O efeito imediato da estrutura foi uma clássica rotação para ativos de risco ("risk-on"). O índice MSCI Ásia-Pacífico subiu até 3,2%, enquanto o petróleo Brent despencou quase 5%, para cerca de US$ 83 por barril . Os mercados de títulos seguiram o mesmo caminho, com os rendimentos caindo à medida que investidores precificavam uma pressão inflacionária menor e uma necessidade reduzida de aumentos agressivos nas taxas de juros. O rendimento do gilt britânico de 10 anos caiu mais de 1%, para seu nível mais baixo desde meados de abril, enquanto os gilts de dois anos recuaram 1,5% na manhã de segunda-feira . Os títulos europeus também tiveram forte alta, com os índices STOXX 600 e FTSE Eurofirst atingindo recordes .
No entanto, a euforia não foi unânime. A Bloomberg relatou que, apesar da queda do petróleo, os rendimentos dos Treasuries caíram apenas moderadamente, com investidores aguardando o texto completo do acordo e de olho em riscos futuros, incluindo uma reunião do Federal Reserve (o banco central dos EUA) . As preocupações com a inflação mantiveram muitos participantes do mercado em alerta, com estrategistas do KCM Trade, Pepperstone Group e Stifel Nicolaus alertando que o acordo tinha mais chances de criar uma oportunidade de negociação de curto prazo do que o início de um rali mais duradouro . Willem Sels, do HSBC, observou que o acordo de paz não desfaria rapidamente o dano econômico tangível já causado, e que o impulso inflacionário de meses de custos elevados de energia e frete persiste .
Uma das reversões mais impressionantes desencadeadas pela estrutura envolve os títulos do governo chinês (CGBs, na sigla em inglês). Durante o conflito, os CGBs emergiram como um porto seguro inesperado. Uma cesta de dívida de alto grau denominada em yuan — abrangendo títulos públicos e corporativos — foi o melhor desempenho entre todos os principais índices de renda fixa da Bloomberg este ano, com um retorno de cerca de 1,1% . Gestores de ativos globais haviam corrido para os CGBs não pelo rendimento, mas por sua correlação praticamente nula com os mercados ocidentais em meio a uma liquidação global da dívida soberana que fez os rendimentos de referência nos EUA, Reino Unido, Europa e Japão dispararem entre 35 e 60 pontos-base desde março . Enquanto isso, os rendimentos de CGBs equivalentes caíram 8 pontos-base .
O princípio de acordo de paz começou a reverter essa dinâmica. Com o risco geopolítico diminuindo, a justificativa para manter uma alocação dedicada como proteção de guerra ("war-hedge") enfraquece. Os investidores agora estão rotacionando de volta para ativos de risco e títulos do governo ocidentais, sinalizando o início do desmonte do posicionamento em CGBs como porto seguro que se acumulou durante o conflito . A mudança é notável porque reverte um momento raro em que a dívida chinesa se descolou das tendências globais de juros e funcionou como um diversificador genuíno de portfólio para instituições globais.
A estrutura desencadeou um rápido desmonte de hedges da era do conflito em várias classes de ativos. De acordo com a Bloomberg, os fundos de hedge estão reativando suas estratégias pré-guerra, realocando capital para títulos do Tesouro americano de curto prazo, moedas asiáticas castigadas e outras operações cíclicas abandonadas quando a guerra começou . A gestora Grey Value Management, da Flórida, e a Reed Capital Partners, de Singapura, identificaram valor em títulos do governo dos EUA de prazos mais curtos, enquanto a Vantage Point Asset Management apontou ações do Sudeste Asiático como potenciais destaques de desempenho .
O dólar americano atingiu a mínima de 10 dias, à medida que o capital saiu de posições seguras em USD e migrou para moedas de maior risco e ativos de mercados emergentes . O won sul-coreano se fortaleceu em 8,7 wons, para 1.511,1 por dólar, e os títulos do governo coreano subiram com as expectativas de retorno do capital estrangeiro . Hedges ligados ao petróleo foram agressivamente desfeitos, com os contratos futuros de petróleo bruto dos EUA caindo mais de 4%, já que a reabertura do Estreito de Ormuz removeu o maior prêmio de risco de oferta embutido nos preços de energia .
Apesar da reação positiva do mercado, ressalvas significativas estão moderando o entusiasmo. A estrutura anunciada no domingo é um memorando de entendimento — uma estrutura inicial, não um acordo de paz final e abrangente . Uma cerimônia formal de assinatura está marcada para sexta-feira, 19 de junho, na Suíça . Os operadores estão perfeitamente cientes de que "um MoU/estrutura não é nem um acordo, nem um tratado de paz final e abrangente" .
A reabertura do Estreito de Ormuz, onde quase 600 embarcações aguardam para sair, está condicionada à assinatura formal e à manutenção do cessar-fogo mais amplo . A estrutura estabelece um período de cessar-fogo de 60 dias, durante o qual se espera que novas conversas abordem questões não resolvidas, incluindo o programa nuclear do Irã .
As negociações nucleares são uma questão totalmente separada e sem solução. Trump afirmou que, se o Irã não conseguir chegar a um acordo nuclear conclusivo com os EUA — um processo que seus assessores preveem que começará na sexta-feira, na Suíça — ele reiniciaria os ataques militares . O memorando de entendimento prevê uma suspensão das hostilidades por 60 dias, mas a questão nuclear continua sendo o maior risco pendente .
O Irã anunciou que todos os confrontos militares, incluindo os no Líbano, cessarão permanentemente a partir da noite de segunda-feira . No entanto, a atividade militar de Israel no Líbano não é explicitamente coberta pela estrutura EUA-Irã, e se o compromisso de Teerã se manterá em meio às operações israelenses em andamento continua sendo uma incerteza-chave .
O rali no mercado de títulos e o desmonte de hedges são reais, mas parciais. Até que o MoU seja assinado na sexta-feira, as conversas nucleares produzam uma estrutura e o Estreito de Ormuz seja fisicamente reaberto ao tráfego normal, um prêmio de risco de implementação significativo permanecerá precificado nos títulos soberanos e no posicionamento entre ativos. O dano inflacionário do conflito — acumulado ao longo de meses de custos elevados de energia e transporte — não desaparecerá da noite para o dia, e a trajetória da política monetária do Federal Reserve permanece como uma fonte separada de incerteza .
Por ora, os mercados estão precificando esperança, não certeza. A estrutura reabriu a porta para um cenário de investimentos pré-guerra, mas os investidores estão mantendo uma mão na saída.