A crise não afeta apenas quem trabalha. Milhares de torcedores iranianos que já tinham organizado viagem, comprado passagens aéreas e reservado hotéis para assistir aos jogos nos EUA foram pegos de surpresa com a alegação da Federação Iraniana (FFIRI) de que a FIFA revogou toda a cota de ingressos para as três partidas da fase de grupos: contra a Nova Zelândia (15 de junho) e a Bélgica (21 de junho), ambas em Los Angeles (Inglewood), e contra o Egito (26 de junho) em Seattle . O Irã chamou a decisão de uma “tentativa de sabotar” sua participação. Em resposta, a FIFA limitou-se a declarar que estava “trabalhando para maximizar as oportunidades de entrada dos torcedores iranianos”
. Pelas regras, cada federação tem direito a 8% dos ingressos de seus jogos para distribuir à sua torcida. A revogação, a poucos dias da abertura, foi interpretada como uma retaliação sem precedentes.
Adicionalmente, a logística da seleção foi transformada em uma operação de guerra. Com os EUA restringindo as autorizações de viagem, os jogadores e a equipe que recebeu visto foram notificados de que devem obrigatoriamente entrar e sair do território americano no mesmo dia de cada partida, impossibilitando a permanência da delegação para aclimatação, descanso ou treinos no local .
Paralelamente, um episódio envolvendo outro país africano agravou a percepção de “vetting” excessivo. O árbitro somali Omar Artan, de 34 anos, foi barrado no Aeroporto Internacional de Miami pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês), apesar de portar visto válido e passaporte diplomático. A justificativa oficial foi “preocupações de verificação de segurança” .
Artan estava prestes a se tornar o primeiro árbitro da Somália na história das Copas, tendo sido nomeado o melhor árbitro africano em 2025. Sua exclusão do torneio foi confirmada pela FIFA, que informou que a decisão partiu exclusivamente das autoridades migratórias americanas . De volta a Mogadíscio, Artan foi recebido como herói por compatriotas e autoridades locais
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Andrew Giuliani, chefe da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, defendeu publicamente tanto as negativas de visto aos iranianos quanto a deportação do árbitro. Giuliani afirmou à imprensa que “qualquer pessoa que esteja se comunicando com atores que agem contra os Estados Unidos não será admitida”, deixando claro que as decisões não são esportivas, mas sim pautadas pela segurança nacional americana .
O pano de fundo dessa crise não é meramente burocrático. As negativas ocorrem em meio a uma escalada de sanções e tensões militares entre EUA e Irã . A embaixada iraniana na Turquia usou o X (antigo Twitter) para questionar por que os EUA anunciaram a concessão de vistos aos jogadores, omitindo que “uma grande parte da equipe gerencial e executiva” foi rejeitada
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Oficialmente, o governo iraniano classificou as ações americanas como “comportamento vingativo” e “a pior forma possível de interferência política no esporte”, acionando a FIFA para que interviesse e garantisse sua plena participação. A crise tem um precedente: meses antes do sorteio, o Irã ameaçou boicotar o evento em Washington porque apenas quatro vistos foram concedidos a uma delegação de nove pessoas, negando inclusive a entrada do presidente da FFIRI na época .
A situação deixa uma ferida aberta no discurso de união que o futebol costuma promover. Com a bola já rolando, o Irã entra em campo não apenas contra Nova Zelândia, Bélgica e Egito, mas contra um complexo tabuleiro de política internacional que já fez suas primeiras vítimas fora das quatro linhas.