O resultado foi imediato: no fim da manhã, os papéis da própria Rheinmetall, da Renk (fabricante de sistemas de transmissão para veículos militares) e da Hensoldt (especializada em sensores e eletrônica de defesa) já operavam com perdas de até 2,4%, figurando entre os poucos recuos em um mercado alemão que, no restante, avançava . Até o fechamento, as perdas da Rheinmetall se aprofundaram para 3,7% a 4,6%, dependendo do horário e do sistema de negociação
. A empresa já vinha de um fechamento anterior a 1.209,80 euros, e o saldo do dia agravou a trajetória descendente da ação
.
O que torna a reação da segunda-feira mais grave é que ela atinge uma empresa cuja confiança do mercado já estava abalada por uma sucessão de más notícias ao longo do primeiro semestre de 2026:
Projeções frustrantes desde o início do ano – Já no final de fevereiro, a Rheinmetall havia divulgado suas primeiras indicações para 2026, consideradas "cautelosas" pelo mercado. A reação foi imediata: as ações caíram 7,9% em um único dia. O ponto central da frustração foi a previsão de receita do grupo, que ficou entre 13,2 bilhões e 14,1 bilhões de euros — a mediana dessa faixa ficou 12% abaixo do consenso dos analistas. O freio no crescimento da divisão naval, que inclui a recém-adquirida Lürssen, foi um dos principais fatores desse descompasso .
Resultados trimestrais aquém do esperado – Em maio, a empresa divulgou os números do primeiro trimestre, e as más notícias continuaram. As vendas e o lucro operacional ficaram abaixo do que os analistas projetavam. Mais preocupante, o fluxo de caixa livre operacional derreteu para um saldo negativo de 285 milhões de euros, em contraste gritante com os 243 milhões positivos registrados um ano antes .
Perda de um grande defensor no mercado – No início de maio, o banco J.P. Morgan, que durante quase quatro anos manteve recomendação de compra (overweight) para as ações da Rheinmetall, rebaixou o papel para "neutro" (neutral). O banco americano não apenas mudou a recomendação: também cortou o preço-alvo em quase 30%. Na visão dos analistas liderados por David Perry, a Rheinmetall vinha apresentando dificuldades para crescer no ritmo que o mercado esperava, e o risco de novas decepções com os lucros superava o potencial de surpresas positivas . A ação chegou a despencar 9,2% no dia do anúncio, a maior queda diária desde agosto de 2022
.
Crise de imagem com declarações do CEO – No final de março, a empresa também enfrentou um problema de natureza diferente, mas igualmente danoso para a percepção do mercado. O CEO Armin Papperger deu uma entrevista na qual fez comentários depreciativos sobre a estratégia de guerra com drones da Ucrânia — tecnologia que vinha se mostrando surpreendentemente eficaz contra as forças russas. As declarações geraram uma condenação generalizada e forçaram a Rheinmetall a entrar em modo de controle de danos. No acumulado dos dias seguintes, as ações chegaram a cair cerca de 10%, agravando o clima de desconfiança em torno da gestão .
Carteira de pedidos bilionária, mas conversão lenta – A Rheinmetall tem uma impressionante carteira de pedidos de 73 bilhões de euros. No entanto, investidores estão cada vez mais céticos quanto à velocidade com que essas encomendas se transformarão em receita e geração de caixa. Há riscos específicos em programas de munição, drones e no segmento naval, e o mercado passou a exigir provas concretas — e não apenas promessas — de que essa montanha de contratos vai se materializar em lucros .
A trajetória da Rheinmetall não pode ser dissociada do movimento mais amplo do setor de defesa europeu. Depois de um ano de 2025 absolutamente extraordinário — com os papéis da Rheinmetall subindo cerca de 150% —, 2026 trouxe uma ressaca . O índice STOXX Europe Targeted Defence praticamente estagnou desde meados de janeiro
, e o setor amargava uma queda de 1,2% no acumulado do ano até o final de maio, em contraste com o ganho de 4,8% do índice Stoxx 600 mais amplo no mesmo período
.
Os motivos dessa virada são vários:
Fim da fase de empolgação com anúncios de gastos – Os enormes pacotes de rearmamento anunciados por governos europeus desde 2022 geraram uma corrida às ações de defesa em 2025. Agora, os investidores querem ver lucros. Há uma percepção crescente de que a simples divulgação de novos contratos não é suficiente para justificar avaliações que, em muitos casos, ficaram esticadas — a ponto de superar as de empresas de tecnologia .
Rebaixamento setorial pelo Morgan Stanley – Na semana anterior à queda da segunda-feira, o banco Morgan Stanley reduziu sua visão sobre o setor de defesa europeu de "Overweight" (acima da média) para "Equal Weight" (neutro). O banco justificou a mudança apontando a escassez de catalisadores de curto prazo e a possibilidade de que progressos em negociações de cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia esfriem ainda mais o entusiasmo .
A sombra das negociações de paz – Durante todo o ano de 2025 e agora em 2026, cada sinal de avanço em direção a um cessar-fogo ou a um possível acordo de paz no leste europeu provocou ondas de realização de lucros no setor. O mesmo ocorreu quando, em novembro de 2025, o então presidente dos EUA sinalizou disposição para conversas de paz. Agora, o acordo com o Irã adiciona mais uma camada de incerteza, minando a tese de que os gastos militares permanecerão elevados de forma permanente .
A questão dos drones – A guerra no Irã em 2026 trouxe à tona um debate que vai direto ao coração do modelo de negócios de gigantes como a Rheinmetall: a eficácia letal de drones de baixo custo está levando estrategistas e investidores a questionar se os orçamentos continuarão privilegiando grandes plataformas tradicionais — tanques, navios e sistemas pesados — ou se migrarão para tecnologias mais baratas e ágeis .
A queda da Rheinmetall na segunda-feira foi, na superfície, uma reação a uma manchete geopolítica. Mas, em profundidade, ela cristaliza um momento de ajuste de expectativas. A empresa alemã, que surfou a onda do rearmamento europeu, agora enfrenta um escrutínio muito maior sobre sua capacidade de executar, converter pedidos em caixa e navegar um ambiente geopolítico que já não favorece automaticamente as ações de defesa.
A combinação de erros de execução internos, perda de confiança de analistas influentes e um setor que entrou em modo de correção depois de um rali histórico tornou a Rheinmetall mais vulnerável a solavancos como o de segunda-feira. Para quem acompanha o mercado europeu, o episódio deixa uma advertência clara: em 2026, comprar defesa exige bem mais do que apostar em tensões geopolíticas — exige olhar para balanços, margens e gestão.
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