As previsões dos analistas para o barril de Brent refletem toda essa incerteza. As estimativas antes da guerra giravam em torno de US$ 56 a US$ 67 . No auge da crise, os preços de mercado e as projeções revisadas dispararam para um intervalo de US$ 85 a US$ 117
. Agora, com o cessar-fogo em vigor, a perspectiva depende de qual cenário de recuperação se materializará.
O cessar-fogo de 14 de junho é melhor entendido como um memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês), que prorroga a trégua inicial de duas semanas de 8 de abril, já estendida por mais 60 dias no final de maio . Ele contém diversos compromissos operacionais, mas não constitui um acordo de paz abrangente, nem um tratado nuclear, nem um pacto sobre mísseis
. Veja as cláusulas centrais:
Paquistão e Catar atuaram como mediadores-chave durante todo o processo . Uma cerimônia oficial de assinatura foi programada para os dias seguintes ao anúncio, na Suíça
.
É importante reconhecer o que este acordo não é. Não se trata de um tratado de paz vinculativo. Ele não resolve as disputas sobre o programa de mísseis balísticos do Irã ou suas forças regionais por procuração. E seu sucesso depende inteiramente de ambas as partes cumprirem os termos durante o período de extensão de 60 dias — um período que sucede uma trégua que, efetivamente, já havia entrado em colapso nos dias anteriores ao anúncio .
A emergência de abastecimento no Estreito de Ormuz desencadeou uma redução extraordinária do petróleo armazenado em Cushing, Oklahoma, o ponto de entrega dos contratos futuros do West Texas Intermediate (WTI), considerado o maior centro de armazenamento de petróleo dos Estados Unidos.
Os Números (até 5 de junho de 2026):
A causa imediata desse cenário é o aumento vertiginoso das exportações de petróleo dos EUA. Com grande parte do mundo sem acesso aos suprimentos do Oriente Médio, os compradores globais recorreram com força aos tipos de petróleo americanos. Os estoques gerais dos EUA despencaram para 434 milhões de barris, uma queda de cerca de 64 milhões de barris — ou aproximadamente 7,5% — desde o início da guerra . Cushing arcou com o maior impacto por ser um centro logístico vital para transportar petróleo doméstico até a Costa do Golfo para exportação.
Para entender a dimensão da ruptura, é útil começar pelo consenso que existia antes da guerra. Naquela época, os analistas estavam quase unanimemente pessimistas com o petróleo.
A narrativa predominante era de excesso de oferta: a produção da OPEP+, a crescente produção de países de fora do grupo e a demanda fraca da China levariam a um aumento dos estoques nos países desenvolvidos (OCDE) e a preços mais baixos .
Essa narrativa ruiu quando o Estreito de Ormuz foi fechado na prática. Em abril, o Brent disparou para US$ 138 em 7 de abril e fechou o mês com uma média de US$ 117 . Os analistas correram para revisar seus modelos.
Previsões durante o auge da crise (Março–Maio de 2026):
Perspectiva Pós-Cessar-Fogo:
O acordo de 14 de junho elimina o risco de oferta mais imediato, mas os analistas alertam que os preços não retornarão da noite para o dia aos níveis pré-guerra. A perspectiva mais recente da EIA, que já pressupunha uma normalização lenta, colocava o Brent a US$ 89/barril no 4º trimestre de 2026 e a US$ 79 em 2027 . A projeção do Morgan Stanley de US$ 80 em 2027 também assume uma recuperação gradual
. O cenário-base do Goldman Sachs para o 4º trimestre gira em torno de US$ 90, com riscos de alta que poderiam levar os preços acima de US$ 100 se as exportações do Golfo se estabilizarem mais lentamente do que o esperado
.
A grande distância entre o consenso pré-guerra (US$ 56–US$ 67) e a base pós-crise (US$ 80–US$ 100) reflete vários fatores que persistem: o tempo necessário para limpar as minas e restaurar a passagem segura, o desafio logístico de retomar a produção iraniana e o prêmio de risco político que permanecerá enquanto o cessar-fogo for um memorando de entendimento, e não um acordo permanente.
O teste imediato será observar se os estoques de Cushing se estabilizam. Se o petróleo iraniano começar a fluir pelo Estreito em semanas e as exportações dos EUA se normalizarem, a pressão sobre o armazenamento doméstico poderá diminuir. Se a trégua ruir ou o processo de remoção de minas se arrastar, Cushing poderá se aproximar de seu piso operacional — um evento que provavelmente elevaria os preços do WTI, independentemente da trajetória mais ampla do Brent.