliação. A estreia também demonstra que os investidores de varejo, quando recebem acesso, podem ditar o movimento de preços no IPO de maneiras que os fluxos institucionais sozinhos não conseguiriam. A alocação de 30% para o varejo foi inédita, e seu impacto foi inegável .
Mas a lição mais crucial para futuros IPOs de IA pode ser o valor da escassez. O free float de 3% a 5% da SpaceX foi uma escolha deliberada que ampliou cada dólar de demanda. Se OpenAI e outras seguirem um manual semelhante, o padrão de ralis rápidos e impulsionados pela liquidez, seguidos por correções induzidas pelo vencimento de lock-ups, pode se tornar uma característica definidora de uma nova era de IPOs.
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