Essa montanha de dinheiro não saiu do caixa dos seus famosos ETFs passivos, mas sim de suas estratégias de gestão ativa. Relatos de maio do mesmo ano já indicavam que a BlackRock discutia internamente um compromisso entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões, a ser sacado de um colossal fundo de US$ 536 bilhões dedicado a esse tipo de mandato .
O pedido da BlackRock foi apenas um entre vários, igualmente astronômicos, feitos por outras grandes gestoras, fundos soberanos e family offices. Fundos do Oriente Médio, por exemplo, fizeram pedidos de US$ 1 bilhão ou mais, e houve investidores institucionais que entraram com ordens-âncora de US$ 10 bilhões cada . O livro de ofertas foi fechado em 10 de junho, cabendo aos bancos líderes decidir como as ações seriam distribuídas para a estreia na Nasdaq, em 12 de junho
.
Mas e a história dos US$ 882 milhões? Ela surgiu em sites não especializados em finanças, com forte viés em criptomoedas e redes sociais, e não encontra absolutamente nenhum respaldo em veículos como Bloomberg, WSJ, CNBC, NYT ou NPR . É um número que, por ora, não pode ser verificado por meio do jornalismo financeiro de credibilidade e deve ser tratado com grande ceticismo. O que é sólido e verificado é que a aposta real da BlackRock foi ordens de magnitude maior.
A BlackRock não estava apenas comprando ações. No dia 9 de junho, apenas três dias antes da histórica estreia, ela lançou na Europa o iShares Space Technologies UCITS ETF, negociado com o código STAR (estrela, em inglês) . A grande sacada desse fundo é um mecanismo técnico que permite a inclusão de empresas recém-listadas na bolsa em um prazo de apenas 10 a 30 dias, por meio de revisões intrarrebalanceamento. Isso elimina a espera de meses até o próximo rebalanceamento trimestral
.
O timing foi tudo, menos uma coincidência. O fundo STAR, que tem uma taxa de administração de 0,5%, já nasceu com 56 ações na carteira. A Rocket Lab lidera com cerca de 20% do patrimônio, seguida por Intuitive Machines (3,4%) e AST SpaceMobile (2,6%) . Ele foi claramente posicionado como a resposta direta da BlackRock a um mercado que, de uma hora para outra, ficou órfão de um acesso rápido e passivo à SpaceX.
O apetite por um pedaço da SpaceX foi algo jamais visto. A demanda total superou os US$ 250 bilhões, e algumas fontes chegaram a reportar mais de US$ 350 bilhões quando somadas as subscrições de investidores institucionais e de varejo . Com apenas US$ 75 bilhões em ações disponíveis, a oferta foi pelo menos 4 vezes superada (oversubscribed)
.
Apenas os investidores de varejo, por meio de suas corretoras, enviaram pedidos que somaram mais de US$ 70 bilhões . A divisão das ações ficou a cargo dos quatro bancos líderes — Bank of America, Goldman Sachs, JPMorgan Chase e Morgan Stanley, recrutados no início de 2026 —, que precisaram fatiar um bolo finito entre uma legião de compradores famintos
.
A SpaceX precificou seu IPO em US$ 135 por ação no dia 11 de junho de 2026. Foram vendidas 555.555.555 ações, levantando exatos US$ 75 bilhões. Ao fazer isso, pulverizou o recorde anterior de US$ 29,4 bilhões, que pertencia à Saudi Aramco desde 2019 . A precificação atribuiu à empresa um valor de mercado de aproximadamente US$ 1,77 trilhão
.
No dia 12 de junho, ao estrear na Nasdaq Global Select Market com o código SPCX, o papel abriu a US$ 150, uma alta de 11% sobre o preço do IPO . E a festa estava apenas começando. No fechamento, a ação atingiu US$ 161,11, um ganho de 19%, o que empurrou o valor de mercado da empresa para mais de US$ 2 trilhões e a colocou entre as seis maiores dos Estados Unidos
. No pico do dia, chegou a ser negociada a US$ 176,52, um estouro de quase 31%
.
Com isso, a participação de 38% de Elon Musk passou a valer algo em torno de US$ 800 bilhões, coroando-o como o primeiro trilionário da história . O volume de negócios foi gigantesco: mais de 510 milhões de ações trocaram de mãos, movimentando mais de US$ 84 bilhões em um único dia — isso com apenas 13% do capital da empresa flutuando no mercado
.
No dia 4 de junho de 2026, a S&P Dow Jones Indices soltou uma decisão que foi um balde de água fria em muitos investidores: ela não iria reduzir o período de "quarentena" de 12 meses para empresas recém-listadas e, principalmente, não abriria mão de suas exigências de rentabilidade e de capital flutuante apenas por causa do tamanho da empresa . Foi um "não" redondo a uma proposta que vinha sendo consultada desde maio e que poderia ter aberto um caminho expresso para IPOs gigantes como o da SpaceX
.
Naquele mesmo dia, a S&P até afrouxou um pouco as exigências de percentual de free float para seus índices amplos, mas manteve seu filtro de lucro: para ser elegível ao S&P 500, a empresa precisa demonstrar lucro pelo padrão contábil americano (GAAP) no trimestre mais recente e na soma dos quatro trimestres anteriores . A SpaceX, que carrega perdas históricas significativas, não consegue passar nesse teste — mesmo que sua lucratividade futura melhore — por pelo menos um ano
.
Os dois maiores ETFs que replicam o S&P 500 — o VOO, da Vanguard, e o IVV, da BlackRock — administram, juntos, quase US$ 2 trilhões em ativos . Com as regras inalteradas, nenhum dos dois pode comprar uma única ação da SpaceX até, no mínimo, meados de 2027
. Isso atrasa um fluxo de capital passivo estimado em ao menos US$ 14 bilhões, que seria forçado a entrar se a S&P tivesse aberto a porteira
.
Enquanto isso, a Nasdaq e a FTSE Russell se moveram na direção oposta, criando regras para acelerar a inclusão de IPOs gigantes em seus índices. A Nasdaq, por exemplo, eliminou a exigência de free float mínimo e permitiu a inclusão em apenas 15 dias, o que, segundo analistas, poderia gerar uma compra forçada de US$ 3,1 bilhões por parte dos ETFs que seguem o Nasdaq 100 . Mas a S&P 500, o índice mais famoso e replicado do planeta, bateu o pé, criando um abismo estrutural no mercado.
Com a porta do S&P 500 fechada, a demanda por SpaceX não desapareceu — ela simplesmente mudou de endereço. Os investidores que queriam exposição ao maior IPO do ano não podiam encontrá-la no VOO, no IVV ou no SPY. Esse apetite reprimido está migrando com tudo para ETFs de gestão ativa e temáticos, que não seguem o índice e podem comprar SPCX imediatamente.
O STAR ETF da BlackRock é o exemplo mais emblemático, mas está longe de ser o único. A Defiance ETFs confirmou que seu inovador ETF de espaço com exposição alavancada de 2 vezes ao dia (SPCL) comprou ações de SpaceX diretamente no IPO, ao preço de US$ 135, tornando-se o primeiro e único ETF dos EUA a oferecer esse tipo de exposição turbinada no dia da estreia . A Morningstar observou que os fundos de índice, de maneira geral, estão se adaptando, seja usando índices alternativos (que não o S&P 500) ou partindo para estratégias ativas para não ficarem de fora dessa festa
.
A situação também reacendeu o alerta sobre o risco de concentração em ETFs. Uma reportagem da Bloomberg no início de 2026 já havia mostrado que, em um fundo de nicho (o ERShares Private-Public Crossover ETF), a posição em SpaceX — ainda como empresa privada — havia inflado para assustadores 37% do portfólio, e em alguns dias, passado dos 40%. A dúvida que fica é: qual o limite seguro para um ETF ter uma única ação, ainda mais uma recém-saída do forno?
Um IPO recorde que abre uma nova era. Os US$ 75 bilhões levantados e o salto de 19% no primeiro dia mostram que há um apetite voraz por IPOs de tecnologia de grande porte. Isso deve acelerar a fila de empresas como OpenAI e Anthropic para abrir capital . Alguns analistas já chamam o fenômeno de uma "super onda de IPOs de US$ 35 trilhões"
.
O gargalo passivo não é um acaso, é uma regra. A decisão da S&P 500 é estrutural. Ela significa que os maiores fundos de índice do mercado vão sistematicamente perder todo o primeiro ano de negociação de qualquer IPO gigante que não dê lucro — e não se trata apenas da SpaceX. Essa lacuna cria um mercado permanente para ETFs ativos e temáticos .
A inovação nos ETFs temáticos está na velocidade. O mecanismo de entrada rápida de 10 a 30 dias do BlackRock STAR ETF representa uma nova geração de produtos. São fundos indexados, mas com um design turbinado para capturar IPOs em uma velocidade que os índices tradicionais não conseguem igualar. Como bem observou a Morningstar, a linha entre estratégia passiva e ativa está cada vez mais borrada .
A concentração de poder nas mãos de gigantes é um risco real. Um único pedido de US$ 5 bilhões da BlackRock é maior do que a quase totalidade dos IPOs inteiros que já vimos. Junto às demais ordens bilionárias, meia dúzia de gestoras passam a ter um poder de fogo e uma influência descomunais sobre as alocações e, no futuro, sobre a dinâmica do mercado secundário dessas estreias históricas.
O pequeno investidor está em um jogo de duas velocidades. Enquanto os pedidos de varejo somaram mais de US$ 70 bilhões, o acesso não é igual para todos. Quem investe pelos fundos passivos do S&P 500 está travado do lado de fora. Já quem opera com ETFs ativos ou faz a compra direta da ação SPCX pôde embarcar nesse foguete no primeiro minuto da largada .