O banco Saxo resumiu bem o sentimento: "o acordo prejudica o dólar", enquanto moedas de países exportadores de commodities e sensíveis ao risco, como o dólar australiano e o neozelandês, lideraram os ganhos. O iene japonês, por outro lado, teve desempenho inferior, mostrando que a aversão ao risco deu lugar ao otimismo.
O maior catalisador da mudança de humor foi a cláusula de reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. O bloqueio naval americano e os temores de interrupção no fornecimento eram os principais fatores que mantinham o preço do barril em patamares elevados.
Com o acordo, os futuros do petróleo bruto nos EUA despencaram mais de 4% nas negociações asiáticas. O presidente Donald Trump celebrou em sua rede social: "Deixem o petróleo fluir!". Contudo, a euforia tem prazo de validade: a estatal dos Emirados Árabes, ADNOC, já sinalizou que a retomada total do trânsito de petróleo pelo estreito pode levar meses, atrasando o verdadeiro alívio na oferta para o primeiro ou segundo trimestre de 2027.
O comportamento do ouro pode parecer contraditório. Afinal, se a paz reduz os riscos, o metal precioso não deveria cair? A explicação está em outra ponta: a fraqueza do dólar e a redução das expectativas de alta de juros nos EUA.
Com o petróleo mais barato, a pressão inflacionária global diminui, dando ao Federal Reserve (Fed) mais espaço para interromper ou desacelerar o ciclo de aperto monetário. Isso derruba os juros reais dos títulos americanos, tornando o ouro — que não paga rendimento — um investimento mais atrativo. O resultado foi um salto de até 2,7% no preço à vista, atingindo US$ 4.334 por onça, o maior valor desde 9 de junho.
O clima de otimismo tomou conta das bolsas. Os futuros do S&P 500 subiam cerca de 0,8% e os do Nasdaq 100 avançavam 1,2% antes mesmo da abertura dos mercados à vista nos EUA. Na Ásia, as bolsas e os títulos de renda fixa também operaram em forte alta, com os investidores vendendo suas proteções em dólar e petróleo para comprar ações.
O otimismo, no entanto, não veio sem riscos. No mesmo domingo em que o acordo foi anunciado, Israel bombardeou os subúrbios de Beirute, no Líbano, em retaliação a ataques com drones do Hezbollah, grupo aliado do Irã. O ataque matou ao menos três pessoas e feriu outras 15.
Esse fato expõe uma fragilidade crucial: o texto do memorando de entendimento, batizado de "Memorando de Islamabad", prevê a "cessação de operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano". Israel, porém, não é signatário e continua sua ofensiva contra milícias apoiadas pelo Irã, o que ameaça a credibilidade do cessar-fogo.
Além disso, o pacto é um acordo preliminar. A assinatura formal está marcada apenas para 19 de junho, na Suíça, e inicia uma janela de 60 dias para as complexas negociações sobre o programa nuclear iraniano. Se essas conversas fracassarem, todo o acordo pode ruir.
A reunião de política monetária do Fed começa nesta terça-feira (16), e o acordo EUA-Irã caiu como uma luva para as autoridades americanas. O tombo do petróleo alivia a inflação, dando ao banco central americano mais argumentos para fazer uma pausa no ciclo de alta de juros. O mercado já precifica essa postura mais branda, o que impulsiona ações e ouro. No entanto, o comunicado oficial e as projeções de juros que serão divulgados nos próximos dias serão o verdadeiro teste para a continuidade desse rali.