O mecanismo é uma cadeia de reações atmosféricas. Quando CO, NOₓ e NMVOCs são emitidos, eles interagem com a luz solar e com outros compostos na baixa atmosfera — a troposfera — para produzir ozônio .
Um estudo de modelagem ligado à NASA calculou a forçante radiativa do ozônio troposférico no período pré‑industrial (1750) até os dias atuais (2010) em 410 mW/m². Desse total, a responsabilidade foi dividida assim :
Isso significa que quase metade do forçamento do ozônio troposférico é "culpa" desses poluentes indiretos — os mesmos que raramente aparecem nos inventários de metas climáticas nacionais. E como o ozônio troposférico é um gás de vida curta, o efeito de aquecimento se concentra nos anos seguintes à emissão, não se acumulando por séculos como o CO₂ .
O Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris focam nos gases de efeito estufa diretos e bem misturados na atmosfera global (CO₂, CH₄, N₂O e gases fluorados) . Esses são gases cuja concentração é razoavelmente uniforme no globo e cujo tempo de vida permite trajetórias de mitigação de longo prazo.
Já os indiretos têm comportamentos mais localizados, com química atmosférica complexa e incertezas científicas maiores — fatores que dificultam sua inclusão em um tratado que se baseia em metas anuais de emissão e potenciais de aquecimento global padronizados .
No entanto, muitos países já relatam esses gases em seus inventários nacionais. O Reino Unido, por exemplo, inclui NOₓ, CO, NMVOCs e SO₂ em seu inventário oficial de gases de efeito estufa exatamente por reconhecer que eles "podem produzir aumentos nas concentrações de ozônio troposférico e isso aumenta o forçamento radiativo" . A submissão mais recente à UNFCCC também sinaliza que precursores de ozônio troposférico serão contemplados no relatório metodológico do IPCC de 2027
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Cortar esses poluentes não é apenas uma questão climática — é também uma questão de saúde pública. O ozônio troposférico é um poluente que irrita as vias respiratórias, agrava asma e bronquite e reduz a produtividade agrícola .
Como o ozônio troposférico tem vida curta (semanas a meses), reduzir seus precursores traz benefícios climáticos quase imediatos, diferentemente do corte de CO₂, cujo efeito na temperatura só é perceptível após décadas . Isso torna os gases indiretos um alvo atraente para estratégias de mitigação de curto prazo que complementem a descarbonização profunda de longo prazo.
Ações práticas incluem:
O estudo da Science (Ocko et al., 2026) e a repercussão que gerou estão empurrando a comunidade internacional a abrir os olhos para esse "ponto cego" climático. Embora os gases indiretos não sejam novos para a ciência atmosférica, seu peso relativo — 15% do aquecimento atual — é um argumento forte para que as políticas climáticas deixem de ignorá-los.
Como resume a publicação do Spark Climate: cerca de 0,3°C do aquecimento atual vêm de compostos que a maioria das políticas climáticas simplesmente não enxerga. Fechar essa lacuna pode ser uma das alavancas mais rápidas e eficazes para desacelerar as mudanças climáticas enquanto o mundo corre atrás da meta de 1,5°C do Acordo de Paris .