O esforço com a Vera marca uma mudança estratégica significativa para a Nvidia, que está essencialmente reconstruindo seu negócio na China em torno de um produto que Washington ainda não bloqueou . Fontes indicam que a companhia espera gerar uma receita substancial com a iniciativa. O chip, projetado para cargas de trabalho de IA em data centers, representa uma aposta de que os reguladores americanos não fecharão imediatamente uma brecha que não previram ao redigir restrições baseadas em métricas de desempenho de GPU.
Essa manobra se desenrola em um cenário político volátil. Em janeiro de 2026, o Escritório de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio dos EUA revisou formalmente sua política de licenciamento para semicondutores avançados destinados à China, passando de uma "presunção de negação" para uma revisão "caso a caso" para chips como o Nvidia H200 e o AMD MI325X . O governo do presidente Trump impôs, simultaneamente, uma taxa de 25% sobre as exportações permitidas do H200 . No entanto, a reação no Congresso tem sido rápida e bipartidária. O Senado aprovou, no final de 2025, uma legislação exigindo que fabricantes de chips americanos priorizem clientes nos EUA antes de vender para a China, e o Comitê de Relações Exteriores da Câmara avançou com um projeto de lei em fevereiro de 2026 que daria ao Congresso uma janela de 30 dias para revisar e potencialmente bloquear a venda de semicondutores avançados para nações adversárias .
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, já sinalizou publicamente uma abordagem cautelosa e em fases para reintroduzir GPUs mais poderosas no mercado chinês. Em um evento em março de 2026 na China, com cobertura do Global Times, Huang indicou que a empresa buscaria a aprovação do governo americano para exportar suas GPUs Blackwell apenas depois que sua plataforma de próxima geração, a Vera Rubin, fosse lançada no segundo semestre de 2026 e amplamente adotada por empresas americanas .
Enquanto a Nvidia encontra caminhos estreitos de volta à China, as maiores empresas de tecnologia do país não estão esperando. O exemplo mais ilustrativo é a ByteDance, que está executando uma guinada clara e rápida em direção a alternativas domésticas.
Em meados de junho de 2026, a ByteDance está em negociações ativas com a Iluvatar CoreX, sediada em Xangai, para comprar chips de IA especificamente para cargas de trabalho de inferência — a tarefa computacional de rodar modelos de IA já treinados . Fontes familiarizadas com as discussões disseram à Reuters que a expectativa é de que a Iluvatar CoreX envie pelo menos 50 mil chips para a ByteDance ainda este ano . A empresa também explora um acordo de fornecimento paralelo com a divisão de chips Kunlunxin, do Baidu .
Se for finalizado, o acordo com a Iluvatar CoreX a tornaria o terceiro grande fornecedor doméstico de GPUs da ByteDance, juntando-se a um portfólio que já inclui a série Ascend da Huawei e a Cambricon . Essa diversificação não é puramente voluntária. Os órgãos reguladores chineses já obrigaram a ByteDance a usar chips de IA desenvolvidos domesticamente, vindos da Huawei e da Cambricon, em seus data centers, impedindo-a, na prática, de depender exclusivamente de hardware projetado nos EUA .
A guinada da ByteDance faz parte de um esforço nacional mais amplo. O ecossistema doméstico de chips de IA se expandiu rapidamente e agora inclui uma gama de participantes: linha Ascend da Huawei, Kunlunxin do Baidu, T-Head do Alibaba, além de Cambricon, Moore Threads, Enflame e Iluvatar CoreX . O processador Ascend 950PR da Huawei, lançado em março de 2026, alega ter desempenho 2,8 vezes superior ao do H20 da Nvidia e incorpora a primeira memória de alta largura de banda (HBM) interna da empresa . A ByteDance, sozinha, fez um pedido de US$ 5,6 bilhões pelos chips — o maior pedido único de chips domésticos da história chinesa — com Alibaba e Tencent seguindo o mesmo caminho .
Esse ecossistema doméstico também está se tornando cada vez mais capitalizado. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, quatro empresas chinesas de GPU abriram seu capital, levantando juntas US$ 2,8 bilhões, com retornos no dia de estreia das ações variando de 76% a 700% . A Huawei, por sua vez, projeta um aumento de 60% na receita com chips de IA para 2026, visando algo em torno de US$ 12 bilhões .
O governo chinês reforçou essa trajetória por meio de política industrial e orientações explícitas. Empresas locais foram aconselhadas a não depender da tecnologia americana, criando uma incerteza de demanda constante, mesmo quando as licenças de exportação dos EUA são aprovadas . O resultado é uma mudança estrutural: as gigantes de tecnologia chinesas estão simultaneamente testando, comprando e, em alguns casos, projetando seus próprios chips de IA, movendo-se com uma velocidade e escala que teriam sido improváveis antes da atual rodada de controles de exportação americanos.
As duas narrativas — a estratégia Vera da Nvidia e a diversificação doméstica da ByteDance — capturam o momento atual com precisão. A Nvidia mostra maestria na navegação regulatória, identificando uma lacuna no arcabouço de controle de exportações classificado como CPU e movendo-se agressivamente para preenchê-la antes que os formuladores de políticas possam responder. Já a ByteDance e seus pares chineses executam um desacoplamento de longo prazo, apoiado pelo Estado, do silício americano, construindo uma infraestrutura paralela que reduz sua vulnerabilidade ao próximo movimento político de Washington.
Nenhum dos lados venceu ou perdeu completamente. A Nvidia mantém uma posição em um mercado que o CEO Jensen Huang certa vez descreveu como uma oportunidade de US$ 50 bilhões efetivamente "fechada" para empresas americanas . As firmas chinesas ganham tempo, performance e independência com uma gama crescente de chips domésticos, mas a diferença entre os processadores mais avançados dos EUA e os da China ainda é significativa em termos absolutos. A guerra dos chips de 2026 é menos um conflito binário e mais uma adaptação elaborada e de altíssimo risco — com ambos os lados manobrando dentro das restrições que o outro construiu.